O CACHORRO
Uma semana antes já começava a suar frio pensando na
feijoada. A feijoada era a especialidade da avó e toda a família se reunia no
primeiro domingo do mês para saborear o prato. Era uma tradição, que começara
bem antes dele nascer. O prato era completo e tinha direito a tudo e mais um
pouco: aquela farofa crocante feita com cebola tostadinha, couve refogada na
manteiga com bastante alho, fatias de laranja pera (azeda de fazer careta!) e
pra finalizar uma dose de cachaça da boa, que descia queimando e esterilizando
tudo o que encontrasse pelo caminho.
O cheiro até que era bom. Quando a avó preparava a feijoada,
o cheiro de coentro se espalhava pela casa (pois ela sempre cozinhava com
coentro), percorrendo e preenchendo cada cômodo e se misturando aos outros
odores: ao perfume amadeirado que usava o seu avô, ao cheiro doce dos morangos
cultivados no quintal e até ao fedôzinho
do canto da casa onde ficava o cachorro – que em toda a vida havia tomado, no
máximo, uns dois banhos, um deles porque havia chafurdado no cocô.
O cheiro até que era bom, sim. Mas na feijoada da avó, além
das carnes “normais” – que ele já havia deixado de comer há mais de dez anos - iam
partes nada nobres (segundo ele) dos porcos e bois: orelhas, língua e rabo. Aquelas
partes, além da textura molenga, eram peludas e faziam lembrar a cada momento
que se estava a comer um defunto.
Até então ele havia se safado. Como a família, que já era
grande, foi aumentando ao longo dos anos, já não cabiam mais todos sentados na
mesa da sala. Prontamente se voluntariou para comer no quintal, onde não por
acaso, recebia a companhia assídua do cachorro, que aguardava ansiosamente pelo
primeiro domingo do mês, já salivando de alegria uma semana antes do encontro.
E assim os anos haviam se passado até o presente momento,
quando veio a notícia de que o cachorro havia morrido de um mal súbito.
Quando chega na casa da avó é visível o seu incômodo. Suas mãos
suam e seus olhos percorrem todos os espaços da casa buscando uma saída para a
situação. Dessa vez, o cheiro do coentro e do feijão se mistura ao cheiro do
seu suor e, apesar de não estar presente, o odor dos pelos molhados do cachorro
também entra pelas suas narinas.
Não era segredo o quanto ele e o cachorro eram próximos e,
para evitar a lembrança e a solidão, dessa vez há para ele um lugar especial
reservado à mesa. Todos se sentam e sua avó traz a panela da feijoada. Pro seu
alívio, dessa vez não há língua de boi e nem rabo ou orelha de porco. Ele então
olha para a panela e reconhece algo familiar. O cachorro.
O quê? Fizeram feijoada do pobre do cão? Que horror. Nem me fale se essa história for real... está bem legal, Natasha, o uso do olfato ao longo do conto. E gosto da sutileza da ação central: você não diz que o cachorro comia a feijoada, nós entendemos. Acho que, pensando nisso, o final poderia ser mais sutil. Do jeito que está, destoou. Como fazer para que o leitor entenda que o rapaz reconheceu o cachorro na panela? Taí o desafio.
ResponderExcluir