AZUL E ROSA
Cynthia Dorneles
A água estava geladíssima. O sol era aquele solzinho brocha de inverno. E mesmo o astro rei mal havia saído de dentro d’água. Seis horas da manhã de junho não era hora de ninguém estar dentro do mar. Era para estar no quentinho das cobertas, no máximo abrindo o olho para sentir melhor as texturas dos lençóis limpinhos e ver o cheiro do pão da padaria da esquina. Sim, era isso mesmo. O cheiro dos pães era algo que se podia cortar com a faca e passar manteiga, coisa de ver e não só cheirar. Parecia dentro da cozinha de sua casa. Dado que não havia ninguém com uma arma na cabeça dele, afinal por que estava as seis da manhã no oceano gelado? Denise. O nome dela era Denise.
Denise tinha voz rouca, pouco mais de um metro e meio, mas uma incrível capacidade de convencer Paulo a fazer qualquer coisa. E numa segunda feira ela havia dito que adorava homens com cheiro de mar. Na terça comentou que só a natação dava aos corpos uma tensão de músculos tão boa de se botar a cabeça sobre o peito de um homem. E na quarta disse que estava fazendo aulas no mar em Copacabana. As seis da manhã.
Foi o suficiente. Na quinta lá estava ele com uma roupa para frio de natação e uma remela teimosa que não saíra do olho mesmo ele passando sabonete a rodo. O prêmio foi um abraço de 50 segundos. E aquele sorriso que lhe fazia achar graça até em fila de hospital. Eles haviam se conhecido assim. Ele com Covid, respirando muito mal, e ela com um braço quebrado, sentindo muita dor. Preferia não pensar na doença e só lembrar que foi ali que a conhecera. Quando as coisas têm de ser, elas são. A moça morava numa rua perto da sua, estudava na mesma faculdade, mas ele jamais a vira antes. Se ele a visse, lembraria. Com certeza. Mas ela? Duvidava. Mais que duvidava. Ele tinha certeza que uma moça feito ela, em condições normais de temperatura e pressão seria incapaz de lembrar de um cara feito ele.
Nem bonito nem feio, nem magro nem gordo, nem preto nem branco, nem rico nem pobre, nem genial nem pateta. Por mais que pensasse, não via em si mesmo uma única qualidade que lhe distinguisse dos demais. Era mais fácil se definir por afirmações negativas. Seu nariz não era grande, sua boca não era fina, suas mãos não eram pequenas. E ele era capaz de sentir a tensão dos bichos quando os tocava, fazia ficarem calmos em suas mãos. E sabia que quando era bebê era lindo. Mas já lá se iam décadas. Quatro. Ele achava que a infância havia sido curta demais, a adolescência idem e agora tinha a impressão que havia um sem fim de tempos pela frente. Quando a mãe mostrava às amigas suas fotos de bebê com uma roupinha azul ficava sem graça. Mas consigo mesmo admitia que a mãe tinha razão. Ele era um bebê fofo plus, pele muito macia, olhos brilhantes. A mãe lastimava que ele não fosse mais bebê. Ele também. Vida de adulto era intolerável. Os assuntos de adulto não o comoviam. Os grandes objetivos da vida adulta lhe pareciam um tédio. Não sentia a menor necessidade de sair de casa. Aliás, para ser bem sincero, não via necessidade disso.
A mãe sempre liberara a casa. Quando quis fazer sexo com uma namorada, fez. Quando quis fumar um baseado, fumou. Quando quis encher a casa de amigos, a mãe adorou os amigos e os amigos adoraram a mãe. Esta só não gostara de um amigo, que achava espaçoso e abusado, e de uma namorada que achava esquisita por não cumprimentar ninguém. Ele concordava com a mãe. Não andava mais com o espaçoso e nem com a esquisita. Não tinham grandes conflitos. Arrumou uma gatinha de rua, cheia de pulgas, esquelética, recém-nascida. Alguns gritos, algumas broncas que terminaram quando ele fez faxina na casa dois dias seguidos e a mãe liberou o bicho. Para quê sair de casa?
Mas Denise um dia havia dito com um certo desprezo que homens que viviam com a mãe nunca se tornavam homens. A mãe havia perguntado três anos atrás se ele queria viver num apartamento que ela alugava e que estava vazio. Agora se arrependia de ter dito não. E já havia respondido que não outras vezes, cada vez que um inquilino saía e que a pergunta era repetida. Para quê iria morar sozinho? Sabia que a mãe gostava de viver com ele. E ele gostava de viver com a mãe. Era uma casa bagunçada, nada funcionava direito, se dois chuveiros fossem abertos ao mesmo tempo, cada um num banheiro, a água de um certamente ficaria fria. A tevê, por sua vez, ocupava um lugar estranho, bem na entrada da casa, fácil de derrubar. As janelas eram o pior detalhe: ficavam de frente para um outro prédio. Ele então ouvia as festas, sabia dos detalhes dos debates dos vizinhos de cada andar. E a cereja do bolo era o sol. O sol entrava de lado, só batia num único lugar: uma nesga. A gatinha sempre ocupava, ela que de boba não tinha nada. Neste único ponto do apartamento, ficava quentinho, tinha sempre uma luz linda que batia nos olhos verdes da gata. E a padaria tão perto que daria para descer de rapel e pegar o pão sem que ninguém visse. O cheiro do pão e a casa da mãe eram sinônimos.
Aonde estava o pão, a tristeza ia longe.
Deve ter ficado com um cheiro de mar bastante atraente, o corpo com tensões musculares bastante acolhedoras dos nadadores. Antes Paulo conversava muito comigo sobre tudo que lhe acontecia, éramos muito amigos. Mas já não falo com ele desde quando o namoro com Denise engatou. Ela ficava vermelha quando nos via conversando na rua. Soube por amigos que Paulo e Denise tiveram dois filhos gêmeos. Foram morar no apartamento que era da mãe de Paulo.
Os filhos do casal viraram modelos, estão tirando um bom dinheiro, imagino, há várias propagandas com os pequenos. Um dia vi a mãe de Paulo passeando com um cachorro que se chamava Ruído Rosa. Eu adorava a mãe dele. Nesse dia ela falava bem rápido o nome do cão e virava Dorosa. Só quando me aproximei ela me reconheceu. Depois de um tempo e várias piscadas em olhos vermelhos, é que entendi o nome composto do cão, Ruído Rosa.
Achei que ela estava meio aérea e distante.
Mas pode ser que fosse porque era um dia muito quente e eu mesma estivesse assim
Cynthia, já estou achando que você é craque em captar detalhes belíssimos, e cheios de significado. O detalhe do chuveiro, por exemplo, é uma verdadeira metáfora da convivência. E o cheiro de pão e a casa da mãe, sinônimos. Muito bom. O conto está muito bom, nesse sentido, recheado de detalhes. Minha observação vai para a narradora. Quem é essa pessoa que sabe de tudo, os detalhes íntimos, e que só no fim se revela uma narradora-testemunha, que existe em carne e osso? Será uma narradora verossímil? Ela me incomodou um pouco. Talvez se ela se revelasse mais cedo... Não sei. Veja o que acha.
ResponderExcluirEu tb fiquei embaralhada com ela. Vou ver como a introduzir sem cair de paraquedas. Muito obrigada por me dar o toque
ExcluirQue legal, Cynthia! Gostei de como você descreveu o personagem: "Nem bonito nem feio, nem magro nem gordo, nem preto nem branco, nem rico nem pobre, nem genial nem pateta. (...) Era mais fácil se definir por afirmações negativas."
ResponderExcluirÉ divertido porque volta e meia nós deparamos com pessoas assim. É um belo trabalho vê-las como elas se apresentam em vez de como gostaríamos que fossem né
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