As seis
badaladas
Ele limpa
uma gota de suor da testa e olha rapidamente para cima. São quase quatro da
tarde e o céu está nublado, mas apesar disso o calor é quase insuportável,
mesmo nessa época do ano. O clima ali parece estar mais abafado e úmido do que
nunca.
A camisa colada ao corpo o incomoda. Um cansaço enorme que já não
sabe se é do calor, da longa viagem ou das lembranças da infância que lhe
assomam todas de uma vez.
Para onde
olha, só vê rostos de crianças envelhecidas. Como podem estar velhas, pensou,
se na sua memória ainda eram todas crianças a brincar na praça? A vida passa
mais rápido do que o tempo que levamos para abandonar nosso passado.
Enquanto
se esforçava para reconhecer algumas das pessoas que lhe abraçavam e
sussurravam palavras entre lágrimas, sentiu uma sensação estranha. De repente,
era como se nunca houvesse ido embora, e tudo lhe fosse familiar.
Os carros
iam um a um, enfileirados, cadenciados no mesmo ritmo dos faróis que piscavam,
sinalizando um ritual que se repete.
Mais à
frente, abrindo caminho pelas ruas tão conhecidas, uma pequena multidão segue a
passos pesados, lentos, mas firmes. Passos de quem sabe o fim, mas que caminha
como se não soubesse.
Um
trajeto pequeno em chão, e tão grande em saudades. Não há passos lentos o
suficiente para adiar esse momento.
Pelo
caminho, as pessoas paravam o que estavam fazendo e, sentadas nas calçadas ou
apoiadas na janela, observavam atentas o cortejo que seguia. Alguns acenavam em
despedida, alguns aplaudiam em homenagem, alguns só silenciavam em respeito.
Ele
seguia por último, queria ver tudo e todo caminho, todas as ruas e cada beco
que já havia passado. E, enquanto andava também se perguntava: O que se passa
na cabeça dos que nos observam passar? Será a tristeza ou saudade de quem não
conhecem? Será o medo de saber que a morte está sempre nos espreitando? Será um
envergonhando alívio por não serem os seus? Será que dá para medir a vida pelo
tamanho da fila de pessoas que nos seguem no final?
Os sinos tocam. Já faz tempo, mas ainda lembra. São aqueles três dobres duplos, que vão ecoando lentos e profundos, por toda a cidade. E toda a cidade reconhece a mensagem.
Rayssa, fiquei nesse detalhe: crianças envelhecidas. Muito bom. Gosto da forma como vamos percebendo, paulatinamente, que se trata de um cortejo fúnebre, sem precisar de sua alusão direta. Uma dica: tente abrir mão de verbos como 'sentir' e 'ouvir', que você usa na hora de usar os sentidos. A camisa colada no corpo o incomoda. Os sinos tocam. Geralmente não precisamos dessa mediação, e aqui temos um bom exemplo. Isso aí!
ResponderExcluirÓtima observação, professor! Vou aplicar mesmo!
ExcluirAmei isso, Rayssa: "A vida passa mais rápido do que o tempo que levamos para abandonar nosso passado." Muito legal!
ResponderExcluirObrigada, Denise!!
ExcluirRayssa, você sabe criar frases fortes. Meu trecho favorito: "Um trajeto pequeno em chão, e tão grande em saudades. Não há passos lentos o suficiente para adiar esse momento".
ResponderExcluirObrigada!! :))
ExcluirEita, Rayssa, tá lindão!
ResponderExcluirObrigada!! :))
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