Exercício 8 Jogo do Nome (Denise Morais)

JIBA!

O caminhão de mudanças desceu a ladeira da rua de pedra, bem devagar. Era de tardezinha e a praça movimentada, como de costume. Mulheres com seus cachorros, crianças no escorregador, um grupo de senhoras jogando conversa fora e os homens de chapéu, na mesa de xadrez.

Jiba havia alugado a casa amarela que ficava bem de frente à praça. Chegara um dia antes da mudança. Veio de táxi, trazendo uma caixa e poucas malas. Ainda não tinha colocado a cara na rua. Não era uma casa muito velha, mas Jiba fez questão de limpar cada cantinho, com muito cuidado, observando se não tinha nenhuma fresta nas janelas ou nas portas.

Estava animada para ocupar seu novo cargo de bióloga, no Instituto da cidade. Era um lugar pequeno, de gente muito pacata, e praias paradisíacas. No verão, a cidade era divertida. Vinham muitos hóspedes. 

Jiba tinha 35 anos, desde pequena sonhou ser bióloga e sempre foi incentivada pelos pais. A mãe era bancária em Porto Alegre, e seu pai um militar gaúcho, aposentado.

As férias do casal aconteciam nas cidades próximas e o único pedido de Jiba era uma praia por perto. De preferência, numa cidade onde pudesse explorar sua curiosidade, por bichos. E aquele era um dos lugares que sempre visitava, quando criança.

Jiba formou-se na faculdade e logo decidiu viajar pelo país, conhecendo lugares inusitados. Trazia uma coleção de fotos, objetos e muitas histórias bizarras, por onde andava.

Não sentia falta de companhia de gente. Desde que decidiu morar sozinha, Jiba nunca apareceu acompanhada. Seu amor pelos animais era tanto, que sorria, dizendo preferir se casar com bicho a se casar com gente, quando lhe perguntavam sobre um possível namorado.

“Jiba, não fala uma coisa dessas. O que vão pensar de você?” - retrucava a mãe!

Os vizinhos estavam curiosos. A casa amarela, por tanto tempo fechada, agora tinha luz acesa! E, durante o dia, barulho de vassoura varrendo o chão.

O caminhão freiou e o motorista chamou na porta da casa. “Dona Jibaaaaaa!

Ela abriu a porta, devagarinho. Vestia uma calça jeans, camiseta branca e chinelos. Tinha um corpo esguio e os cabelos longos lhe cobriam o rosto.

Era tímida! Fingiu não ver os olhares na praça. Ajudou a descarregar os pequenos móveis, fazendo questão de pegar, primeiro, o carrinho de bebê.

As mães, com suas crianças no colo, se entreolharam.

Em menos de uma hora, o caminhão já estava vazio. Jiba não tinha muitos móveis, nem muitas roupas, nem muitos sapatos. 

A noite quente apontou as primeiras estrelas, e a brisa fresca do mar foi chegando devagar. A casa amarela continuava com as janelas fechadas e as luzes todas acesas. Esperavam algum chorinho de bebê e nada! Aos poucos, a praça ficou vazia. Jiba também apagou as luzes. Os vizinhos comentaram: “Será que Jiba é moça solteira”? “Será que o nenê de Jiba chega amanhã?” Será que Jiba vai morar sozinha?”

Um sol quente despertou a gente da cidade, mais cedo. O movimento da praça começou animado, com música de domingo. Os meninos jogavam bola, enquanto os senhores de chapéu compravam o jornal na banca. Poucas mães passeavam com seus bebês no colo, quando Jiba abriu a janela.

As casas eram muito próximas, os muros baixos e a praça no alto. Dali podia se observar o movimento de cada morador. Na casa da Jiba, deu pra ver a ponta do carrinho e uma caixa de madeira em cima da mesa. O cheiro de café e do pão de queijo no forno era sinal de que a nova vizinha também já havia se levantado. 

Dona Maria morava na casa ao lado. Acordou cedo e colocou o bolo pra assar. Desculpa de vizinha amável para saber da vida dos outros. Chegou no portão, com seu vestido de chita e bateu palmas. “Dona Jibaaa, aqui é a vizinha. Trouxe um bolinho, não repara!”, gritou tão alto que toda a gente da praça escutou.

- Ah, muito obrigada, senhora! Muito prazer!

- Por nada, Jiba. Já sei seu nome. Escutei, quando o moço do caminhão lhe chamou. Meu nome é Maria! Precisando de qualquer coisa, é só falar!

As duas conversaram, ali, no portão mesmo. Dona Maria queria ver a casa por dentro, mas não foi convidada a entrar. Tentou render conversa. Jiba despistou, dizendo do forno ligado e agradeceu a gentileza da vizinha.

A gente da praça ia e vinha e Jiba dentro da casa amarela.

Jiba não sai pra passear?” “Jiba não sente calor, com a casa fechada?” “Alguém já conversou com a Jiba?" Dona Maria foi a única que teve o privilégio e não tinha muito pra contar.

De tardezinha, a porta da casa amarela se abre! Jiba carrega o carrinho de bebê até o outro lado da rua, evitando o calçamento. Sobe a rampa devagar, até chegar na praça.

Dona Maria fazia seu crochê, sentada no banco mais próximo. - “Olha só, apareceu a Margarida!” - falou com um sorriso nos lábios, ao ver Jiba se aproximar.

As crianças pequenas vieram correndo, para perto do carrinho. Jiba ergueu o braço, impedindo que elas se aproximassem. Dona Maria olhou assustada, deixou a toalha e a agulha caírem no chão e soltou um grito:

- “Valei-me Deus! Eu vi! Cruz credo! Corre, que é grande!”

Uma gritaria geral na praça, gente se escondendo pra todo lado. 

Jiba tentou explicar! Não teve tempo. 

A praça, num instante, ficou vazia. As casas com as portas cerradas e os olhinhos curiosos das crianças, nas frestas das janelas.

Jiba tira de dentro do carrinho, sua cobra de estimação. Faz carinho nela, como se fosse um cachorro e a coloca no colo. O calor estava demais! O sino da igreja toca forte e a jiboia se assusta. Escorrega do colo de Jiba e se espicha em direção à rampa.

Jiba tenta puxá-la pelo rabo. Não consegue. Fica paralisada no alto da praça. A cobra já está no calçamento, quando um carro desce a ladeira, disparado. Dona Maria grita pela janela:

J I B A AAAAA !!!



Comentários

  1. Ah, adorei, Denise!! Você vai dando as pistas ao longo do conto: a caixa, as janelas fechadas, as frestas da casa, a personalidade da personagem. Ficou muito legal!

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  2. Denise, por algum motivo não consigo ler seu conto. A formatação da página está cortando a página ao meio, pelo menos para mim. Você publica de novo? Ou me envia por e-mail...

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