Exercício 07 - Ana O. Rovati

Corpo

          Não me interessa que tu nunca tenha conseguido ter filho antes e considera isso um milagre. Não me interessa se a legislação do país considera ilegal. Não me interessa a tua mãe nem a minha mãe. Não me interessa.

           No início parecia mentira. O corpo estava igual a todo santo dia. Sinais vitais idênticos, disposição, apetite, xixi, cocô, sono, tudo igual. Havia uma informação nova que também insistia em se repetir naqueles três testes de gravidez de farmácia e no resultado do exame de sangue: positivo.

            Não me interessa que é o teu sonho. Não me interessa a opinião da tua irmã. Não me interessa o valor do procedimento. Essa bola de células não vai virar um filho.

            Era mesmo impressionante que aquilo fosse verdade. Ele era infértil e costumávamos nos cuidar. Se não confiasse tanto na ciência e na menstruação que não vinha, jamais acharia que estava grávida. Inclusive no dia da ultrassonografia, a ilusão parecia permanecer. Ver aquela imagem preto e branca na tela poderia facilmente ser algum vídeo gravado e reproduzido.  

         As atividades cotidianas continuaram. Filmagem o dia inteiro, com o mês todo de trabalho fechado. Um alpiste dentro de mim, um submundo de práticas abortivas para desvendar, e um homem sem capacidade de qualquer gesto prático pra ajudar na redução do meu pavor em morrer numa cama, ensanguentada, para gerenciar.  Não me interessa a minha idade. Está agendado.

            Foi quando tudo começou a mudar. Em poucos dias, Lina passou a sentir muito sono. Por mais que resistisse, o corpo parecia não querer despertar. Se arrastando, preparou o café apressada para pegar o ônibus e ir até a filmagem. Mas o café não apeteceu. Devolveu para a embalagem o pó de café que havia colocado no filtro e, sem dar muita bola, usou a água para preparar um chá e acalmar aquele embrulho que parecia uma grande ressaca. A saliva grossa, o engolir trancado. Deve ser cansaço de tantos dias sem intervalo no trabalho. 

            Desceu do ônibus e caminhou em direção ao estúdio onde estavam gravando, quando cruzou uma padaria que insistia no cheiro do café, agora misturado a frango assado. Isso deveria ser proibido a uma hora dessas! O cheiro gorduroso com notas de café queimado estabeleceu o limite para aquela manhã tão estranha: vomitou ali mesmo, na calçada, sem reconhecer aquela pessoa que sempre comera de tudo, sem qualquer resquício de frescura olfativa.            

            À noite, sentindo o corpo relaxar e agradecer a cama quente, percebeu que seguia com a sensação de cabo de guarda-chuva na boca. Um mal-estar que não passava. Estaria doente? Havia comido algo estragado?

            Era verdade. Lina estava grávida e agora também o corpo concordava. 

        No dia seguinte acordou com o despertador e, junto de uma amiga, foi ao médico realizar o procedimento.

Comentários

  1. Poxa, Ana, ficou muito bom. O parágrafo inicial já dá a letra do conto, com as frases em discurso indireto, enumeradas. E a descrição do enjoo, ficou muito palpável, com os cheiros não apenas surgindo, mas interferindo na história. Isso aí! Se eu fosse retocar, diria apenas para não explicitar a gravidez, com o "positivo". Tudo no conto sugere a gravidez e o aborto. Pense em cortar tudo que aludir a essas duas realidades, só para ver como fica. Porque a palavra "procedimento", cirúrgica, no final, já dá conta de tudo!

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  2. oi Flavio! Ah, que bom! Vou reescrever com as tuas dicas de retoques, ver como fica. Muito obrigada! Ana

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