A leitora que odiava — Exercício 7 [Cássio]






A leitora que odiava



E quero dizer a todos vocês que cometi um terrível engano.

E que a Carla é uma pessoa ótima. Inteligente, esperta.

É uma escritora de enorme talento. E uma artista que merece os aplausos. E o sucesso que tem.

Merece, meu cu. Talento é o cacete

Ops! Essa última parte, não.

Ai, que ódio!

O que a juíza diria? A última parte é condenação sólida e certa. Apaga o par de maldições. Só rascunho, ainda bem. Texto final desse jeito e o novo julgamento seria só uma formalidade. A culpada mais rápida da história do fórum.

Apaga tudo. Começa de novo. O teclado do celular. Cada letra digitada, a tridimensionalidade da penitência. O E, ereto como espinho. O C tem a consistência de cocô de criança criada nos cueiros. O A, a ameaça da agulha afiada. O R e o L, bom… Pior mesmo são as vírgulas e os pontos. Enganam. Parecem respiro de ladeira que se sobe a pé. Chega-se a um deles só para levantar a cabeça e descobrir que a escalada não terminou. O calvário. Ai, que ódio!

Lê o que acabou de escrever. Lê em voz alta, ensaiando. Transformando obrigação escrita em espontaneidade falada, filmada.

A juíza foi muito clara na sentença.

A resposta da requerida deve vir a público no mesmo formato [vídeos] em que foram divulgadas as ofensas à requerente. Devem ser divulgados dez [10] vídeos em um prazo máximo de 30 [trinta] dias a contar da data de outorga desta sentença, na mesma plataforma em que veicularam as peças difamatórias anexadas a este processo. O conteúdo não deve, em circunstância alguma, deixar dúvidas ou incitar dubiedades a respeito da retratação da requerida em favor expresso e nominal da requerente.

Era isso ou multa. Pegar ou largar. Divulgar ou minguar. Multa, não. Não dá. Não se safaria da indenização uma segunda vez. A Linha da Pobreza manda abraços, pra você que me esqueceu, aquele abraço.

A boca assoreia-se. O sabor misturado do talher inesquecível de plástico e o miojo, a especialidade do chef Sachê Galinha Caipira de quem jurou não ser mais cliente. Anos difíceis, desde que Jorge foi preso. Graças a Deus.

Termina o roteiro do primeiro vídeo. Ainda faltam nove. Dez, se contarmos que o recém-finalizado não está nem perto de pronto. A juíza foi clara. Ai, que ódio!

Por que esse ódio todo, senhora Fabíola? Senhora não, senhorita, meritíssima. A juíza baixou os óculos de tartaruga, como se a pergunta merecesse trombetas. Os cílios postiços piscavam e varriam qualquer sinal de piedade. Gozado. Sempre achara que juíza era cargo de mulher velha, cabelos cinzentos. De bochechas macilentas. Essa aí, não. Mais nova do que eu, me passando sermão.

Fabi respondeu aos pedidos de coceira no rosto antes de responder à juíza. É lícito sentir ódio de um livro, meritíssima? A senhora já sentiu? Fabi atrapalhou-se, ao perceber que sua inquisidora tinha anéis de orçamentos e formatos supérfluos, cada um equivalente a 10 mil pacotes ou mais de miojo. Nenhuma aliança. Se ninguém é preso e julgado por amar esse ou aquele livro, então não deveria ser crime também odiar. É uma questão de opinião, de liberdade, vossa excelência. Fabi não parou. Sua advogada, essa sim mais velha que o Direito, tocava-lhe o braço como se procurasse o botão de liga/desliga. Fabi só desligou quando concluiu, óbvio. Esse sim é um livro que merece ser queimado na fogueira, meritíssima, me desculpem se alguém se sentiu ofendida.

Ela olha para a capa do livro, no chão ao lado da cama. O quarto exemplar do mesmo livro. Desta vez, comprou obrigada. Investimento de 56 miojos, atualizados pela inflação e pelo enjoo, somando todos os quatro exemplares. Ler mesmo, só o primeiro. Lido, queimado e filmado, para divulgar em suas páginas digitais. Um sucesso, assistido por centenas, milhares, quase milhão. Mina, séloca? Nazista, queimandu livro. Issu aí, isfrega na cara das feminista haha. Sua Eva Braun maldita, não passará. E quem disse que mulhé num faiz nada direito. Si ti pegu. Lôca. Abaixo os fascistas. Kkkkk adorei tia outubro é nóis!

Gostou da repercussão, até mesmo dos comentários jocosos. Queria mais. Comprou o segundo exemplar. Consigo ainda mais seguidores? Segundo vídeo, começou a rasgar o livro. Folha por folha, a meticulosidade que falta ao alface de domingo. Rasgava um conjunto de dez, quinze folhas, parava. Dizia alguma coisa. Desserviço, este livro é um desserviço. Um absurdo. A crítica de contundentes adjetivos era apocalíptica. Sigam-me as justas.

Ninguém seguiu. Pouca gente viu. O tia videu grande da p.o.rr@ soh pa rasga livru kkkk chama seus neto ai pa ajuda. Ai, que ódio!

O primeiro vídeo ainda repercutia. Queimar leva menos tempo do que rasgar folha por folha. As pessoas andam sem tempo para nada. São 5 horas por dia vendo vídeo, lendo bobagem, mas jamais 1 vídeo de 5 horas, jamais 1 bobagem de 5 horas. Precisam ser microbobagens, quanto mais descartáveis, mais memoráveis.

Decidiu fazer o terceiro vídeo. O terceiro livro. Ou melhor, o terceiro exemplar do mesmo livro. Precisava de impacto, de seguidores, de visualizações, de repercussão, de uma entrega de três metros cúbicos de coraçõezinhos e joinhas. Esse pessoal gosta de barraco, já vi, quantas vezes já não vi? Por que não pensou nisso antes?

Um livro desses não serve para nada, a não ser para forrar gaiola de periquito. Rabisca o X em uma página inteira. Nenhuma mulher precisa desse tipo de coisa. Respira. Outra página, outro X, com caneta Pilot preta. E vendendo horrores, que absurdo! O canetão ensandecido. Se tivesse sido escrito pelo Carlo Madeiro, ninguém nem daria bola, mas é uma escritora, gente, uma mulher que fez isso aqui, gente. Joga o livro longe, barulho de reboco ofendido ao fundo. Onde já se viu? O canetão segue na mão, entre os dedos, a chibata da general. Quem essazinha pensa que é, a gente aqui na luta e essa mulherzinha chega para prejudicar. O vídeo ficou na medida, ela avaliou, muito mais curto que o segundo, mas não tão breve quanto o da fogueira, seu best-seller. Best-seller mais ou menos, porque não pagou um só pacotinho de miojo. Most-viewed, top-commented, most-liked. Este aqui vai pelo mesmo caminho, vocês vão ver, ah, vai. Curto e provocativo, deu até tempo de qualificar a escritora, pela pessoa que ela é, pela mulher que ela nunca vai ser. Fabi nunca a conhecera, mas sua intuição não falha.

A intuição só não contava com a intimação. Calúnia, difamação, possível campanha de incitação ao ódio. Cível, por enquanto.

Ai, que ódio.

O processo foi rápido. A justiça não tardou nem falhou. Melhor que a intuição dela. Perdeu em todas as instâncias. Indenização, retratação e multa para o Estado. A indenização perdoada pela advogada da escritora, jovem, morena, aquele perfume que só é possível do lado de lá do Atlântico. Perdoada pela escritora depois de conhecer seu deserto financeiro, só cacto e miragem. O ódio de ser perdoada, perdão o quê?, queria era estapear a cara dessa advogada, a cara da Carla, nem coragem de mostrar a cara aqui, como queria que tivesse vindo, ai, que ódio.

A multa para o Estado permanece. O Estado não perdoa, azar o seu. Doze parcelas. A geladeira ainda não sabe, mas vai pra dieta.

Ela pega o livro na mão. O quarto exemplar. Exigência da retratação, 10 vídeos, cinco deles com clara e manifesta exposição positiva do livro escrito pela requerida, sem qualquer menção que exerça juízo pessoal sobre a requerida.

Sente nos dedos as farpas do livro. Tudo é madeira. Não é papel, não é tinta, é madeira, pau bruto. As ranhuras de páginas mal lixadas. Nunca lixada. Machucam. Machucam os dedos, as peles, das mulheres, de todas as mulheres, não é possível que só eu perceba isso. Ai, que ódio. Livro pesado, ninguém aguenta isso sozinha. Um desserviço. Falta carpintaria, falta lustro, verniz, duas demãos, nem mesmo uma só. Dói nos dedos, dói nos olhos, na cabeça.

Fabi nunca entendeu como aquela mulher, a personagem do livro, pôde perdoar. É imperdoável, nenhuma mulher faria isso. Jamais que eu perdoaria. Nunca. Fabi nunca entendeu aquele livro. Fabi nunca perdoou. Fabi nunca entendeu o que Jorge berrava. O som ambiente daquelas noites, todas as noites em que ela fazia uma pergunta ou uma insinuação, era alto demais para ouvir o que ele berrava.

Olha de novo para o título do livro. A juíza foi clara. Melhor não confiar na memória.

Tudo é madeira, Carla Rio.

Tudo é Jorge, Carla Rio.

Tudo é Carla, Rio Madeira.

Tudo é madeira, Carla Jorge.

Tudo é Jorge.

Comentários

  1. Cassio, tá muito legal. Um tema espinhoso, mas tratado com humor e com um ponto de vista bem desenhado. Gosto particularmente das menções aos comentários de instagram, que estão super verossímeis e orgânicos, e da maneira como a história vai se montando, paulatinamente. O leitor agradece. Quando ao livro, nunca vou entender, mas também não vou queimar. Vai que...

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