Pergunte ao cágado
Troca de canal.
Tudo vai mal.
É claro, hora do telejornal.
:
“Hoje à tarde, o governo vetou novamente o projeto de lei para legalização do abo…”
Troca de canal.
Planeta Animal.
Em inglês, claro, porque a língua portuguesa não é universal.
Brasileiro só faz futebol, bunda e Carnaval.
Um tédio, programa sobre a vida do pardal.
Antes fosse um predador, sangue e morte no matagal.
:
“Kevin gorjeia do alto da antena de uma casa abandonada.
Apesar de alto,
e insistente,
o canto ainda não convenceu Meredith.
Ela passeia, alheia, batendo suas asas castanhas no bosque ao lado…”
/
E aí? Troca de cana?/
Cana/
/
?
//
À direita, vulto à 1 hora, diria o sargento naquele filme de guerra.
Um vulto, uma coisa, uma massa baixa, se arrasta.
Rato, aqui? Não, grande demais. E se for, veneno aqui não falta. Vidrinho cheio.
Gato, cachorro? Não, esférico demais.
Coelho. Coelho? A Páscoa já foi? Não.
Um cágado,
revelado pela luz azulada da TV, que não descansa desde as 10h56. Do dia anterior.
Um cágado? Sim, um cágado!
Não é jabuti? Não, jabuti não nada, só anda; esse aí nada e anda, anda e nada. Se pudesse, ficava o dia todo com a cabeça enfiada na água, esperando a Terra girar, até que lhe faltasse o ar. Ah, se tivesse banheira neste lugar…
E tartaruga, não pode ser? Deixe de ser absurdo!
O pardal na TV já se acasala; ele e a dona pardala. Kevin e Meredith.
O cágado só se arrasta; cada passo, uma jornada.
Demorou, demorou e… E ainda nada. Não avançou.
Será que está atrás de comida? Aqui tem fartura, tudo industrializado, bem conservado. Farelos e migalhas há à vontade. Ao pé da poltrona, um banquete. Para quelônios, a festa de Babette.
Cágado come o quê?! Se não for carnívoro, vai se esbaldar com teco de miojo, sobra de pipoca, pequenas memórias de chocolate e pedaço de salsicha. Salsicha, sim! Não é carne, de carne só tem o pretexto. É de papelão, e papelão vem da árvore, já mostrou o documentário d’outro dia. Indicado para herbívoros, portanto.
Agora, se for carnívoro, é só montar a emboscada, ficar de tocaia porque a proteína tá toda aí, andando para lá e para cá. A TV ensinou, no programa do sujeito que arranca tentáculo de polvo na dentada, que reprisa mais que o Sol na alvorada, que inseto é proteína concentrada. Serve para as mocinhas, os mocinhos e os cagadinhos. Ou seria cágadozinhos? Não, não tem acento!! Dona Fátima ensinava: o acento só vai até a proparoxítona, a terceira de trás para frente, conte aí e fale em voz alta, menino, só se aprende lendo, pode falar, a sala não vai rir de você, não, leia logo de uma vez, moleque, voz alta, menino, aqui na frente, a sala não vai rir de você.
Demorou. Agora, chegou.
O cágado se aconchega ao lado da poltrona. O peso do mundo na carapaça, já não bastasse o peso da carapaça no mundo. Ao lado da poltrona, com tanto espaço na quitinete. Poucos móveis, ainda menos eletrodomésticos: a TV, poltrona, colchão, microondas, arara, armarinho de porta emperrada, o celular e eu. Mobília minimalista, vai dizer a moça que combate os excessos naquele canal cheio de comerciais que festejam os excessos. Mobília porca, coisa horrível, diria mamãe. Diria, só se tivesse tempo de parar de dizer o que dizia antes de morrer, isso aí é frescura, meu Jesus, coisa de quem não tem Jesus no coração, nunca vi ninguém morrer desse negócio de depressão, repressão, regressão, sei nem direito o nome disso, glória a Deus, coisa de gente fresca, que não quer trabalhar, glória, Senhor, vai lá esfregar privada na casa dos outros, faz que nem eu, obrigada, Senhor, e aí não arruma tempo pra essas coisas, não, coisa do Diabo não.
O cágado arria as patas. Descansa as juntas, menos as do pescoço, com a pele mais velha do que o Vesúvio. Dinossauro, ancestral, os olhos fora de seu tempo no pardal, que agora choca os ovinhos. A dona pardala, não o pardal.
Cágado bota ovos também? Se veio aqui para isso, já aviso que não tenho jeito com crianças. Nenhum. Não sei cuidar. Não sei nem fazer criança! Ninguém nunca me ensinou, ninguém nunca quis. Obrigado, Senhor.
O cágado esquece o pardal, que foi atrás de minhoca para que os filhotes calem a boca. Olha para mim, diretamente para mim. Boca de juiz, nem boa nem ruim. Olhos de conselheiro, iguais aos daquele cara amigo falso da rainha na série com os dragões.
Boca, olhos e rugas do cágado todas em mim, seu veredito está dado, enfim.
Eu olho para os dois frascos. O do remédio, que eu parei de tomar tem seis ou sete dias, ai se o doutor fica sabendo. E o outro, remédio também, de doutor sem diploma mas altamente recomendado. Só me disse que isto aqui resolve o problema de vez: tomou, tombou, só tenha cuidado, fique esperto, mexe nisso aí com luva depois que aplicar pros bichos e lava as mãos, o que tem aí no vidrinho derruba uns dez cavalos, imagina só quantos de você, chumbinho não é brinquedo, não.
Vou escolher um dos dois, azul ou vermelho, igual àquele filme que a TV não passa mais porque agora é tudo streaming, streaming, assine streaming assine Isso Play, Aquilo Plus.
O pardal ensina os filhotes a voar, como todos os outros pardais ensinam todos os outros filhotes a voar, a serem mais um no bando, mais um pardal, apenas
mais um.
O cágado ainda me olha. Sou só
mais um.
Eu escolho.
Agora, só aguardar.
O efeito. O Senhor. O Diabo. O Jesus. O Coração.
Será que demora?
Esqueci de perguntar.
E se não funcionar?
E se…
— Putz! Deixei a TV ligada.

Caramba, bem profundo! Não sei se eu interpretei certo, mas para mim ficou a imagem de que o cágado seria a metáfora para a depressão. E, me lembrei daquela estória da corrida entre o Coelho e a tartaruga, onde ela acaba vencendo no final. Não sei se foi uma viagem muito grande minha rs!
ResponderExcluirOI Cassio, estou na fila a espera do seu livro. Até agora não houve um único que eu não tenha gostado, ou gostado mais ou menos. Fera, tu é fera. Aqui quem fala é a Cynthia que não consegue entrar no site rsrsrs
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCássio, que viagem. Você tem uma imaginação muito potente, tem que usar bastante mesmo, concordo com a Cynthia. E estou com a Rayssa, o cágado talvez seja uma metáfora para a depressão. Mas, no final das contas, ficamos tão entretidos com o absurdo da situação, um cágado surgir do nada dentro de uma quitinete, que nossa atenção vai parar justamente nesse aspecto: será alucinação ou será realmente uma situação real? Será que ele tomou muito remédio? Nesse sentido, é quase um conto fantástico, pois ficamos nesse limiar, buscando uma explicação. Digo tudo isso para dizer que a metáfora talvez não tenha se estabelecido tão bem, pois você apontou bastante para outros lugares, e pouco para a depressão (se é que Rayssa e eu estamos certos, veja bem). Depois você comenta com a gente. Eu deixaria mais evidente, o objeto da metáfora, apontando sutilmente para o leitor. Ah, e não entendi essa frase: "fique esperto, mexe nisso aí com luva depois que aplicar pros bichos e lava as mãos". Era um remédio para ele ou era um remédio veterinário? Perdi alguma coisa? Isso aí, siga nessa toada.
ResponderExcluirGostei demais! Parabéns, Cássio!
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