Pau que se endireita
— Ei, Carlota! Carlota! Carlota, acorda… Vai, menina! Acorda!
— Estou acordado! E já te disse…
— Achei que tivesse dormindo.
— Não, não estava. E, por favor, “estivesse”; “tivesse” é tão hediondo. E, pela última vez,…
— Mania de me corrigir, que saco, Carlota!
— Já disse e direi pela última vez: MEU NO-ME É CHAR-LES! CHAR-LES Eames.
— Meu nome é chatice, blablablá. Ai, cansativa, você!
— Cansativo, se não te importas.
— Tá bom, tá bom, tá bom…
— “Está bem”, “está bem”, “está bem”.
— Aaaaaai… Insuportável, você. Parece até que é mais velha do que eu.
— …
— Tá bom, er, “Está bem, Carlota”, er, “Está bem, sir lord doctor proctor CHAR-LES EAAAAMES”. Me conta, que que aconteceu com a platinada?
— Quanta indelicadeza, senhorita Dôndola!
— Ah, já deu! Parei. Parei, parei, parei. Impossível conversar com você.
— …
— …
— …
— Mas me conta: que que houve?
— Fofoqueira, deveria envergonhar-te de teus modos.
— Huuum, vou fingir que não ouvi. Que houve? Por que que a platinada saiu daqui se esgarçando de chorar?
— Morreu-lhe a mãe!
— Hein?!
— A mãe. Morreu. Acabou.
— Mentira!
— Pois não?!
— Mentira. A mãe não morreu coisa nenhuma.
— Morreram a mãe e a gramática, que a senhorita assassina a cada segundo.
— A gramática, pode até ser. A mãe, de jeito nenhum.
— Insinuas que minto?
— Não sei quem, mas que tem gente mentindo aí, isso tem.
— Disparatada! Exijo respeito para comigo e para a senhorita Walker!
— Senhorita Walker, sei. Essa aí mente até no nome; custa nada mentir sobre a dona Lourdes.
— Seu despeito é hediondo, senhorita!
— Hedionda, eu? Olha só, Carlota…
— CHAR-LES!
— Ah, que seja! Fica aí medindo os outros, essa pompa de governanta, mas não tem coragem de medir as bobagens que a platinada fala, nem as besteiras que ela faz. Dali vem só mentira.
— Como pode? Como pode?! A propósito, governanta, não. Mordomo, se assim te aprouve. Ou, ainda melhor, nada de analogias.
— “Ai, ai, mordomo, se assim lhe couve…” Me erra, Carlota…
— CHAAAAAARLES!
— …se essas suas perninhas cromadas se mexessem, bem sei que você ia ficar pra cima e pra baixo mendigando um monte de ordens da platinada: “Ai, madame, mande em mim, eu imploro. Quer um uísque? Um conhaque, talvez? A seu dispor! Que tal um bloody mary? Faço agora, minutinho, a madame está precisando, blá, blablablá, blablá, blablá… Seu serviçal, a suas ordens! Permita-me limpar as solas dos seus pés. Com a língua. Ah, esqueci; não tenho língua. Blá!”
—
— Puxa-saco!
—
— Quem dera eu pudesse sair daqui. Essas pernas, que de pernas só têm o nome, não me levam pra lugar nenhum.
— Por que dizes isso?
— Ah, porque dá no saco ficar o dia inteiro com você aq…
— Não, por que dizes que a mãe da senhorita Walker não morreu?
— Ih, que vozinha é essa aí? Não me diga que vai chorar. Só faltava essa! Um poltronão desses, cheio de chororô, de nove-horas.
— Só diga-me o porquê, por favor.
— Bundona! Por que a velha não morreu? Por que não, ué? Você sabe.
— Não, eu não sei. Ela nunca sentou-se em mim.
— Claro que não! Comigo aqui? Quem iria querer você? Só a louraça decadente, que morre de medo de mim. Só veio se sentar em mim quando era criança. Eu, novinha, estofado tinindo, o verniz brilhante feito sorriso babado de criança. Menos o dela, a platinada não sorria, nem quando era criança. Ficava aqui com aquela cara de diaba, me pisoteando, rabiscando meus braços com a caneta como se eu fosse um talão de notas, enfiando as unhas no meu chiffon, garimpando a espuma. Subia no meu assento e ficava me chutando no encosto que, olha, vou te falar, se eu não fosse de mogno italiano, eu seria um balanço de cadeira, e não mais uma cadeira de balanço. Até hoje tenho uma dorzinha que lateja aqui na base do espaldar, tanto ódio que essa menina punha nos pés. Me detestava, a diaba! Ah, mas como eu gostava quando a Dona Lourdes se vingava por mim. Quantas e quantas vezes não sentou em mim, agarrada no braço da menina para fazer o cinto estalar no lombo? Era de dar gosto o barulho do couro no couro. Pensa você que a platinadinha chorava? Chorava, nada! Aquilo é fáustico, tem pacto. Não gosta de mim tanto quanto não gosta da velha, e acho que não gosta de nada! Não gosta que eu tenha o cheiro da velha, nem das curvas que a velha torneou aqui todos esses anos. Aí, foi encomendar você para que pudesse ter onde sentar o rabo, uma poltrona com nome, sobrenome, título…
— Senhorita…
— …ainda bem que fez isso quando ainda tinha alguma coisa na conta, quando não precisava ficar vivendo de favor, de piedade, de agiotagem. Ou, agora, eu estaria aqui conversando com um caixotinho de madeira. Olha, até que não seria má ideia, talvez o caixotinho fosse menos chato que você!
— Senhorita Dôndola…
— O que é, Vossa Poltroneza?
— Senhorita Dôndola, por favor. Só me diga o porquê.
— Por que eu sei que a velha tá viva? Ora, essa! Você acha que eu sou só uma cadeira quase tão velha quanto a velha? Não, senhor! Quantas e quantas vezes dona Lourdes não sentou aqui para segredar as dores comigo? Ela não é que nem a filha, essa destrambelhada que fica fazendo drama por aí, trocando a maldade dela pela bondade dos estranhos — só os estranhos, porque os conhecidos já se deram conta de que essa aí simula até os humores para ganhar uma coisinha qualquer, um dinheirinho. Tudo que essa criatura não chorou quando era criança, ela finge chorar agora. Finge, sim senhor. Porque eu duvido que ela já tenha chorado de verdade uma só vez na vida. Ela é atriz, não é? Não poderia ter escolhido carreira melhor. Dona Lourdes é que ficou desesperada com esse negócio de teatro. Sempre disse pra platinada que isso é coisa de puta, que: “Imagine uma filha de desembargador ser atriz de teatro!”. Mas a diaba ouviu? É claro que não! Mudou até o nome, fez aí uma alquimia que transformou Maria do Rosário Caminha em Nora Walker. Ha-ha-ha, se eu respirasse, perderia o fôlego depois dessa. Me fala se dona Lourdes não tem razão: é igual puta, quando tinha o corpo todo jovem, todo redondinho, pele lisinha, todo mundo quis, foi o maior sucesso. Agora está aí, as pelanquinhas secas beirando os quarentinha, cabelinhos ralos, ninguém mais quer. Ainda bem que tem a pensão do desembargador, senão não teria nem o que comer. E ainda meteu a mãe no asilo; perdeu a razão, mas jamais o dinheirinho da pensão.
— Acha mesmo isso, senhorita?
— Acho, não! Eu sei. Sei de tudo, dona Lourdes era só choro quando sentava aqui, contava as coisas só para mim. Não ficava por aí, chorando as tragédias como se fosse um esboço descartado de Shakespeare. Sofreu aqui, no meu assento, quando o desembargador morreu. E esse entalhe aqui no meu braço? Ficou anos e anos inundado de lágrimas quando ela perdeu o Arturzinho; esse, sim, era filho bom. Pena que você não o conheceu! Ainda falam que Deus é justo. Justo é o capeta, que apadrinhou a platinada e fechou o corpo dela pra não quebrar. Vaso ruim, ruim! Dos dois filhos, ficou a que nunca prestou…
— A senhorita Walker pode ter seus defeitos, mas…
— Defeitos? Defeitos? Maldade agora mudou de nome, essa é boa. Mas me diz aí, de onde veio essa história de que dona Lourdes morreu?
— A senhorita Walker não é maldosa, é só humana.
— Olha, Carlota! Você é uma peça rara, nem parece que é feita de MDF, de courino disfarçado de couro. Se tivesse menos preocupada em adular a platinada, em se gozar inteira só de ela chegar perto, saberia uma ou duas coisinhas sobre ela. Ela é pior do que humana. É demoníaca, bestial. Sabe porque ela ainda me mantém aqui? Sabe? Ela, que até hoje me ofende com umas bicudas e uns talhos de faca, de quando em quando? Não é porque eu sou a cadeira favorita da mãe dela, nããããão! Mas porque ela acha que eu valho um bom dinheiro. Sou velha, bem talhada, importada, quase centenária. Deve ter antiquário por aí que pagaria uns cobres por mim, mesmo com esse catálogo de cicatrizes que ela me deixou. Eu sou uma apólice de seguro, devo garantir aí uns 5 anos de feijão, para quando a pensão for embora junto com a dona Lourdes. Essa aí já não arranja trabalha, não. Não gosta de trabalhar, gosta de ser bajulada, cortejada, penetrada. É isso. Quando era atriz, puta, sei lá o nome que se dá ao que ela fazia, não era pela “aaaarte”; era para zanzar por aí, para ser admirada, para trepar e ser trepada.
— Céus, senhoria Dôndola. Céus!
— Ah, pronto! É isso mesmo, só não vê quem não quer. E você…
— Não, senhorita. Não é isso.
— Lógico que é! Pode parar de tentar defender essazinha. É uma pu…
— Não é disso que eu estou falando, senh… er, Dôndola!
— Ah… Não?
— Não. Tu, quer dizer, você vale, no máximo, 3 meses de feijão. Quatro, se se puser mais água.
— Carlota, sua, sua… Você é uma parva, uma ignorante. É tão tapada que resolveu me atacar só para defender a platinada. Você é inacreditável.
— Não, desculpe. Não quis ofender.
— É claro que quis, sua afetada,
— Não. Só quis dizer que agora percebo
— empertigada,
— que você tem
— puxa-saco,
— razão.
— imbecil, , , . Pera, pera, pera. O quê?!
— Você tem razão.
— :ı :0 :O
— Ela já tentou te vender, para três, não, quatro lugares diferentes. Cinco, talvez. Estou um pouco atrapalhado.
— Tentou me vender?
— Sim, se… Sim.
— Nossa…
— Não fique assim. Por favor.
— Como “não fique assim”?
— Fui indiscreto, peço desculpas.
— Não. Pode falar, pode falar. Vai, fala!
— Dôndola…
— FALA!
— Ahn, ok. A senhorita Walker, ahn, a Rosário ligou uns dias atrás para algumas lojas, pessoal que compra antiguidades, coisas assim, para ver se alguém se interessava por uma cadeira como você. Pelo que entendi, enquanto ela falava sentada aqui, ninguém quis. Parece que o mercado não anda lá muito aquecido para sucata no momento. Tem uma coisa aí qualquer, de confiscar poupança, não sei se entendi direito, e que as pessoas estão bem inseguras. Ninguém anda querendo se arriscar.
— sssu, sucata…?
— Desculpe, não foi o que eu quis dizer…
— Continua.
— Então, depois disso, acho até que ela ligou para mais de dez lugares, pensando aqui melhor. Foram muitos, mais de dez, com certeza. Depois disso, ela até ligou para um pessoal que pega doações, mas nenhum também se interessou. Alguma coisa a ver com combustível, parece que está caro demais, que não compensa vir até aqui para pegar uma velharia, não sei se percebi direito o que uma coisa tem a ver com a outra.
— doação?
— Foi. Desculpe.
— Nossa, doação?
— É.
— Cacete! Valho nada, então?
— Então… Então… Como posso dizer isso? A questão não é dinheiro. É claro que se viesse um lucrozinho, não seria de todo mau,
— …lucrozinho…
— mas o caso é que a sen… a Rosário não quer mais você aqui. Não quer mais ter de ficar olhando para você, uma lembrança tão forte assim da velha.
— Claro que não, Charles! Claro que não! Os ímpios espreitam os justos e procuram matá-los. Ela não quer nem sombra da dona Lourdes no seu quintal de safadezas. E o que sou eu?! Sou a memória do que um dia já foi bom e justo e direito nesta casa.
— Bom? Justo? Direito?
— Não se faça de estúpido, Charles! Não fosse a dona Lourdes, isso aqui tinha virado um pardieiro há muitos anos.
— “Não fosse a dona Lourdes…”
— Não estou entendendo. Isso aí é sarcasmo?
— Não, não, não… Quero só terminar o que comecei. Permite?
— Não venha o senhor com falsas delicadezas agora.
— Não. Nada disso.
— Sim. Tudo isso. Então vá, continue. Ora, essa!
— Ahn, ok. Onde eu parei mesmo? Ah, sim. Então, não é pelo dinheiro. É só porque é insuportável para a Rosário ter de ficar olhando para você toda vez que ela entra aqui: a faz lembrar da mãe.
— Pois então, sabichão, estamos falando da mesma coisa.
— Exatamente! Não sei como a Rosário aguenta isso, não sei mesmo.
— Muito obrigado pela parte que me toca.
— O problema não é você, Dôndola. Você é só o pano vermelho que atiça o touro; só simboliza uma raiva que não se esgota. Imagine ter de olhar para você e lembrar o que a mãe fez com ela ou, pior ainda, com o Arturzinho. É insuportável, já disse.
— Você está confundindo o Arturzinho e a putinha platinada. Ela fez por merecer, ele era um santinho, a coisa mais preciosa que dona Lourdes já fez.
— Fez e desfez, Dôndola. Fez e desfez.
— Do que é que você está falando? Nem mesmo conheceu o menino, só chegou aqui depois que ele morreu.
— Dôndola, alguma vez a velha leu, aí sentada, a carta que o filho escreveu para ela antes de ir embora?
— Carta, que carta? Não tem carta nenhuma. O Arturzinho não teve tempo de escrever carta nenhuma. Só morreu.
— Morreu, não. Se matou.
— Quê?! Quê quê quê? A putinha platinada deixou cair as beberagens dela em cima do seu couro? Não está falando coisa com coisa.
— Ele se matou.
— Carlota, sua desvairada! Agora foi longe, longe demais.
— Ele se matou. Ele mesmo que o disse.
— Agora você também psicografa? Essa é nova, Carlota!
— Ele deixou uma carta para Rosário. Deixou também uma para a mãe, eu sei porque ele disse que faria isso na que escreveu para a Rosário. Conheço a carta inteira, a da irmã, tantas foram as vezes que ela leu aqui comigo. Leu em voz alta, em voz baixa, em voz nenhuma, com choro, sem choro, com pinga, vodca, cerveja, até com água, com maldições, com tudo que se tem para acompanhar uma tristeza dessas que não vira ressaca. Tem um trechinho, no entanto, que ela lê sempre do mesmo jeito espumado, esteja bêbada ou não: “Não suporto mais, Rô! Ela me disse: ‘Prefiro um filho enterrado a um filho gay e, ainda por cima, aidético’. Esse é o único desejo dela que vou cumprir sem questionar”.
— De onde você tirou isso, destemperada?
— De todos os dias em que ela se senta aqui, nos últimos 3 anos. De todas as palavras que ela lê, que lhe entortam os olhos. De todas as vezes em que ela balbuciou que a velha queimou, sem ler nem abrir, a carta de despedida do filho. De todos os choros que eu tive de enxugar, porque a mãe preferia um filho doutor a um filho escritor; ou porque preferia uma filha casada com doutor a uma filha atriz; ou preferia um filho sepultado a um filho livre.
— Não, dona Lourdes não…
— De todas as ocasiões em que “dona Lourdes” foi mais dona do que Lourdes, mais dona do que mãe.
— não pode ser
— Agora mesmo, ela levantou daqui, mais rápido do que nunca, mais decidida do que nunca, acho que nunca a vi desse jeito. Só disse, antes de se levantar: “Já chega! Para mim, minha mãe morreu.”
— Dona Lourdes não…
— Tá, tá, já entendi. A velha vive, já sei. Deve ter sido só um desabafo.
— …
— Ah, não! Ah, céus.
— O que foi, Charles?
— não pode ser. Não, não, não, não, não…
— O quê? O quê?
— A Rosário, a senhorita Walker. Céus, não, por quê?!
— Por que o quê, Charles?
— A senhorita Walker… Ela… por quê? Ela… ela morreu.
— Como?
— não pode ser… Ela… ela se matou.
— …
—
— Ai, a Dona Lourdes…
—
Sensacional, Cássio!! Eu achei a ideia e a escrita incríveis! Parabéns!
ResponderExcluirVocê levou a fundo a exigência do diálogo. Gosto do resultado, embora o conto mereça, numa segunda visita, uma enxugada. Alguns trechos redundantes. Dá para cortar algumas partes. É sempre delicado dar voz a objetos ou animais, mas quando levamos a tarefa no humor o efeito pode ser bom. E, no seu caso, foi. Confesso que não entendi o final, de como chegou-se à conclusão da morte da filha. Ou será que perdi alguma coisa? Isso aí.
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