Uma amizade com sabor de carambola.
Poucas lembranças da infância
permanecem tão nítidas quanto aquele velho pé de carambola. Ficava ali, entre o
pátio que dava acesso à sala de aula e a velha biblioteca, que tinha mais
cheiro de poeira do que de aventura naquele tempo.
Naquele tempo, preferíamos o pé
de carambola. Logo abaixo dele havia um banco de ferro, desconfortável, mas
acolhedor de nossos dramas infantis. “Como é que pode minha mãe não deixar eu
dormir na sua casa?” “Poxa, queria ser adulta logo”. “Eu também amiga”. "Vamos
ser sempre amigas? Sim". E riam.
E riam também quando coravam
ao ver passar os meninos da outra escola. Ali do banco, meio escondidas, meio
atrapalhadas. O banco era para três, mas cabiam as quatro, espremidas entre as
lancheiras, os cheiros de Angelical Touch, d’O Boticário e o colorido dos
óculos de grau, cada uma com sua cor. E tal qual o velho jabuti Papa-léguas –
como o batizamos - que vivia no jardim da Escola, o tempo também se ia devagar.
E se ia devagar, não é que já não
tivéssemos em nós essa pressa do viver, é que tínhamos ainda aquela sabedoria
das crianças – e que perdemos no caminho do crescer – de que cada coisa deve
ser vivida do jeito certo de viver, com o coração presente, as mãos sujas de
fruta tirada do pé, o riso que vem da alma e os amigos com sabor de lar.
Com sabor de lar eram também os dias
de passeio da escola. Aquela ansiedade da espera, o planejamento, a expectativa
dos pais autorizarem a nossa aventura. E eles deixavam, quase sempre. Mas não
sempre, porque de vez em quando era preciso disciplinar alguma pequena rebeldia
que havíamos feito. Mas, os dias do sim, esses nunca esqueceremos.
Nunca esqueceremos do ônibus
lotado, as professoras e as amigas todas em roupas de passeio, bonés, chapéus
de praia, cores. Bem diferente do dia a dia todo branco. Farda branca, meia
branca, tênis branco. E o ônibus ia no
mesmo ritmo das músicas ensaiadas e que nos faziam cantarolar durante toda
viagem.
Nunca sabemos na hora qual será o
momento de nossa vida que ficará marcado em nós dentre tantos outros.
- É verdade. Elas disseram. E
rimos, já meio inebriadas com o álcool e as velhas lembranças.
- Está tarde. Hoje vocês podem
dormir aqui.
De vez em quando, ainda sentimos o
cheiro das carambolas.
Lembrança com cheiro! Angelical Touch, d’O Boticário. Não lembrava desse perfume da Angelica. Rsss... Muito bom!
ResponderExcluirAcho que nos anos 90 todas tínhamos esse cheirinho kkkkk
ExcluirRayssa, missão cumprida. Inclusive com uma digressão, ali para o final, bem ao estilo do conto da Natalia Ginzburg. Está muito bem escrito, com a ideia dos fins de parágrafo puxando o começo do seguinte, e com uma concisão das boas. Dá vontade de saber mais sobre essas meninas de óculos coloridos. Só tenho uma observação: quando você diz "riam-se" está trocando para a terceira pessoa, sendo que o conto é todo na primeira do plural. Veja se foi intencional ou um deslize. Isso aí!
ResponderExcluirObrigada pelas observações, professor! Acho que foi deslize mesmo, já corrigi lá. :))
ExcluirNa primeira versão, professor, eu tinha deixado maior e falava mais sobre "as amigas", mas fiquei em dúvida se não estava muito descritivo ou cansativo.
ExcluirQue linda memória, Rayssa! :)
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