Exercício de casa 05 (Rayssa)

 

Uma amizade com sabor de carambola.

Poucas lembranças da infância permanecem tão nítidas quanto aquele velho pé de carambola. Ficava ali, entre o pátio que dava acesso à sala de aula e a velha biblioteca, que tinha mais cheiro de poeira do que de aventura naquele tempo.

Naquele tempo, preferíamos o pé de carambola. Logo abaixo dele havia um banco de ferro, desconfortável, mas acolhedor de nossos dramas infantis. “Como é que pode minha mãe não deixar eu dormir na sua casa?” “Poxa, queria ser adulta logo”. “Eu também amiga”. "Vamos ser sempre amigas? Sim". E riam.

E riam também quando coravam ao ver passar os meninos da outra escola. Ali do banco, meio escondidas, meio atrapalhadas. O banco era para três, mas cabiam as quatro, espremidas entre as lancheiras, os cheiros de Angelical Touch, d’O Boticário e o colorido dos óculos de grau, cada uma com sua cor. E tal qual o velho jabuti Papa-léguas – como o batizamos - que vivia no jardim da Escola, o tempo também se ia devagar.

E se ia devagar, não é que já não tivéssemos em nós essa pressa do viver, é que tínhamos ainda aquela sabedoria das crianças – e que perdemos no caminho do crescer – de que cada coisa deve ser vivida do jeito certo de viver, com o coração presente, as mãos sujas de fruta tirada do pé, o riso que vem da alma e os amigos com sabor de lar.

Com sabor de lar eram também os dias de passeio da escola. Aquela ansiedade da espera, o planejamento, a expectativa dos pais autorizarem a nossa aventura. E eles deixavam, quase sempre. Mas não sempre, porque de vez em quando era preciso disciplinar alguma pequena rebeldia que havíamos feito. Mas, os dias do sim, esses nunca esqueceremos.

Nunca esqueceremos do ônibus lotado, as professoras e as amigas todas em roupas de passeio, bonés, chapéus de praia, cores. Bem diferente do dia a dia todo branco. Farda branca, meia branca, tênis branco.  E o ônibus ia no mesmo ritmo das músicas ensaiadas e que nos faziam cantarolar durante toda viagem.

Nunca sabemos na hora qual será o momento de nossa vida que ficará marcado em nós dentre tantos outros.

- É verdade. Elas disseram. E rimos, já meio inebriadas com o álcool e as velhas lembranças.

- Está tarde. Hoje vocês podem dormir aqui.

De vez em quando, ainda sentimos o cheiro das carambolas.


Comentários

  1. Lembrança com cheiro! Angelical Touch, d’O Boticário. Não lembrava desse perfume da Angelica. Rsss... Muito bom!

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    1. Acho que nos anos 90 todas tínhamos esse cheirinho kkkkk

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  2. Rayssa, missão cumprida. Inclusive com uma digressão, ali para o final, bem ao estilo do conto da Natalia Ginzburg. Está muito bem escrito, com a ideia dos fins de parágrafo puxando o começo do seguinte, e com uma concisão das boas. Dá vontade de saber mais sobre essas meninas de óculos coloridos. Só tenho uma observação: quando você diz "riam-se" está trocando para a terceira pessoa, sendo que o conto é todo na primeira do plural. Veja se foi intencional ou um deslize. Isso aí!

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    1. Obrigada pelas observações, professor! Acho que foi deslize mesmo, já corrigi lá. :))

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    2. Na primeira versão, professor, eu tinha deixado maior e falava mais sobre "as amigas", mas fiquei em dúvida se não estava muito descritivo ou cansativo.

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