— Nossa pátria é o capuz! Nosso hino é o silêncio.
Nenhum recruta conhece pessoalmente o General. Não há um só que desconheça seu pensamento, entretanto.
Das cerimônias que abrem e encerram os discursos da Santa Ordem AritmÉtnica [que Deus NOS tenha]; das faixas sobre os batentes do refeitório aos salões de Extinção AritmEtnicamente controlada [que Deus NOS tenha]; das saudações às continências. Em todo lugar, gritam-se, pintam-se, imprimem-se: “Nossa pátria é o capuz! Nosso hino é o silêncio.”
— Você é um ….., Apolônio! Se fosse mais …….., capaz que ficasse igual àqueles ….-..... que ficam na soleira da porta do General. Mais um pouquinho e você consegue a medalhinha dos …..-......
Não era raiva nem desprezo o que Dionisíaco usava para ofender Apolônio. Era zelo. Cuidava mais do amigo do que de si, não que Apolônio precisasse mais. Segundo os critérios AritmÉtnicos [que Deus NOS tenha], se a Santa Ordem descobrisse seus Pecados da genética ou da consciência, Dionisíaco iria para a Fogueira, para a Cadeira ou para a Desempenadeira pelo menos 17 vezes mais que o amigo de infância.
— ……….! — retrucou Apolônio, sem medir o xingamento e o tabu na relação entre os dois.
Da infância, direto para o alistamento. Uma amizade sem adolescência. Quando começaram a comparar a quantidade de pelos entre si, em que cada novo fiapo despertava do bulbo com a frequência e a alegria de um domingo sem culto (cada vez mais raros), chegou a hora de se oferecer às fileiras do General. Era a Lei dos Onze: não se alistou na semana do 11º aniversário, vai para a Burocracia. E isso é algo que nenhum pai deseja. A mãe, se ela ainda opinasse publicamente, como naqueles tempos horríveis da Desordem e da Democracia a, diria que prefere o filho Burocrata a Combatente. O pai, jamais; antes Morto que Burocrata.
Os pais de Dionisíaco e Apolônio não fugiam à regra. Nem poderiam, que bobagem a sua pensar assim! Tá querendo ir para a Desempenadeira? Só de pensar…
A amizade virou vigília. Nas aulas de tiro, um apoiava o outro. Nos exercícios de fortalecimento do corpo na academia, e do espírito nos discursos-cultos, a mesma coisa. Apolônio era quem geralmente apoiava Dionisíaco em transformar músculos e alma em disciplina. Era seu orientador também nos treinamentos de decantação da genética e do sexo — AritmEtnicamente [que Deus NOS tenha], só se viabiliza uma pele e só se verifica dois gêneros, como você bem sabe.
Apolônio nasceu para aquilo. Ele conquistaria a Medalha e sorriria pessoalmente para o General aos 21 anos, a maior glória para um jovem da pátria da AritmÉtnica [que Deus NOS tenha]. Bastava cumprir a Missão dos 21 — era questão de dias.
Dionisíaco também nasceu para aquilo, dizia seu pai sempre que encontrava seu vizinho do box-residência à direita, o pai de Apolônio. Não competiam, porque a AritmÉtnica [que Deus NOS tenha] não permitia vaidades da pessoa ou da família, esperamos que você nunca se esqueça disso. E você também lembra que os pais nunca são as melhores testemunhas. Dionisíaco realmente nasceu para aquilo, sorriria para o General se conseguisse, nos próximos dois dias, manter em segredo os 5 dos 10 Pecados que praticava anonimamente: o álcool, o sexo, a ironia, o comunismo e a depressão.
Apolônio acordou no dia da Missão pensando em duas coisas: manter Dionisíaco na linha e garantir a medalha de quem viu e sorriu para o General em pessoa.
Dionisíaco acordou imaginando cinco coisas: secar a garrafa de cana, plantar a cana na prima Afrodisíaca, ganhar a Medalha, recolher durante a Missão um livro do Marx ou do Freire e chorar aos pés de qualquer um desses, da garrafa, da Afrodisíaca, do General, do Marx ou do Freire.
A missão: queimar a coleção particular de um bibliófilo que, assim como alguns poucos, conseguira esconder por mais de 30 anos livros proibidos que não estavam no índex das 38 obras permitidas pela AritmÉtnica [que Deus NOS tenha]. O sujeito mantinha, veja só você o absurdo, livros escritos por diabretes e demônios como Bradbury, Orwell, Kafka, Graciliano, Amado, Saramago, Pessoa, Hemingway, os Andrades… O horror.
A Missão cumpriu-se. Bibliófilo morto, como era de esperar. Livros e móveis tostados até o carvão. Todos os Missionários em seus uniformes da cor das Missões, preparando sob os capuzes e as máscaras o silêncio do sorriso para o General após o sucesso. “Nossa pátria é o capuz! Nosso hino é o silêncio.”
— Nossa pátria é o caralho! Nosso hino é o choro. — Dionisíaco repetia, aos berros, sem uniforme, embebedado de um Marx que ele imaginou porque não encontrou e de um conhaque que ele encontrou porque procurou no esconderijo do bibliófilo.
A camiseta que fazia as vezes de capuz não homenageava o pensamento do Coronel; era só uma tentativa de iludir os colegas missionários, planejada antes que 4 de seus 5 Pecados se manifestassem simultaneamente, ali, naquela Missão.
Um disfarce que sequer levantou dúvidas entre os Missionários. Quase automaticamente, reconheceram Dionisíaco sob a camiseta. E automaticamente procuraram Apolônio, como quem procura uma mãe aos prantos ao flagrar uma criança sem acompanhante.
Apolônio estava ocupado, com o seu Pecado, praticado não anonimamente, e que, diferentemente de Dionisíaco, escondera por dez anos: a vaidade da pessoa.
A fotografia que Apolônio tirou de si mesmo no dia de sua Missão dos 21, para registrar um triunfo que imaginava seu enquanto os livros queimavam às suas costas, é usada até hoje nos treinamentos das Tropas da Ofensiva AritmÉtnica [que Deus NOS tenha], para ilustrar um dos 10 Pecados, a vaidade da pessoa, cuja pena é a Extinção, mesmo que o indivíduo tenha viabilizada sua pele e verificado seu gênero. A garrafa que Dionisíaco esvaziou no mesmo dia ilustra outro dos 10 Pecados, o entorpecimento, igualmente punido com a Extinção.
Você, que já tem mais de 11 anos, de pele viabilizada e do gênero verificado, sabe muito bem disso.
— Nossa pátria é o capuz! Nosso hino é o silêncio.

Uau, Cássio. Você montou um cenário distópico, ao estilo 1984, muito bem arquitetado. Pensou bem nos nomes (e nomes, muitas vezes, nos apontam para caminhos da história). E teve uma sacada muito original, certa intertextualidade na repetição de [que Deus NOS tenha], uma voz narrativa interessante, que amarra o narrador a um personagem palpável, e a uma realidade vigiada e massacrante. Dureza é pensar que, em algum nível muita gente gostaria de ver algo parecido acontecer. Não entendi bem o diálogo entre Dionisíaco e Apolônio (o cheiro de reticências). Fiquei aqui pensando o porquê das reticências. Será algo que o narrador estaria proibido de reproduzir? Fiquei na dúvida sobre sua intenção. Isso aí!
ResponderExcluirMuito, muito, muito obrigado pela análise, Flávio. Arrisquei umas coisas por aqui, que bom que funcionaram. A ideia foi exatamente a de sugerir que a distopia está entrando num terreno de relativização, inclusive com muito gente que a deseja, por alguma sanha despótica -- tornando-se, para esses, uma utopia ideológica. Cruzes!
ExcluirSobre o diálogo, foi uma brincadeira que tentei com o constrangimento do exercício. Como não havia a possibilidade de usar adjetivos, substituí por reticências para que o leitor possa construir com o adjetivo que lhe venha à cabeça. Imaginando que um diálogo entre amigos assim tão próximos a ponto de se ofenderem "afetivamente" não possa prescindir de adjetivos; o autor teve de esconder sua pequenez diante do tamanho dessa amizade rs. Até porque os nomes deles já eram adjetivos também [minha pequena safadeza e vingança contra eles rs.].