Seven Sisters
Um objeto rígido em um alimento desejado e um barulho de perturbar a medula.
Assim ela o descreveu para o homem de avental branco.
Ele olhava, iluminado pela luz, o dente branco, ligeiramente torto, com as cúspides desgastadas típicas de um rangedor crônico, lascado, como um dos grandes penhascos das “Seven Sisters” na Inglaterra, antes polido, agora pontiagudo, destoando dos companheiros ao seu redor.
Ele pensa na menina à sua frente fantasiada de colombina, com paetês adornando a blusa e a meia arrastão encobrindo as pernas, as partículas brilhantes pelo rosto e que a despeito de tudo isso carrega um dente em forma de falésia.
A sala é branca, a cadeira nova, a assistente do dentista, muda, o aparato para fazer RX incômodo, segundo a descrição do homem de jaleco.
Todos se afastam, menos a colombina, com o aparato entre os dentes, mordido com persistência (com a determinação de alguém que acredita que o objeto pudesse colar novamente aquele dente).
Um molar fraturado, um dente de corte supostamente inofensivo, porém com a força destruidora de 60J aplicada pela mandíbula (como dito pelo homem de jaleco).
O dente rachado, com uma parte que lhe falta, mas sem maiores danos.
A colombina pode voltar para o seu carnaval, com seu dente pela metade.
Paola, achei seu pequeno conto bastante perturbador. Há um deslocamento interessante, o consultório do dentista se chocando com a menina fantasiada. E a comparação entre o dente e o penhasco pontiagudo é muito boa. Isso aí. Deu para ver que você economizou nos verbos, o que deu ao conto um efeito fotográfico, em alguns momentos, como se o tempo se esticasse.
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