PAPEL HIGIÊNICO
Naquela terça-feira, uma dor aguda e lancinante no baixo
ventre e um tempo maior no banheiro. Talvez fosse a sessão de terapia do dia
anterior. Nem precisou do cigarro seguido da xícara de café de todas as manhãs.
Estava digerindo. Abre o último rolo de papel higiênico e pensa, “preciso ir ao
mercado”.
Os momentos no banheiro pela manhã eram os seus mais íntimos
e solitários. Neles, aproveitava para mergulhar na memória e viajar nas
lembranças. Lembrou-se de quando se conheceram, ainda na infância. Na época,
Mauro era ainda um rapaz mirrado e magrelo, bem diferente do homem de corpo
grande e largo que havia se tornado, físico que desenvolveu nos muitos anos
subsequentes, com a natação. Ela também era miúda naqueles tempos e Mauro
recordava bem: demorara até que viesse a ganhar corpo de mulher. Enquanto ainda
eram franzinos e desajeitados, matavam o tempo subindo em árvores, olhando as
nuvens e fazendo coisas não tão nobres como campeonatos de cuspe à distância.
Tudo com as passadas mais lentas que só a inocência infantil é capaz de
permitir. Passaram-se anos, que para Mauro foram como décadas, até que ela
descobriu nele algo mais do que um amigo.
Já era sexta-feira e o rolo de papel higiênico havia chegado à
metade. À lembrança dos afazeres se sobrepunham as lembranças da juventude, adiando
as urgências concretas do cotidiano. Os anos formais de namoro duraram menos
que os anos de amizade e casaram-se logo que terminaram os estudos. Mas o status de casados não veio transformar
em nada a relação. Continuaram um jovem casal de namorados que experimentavam,
porém já não com tanta vagarosidade, as delícias da vida a dois.
Os filhos só vieram muitos anos depois e, para tirar o
atraso, foram logo quatro, um em seguida do outro. O primeiro, planejadíssimo, com
direito a todos os rituais esperados e desejados à época. Já os três seguintes,
definitivamente não foram planejados. O que rendeu ao casal a necessidade de terem,
ambos, dois empregos para sustentar o quarteto. A semana era corrida e o casal
que antes era de um grude de dar gastura, passou a se encontrar apenas nos
finais de semana. A rotina de desencontros semanais e encontros aos finais de
semana só teve fim quando os filhos cresceram, saíram de casa para estudar e
trabalhar, e o casal, enfim, conseguiu a aposentadoria.
Mauro senta no sofá e pensa. Era nele que se sentavam em
todos os finais de tarde nos últimos cinco anos desde que se aposentaram, para
assistirem juntos à novela. Ainda não havia sentado ali desde a semana
anterior, quando ela havia sido internada. A novela é interrompida pelo toque
do telefone. Ele sente novamente a pontada no baixo ventre. Corre para o
banheiro e percebe que se esqueceu de ir ao mercado. Puxa os últimos dois
pedaços de papel higiênico (achou que o rolo duraria até o dia seguinte) e se
lembra das palavras que sua mãe sempre repetia: quanto mais pro final mais
rápido acaba.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirNatasha, na mosca. Acho que a metáfora está ali, bem desenhada. O paralelo, pelo menos para mim, se estabeleceu. Gosto da história pregressa sendo contada à medida que o rolo vai acabando. Acho que é isso que sublinha bem a ponte entre as duas realidades. Daria, inclusive, um conto mais longo, talvez inserindo mais um dia, entrelaçando mais a história dos dois à ida ao banheiro. Isso aí, bom mesmo. Quanto ao título, quando ele não chega, faça como o Antônio Carlos Viana, em "A muralha da China": Papel higiênico.
ResponderExcluirObrigada, Flavio! O desejo era mesmo desenvolver mais, mas acabou não rolando. Acho que com mais tempo é possível ampliar sim. :D
ExcluirMuito bom, Natasha!!
ResponderExcluirObrigada, Rayssa! :))
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