Exercício para casa 06 - Jogo da Metáfora (Natasha Mota)

 PAPEL HIGIÊNICO

Naquela terça-feira, uma dor aguda e lancinante no baixo ventre e um tempo maior no banheiro. Talvez fosse a sessão de terapia do dia anterior. Nem precisou do cigarro seguido da xícara de café de todas as manhãs. Estava digerindo. Abre o último rolo de papel higiênico e pensa, “preciso ir ao mercado”.

Os momentos no banheiro pela manhã eram os seus mais íntimos e solitários. Neles, aproveitava para mergulhar na memória e viajar nas lembranças. Lembrou-se de quando se conheceram, ainda na infância. Na época, Mauro era ainda um rapaz mirrado e magrelo, bem diferente do homem de corpo grande e largo que havia se tornado, físico que desenvolveu nos muitos anos subsequentes, com a natação. Ela também era miúda naqueles tempos e Mauro recordava bem: demorara até que viesse a ganhar corpo de mulher. Enquanto ainda eram franzinos e desajeitados, matavam o tempo subindo em árvores, olhando as nuvens e fazendo coisas não tão nobres como campeonatos de cuspe à distância. Tudo com as passadas mais lentas que só a inocência infantil é capaz de permitir. Passaram-se anos, que para Mauro foram como décadas, até que ela descobriu nele algo mais do que um amigo.

Já era sexta-feira e o rolo de papel higiênico havia chegado à metade. À lembrança dos afazeres se sobrepunham as lembranças da juventude, adiando as urgências concretas do cotidiano. Os anos formais de namoro duraram menos que os anos de amizade e casaram-se logo que terminaram os estudos. Mas o status de casados não veio transformar em nada a relação. Continuaram um jovem casal de namorados que experimentavam, porém já não com tanta vagarosidade, as delícias da vida a dois.

Os filhos só vieram muitos anos depois e, para tirar o atraso, foram logo quatro, um em seguida do outro. O primeiro, planejadíssimo, com direito a todos os rituais esperados e desejados à época. Já os três seguintes, definitivamente não foram planejados. O que rendeu ao casal a necessidade de terem, ambos, dois empregos para sustentar o quarteto. A semana era corrida e o casal que antes era de um grude de dar gastura, passou a se encontrar apenas nos finais de semana. A rotina de desencontros semanais e encontros aos finais de semana só teve fim quando os filhos cresceram, saíram de casa para estudar e trabalhar, e o casal, enfim, conseguiu a aposentadoria.

Mauro senta no sofá e pensa. Era nele que se sentavam em todos os finais de tarde nos últimos cinco anos desde que se aposentaram, para assistirem juntos à novela. Ainda não havia sentado ali desde a semana anterior, quando ela havia sido internada. A novela é interrompida pelo toque do telefone. Ele sente novamente a pontada no baixo ventre. Corre para o banheiro e percebe que se esqueceu de ir ao mercado. Puxa os últimos dois pedaços de papel higiênico (achou que o rolo duraria até o dia seguinte) e se lembra das palavras que sua mãe sempre repetia: quanto mais pro final mais rápido acaba.

 


*Eu havia começado o exercício de improviso com a dupla "serrote e felicidade". No dia seguinte ao nosso encontro, conversando com um casal de amigos, escuto essa: "a vida é igual papel higiênico, quanto mais perto do fim, mais rápido acaba". Aí não teve jeito, tive que usar. E, bom, títulos são muito difíceis pra mim, não consegui pensar em um ainda. Mas vou me esforçar pra ver se me ocorre algo até amanhã!


Comentários

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  2. Natasha, na mosca. Acho que a metáfora está ali, bem desenhada. O paralelo, pelo menos para mim, se estabeleceu. Gosto da história pregressa sendo contada à medida que o rolo vai acabando. Acho que é isso que sublinha bem a ponte entre as duas realidades. Daria, inclusive, um conto mais longo, talvez inserindo mais um dia, entrelaçando mais a história dos dois à ida ao banheiro. Isso aí, bom mesmo. Quanto ao título, quando ele não chega, faça como o Antônio Carlos Viana, em "A muralha da China": Papel higiênico.

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    1. Obrigada, Flavio! O desejo era mesmo desenvolver mais, mas acabou não rolando. Acho que com mais tempo é possível ampliar sim. :D

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