Exercício para casa 04 (Guilherme Eduardo Figueiredo)

 Exercício para casa 04 (Guilherme Eduardo Figueiredo) 

Aqui em casa tem um uma cristaleira de madeira. Era da minha avó. Eu não tenho nenhuma ligação emocional com ela além do fato de que era da minha avó, depois passou para o meu pai e agora é minha. Como não tenho filhos, não irei deixá-la para ninguém. Talvez seja vendida em uma venda de apartamento daqui a poucos anos depois que eu morrer de uma hora para outra de um aneurisma cerebral. Um casal vai entrar no apartamento que outrora era meu, com minhas coisas sendo vendidas por um preço camarada. Como minhas irmãs e meus sobrinhos já vão ter tirado tudo de mais valor, só sobrarão os móveis e algumas quinquilharias, tudo bem barato. Um primo meu vai receber 20% do que conseguir vender, e é ele que estará no dia da venda, mostrando as coisas. 

O casal é bem jovem, ele, 23, ela, 20. Está grávida de um menino, Joaquim. Vieram ao apartamento porque iriam montar uma casa nova, bancada pelo pai dela, que tem dinheiro. Havia mais algumas pessoas zanzando pelo apartamento, comprando algumas coisas. Eles gostaram da cristaleira, madeira de lei, abriram, por dentro ela é toda forrada por um pano vermelho, foi feita antes da década de 1960. Contudo, ela não estava vazia, havia uma garrafa de whisky dentro que alguém esqueceu de tirar. Chivas 13 anos, porque eu gostava de coisa boa. 

Eu falei que não tinha ligação emocional com a cristaleira, mas não é verdade. Era o móvel onde minha avó mantinha as bebidas dela. Quando eu era criança e minha avó ainda tinha muito dinheiro, era cheia de garrafas. Quando vovó abria a porta do móvel eu ficava perguntando sobre cada garrafa: 

- Qual é essa, vó? 

- Isso é whisky. Um single malt 18 anos. 

- Eu gosto desse veado desenhado na garrafa. Parece o pai do bambi. 

- Na mitologia celta o cervo representa maturidade, graça e o crescimento espiritual. 

Logo eu perguntava de outra garrafa, e outra. Ela me respondia, depois contava histórias da mitologia grega, ou de algum pintor famoso. Eu comecei a desenhar por causa dela, depois pintar. No entanto o dinheiro dela foi escasseando, e as garrafas foram diminuindo. Quando eu tinha doze anos, pouco antes de ela morrer, quando ela bebia todos os dias havia alguns anos, só tinha garrafa de 51, e o único drink que ela ainda fazia era caipirinha de limão. “É um drink completamente nacional, feito com os produtos da cana, que tantas riquezas trouxe ao Brasil. Para um brasileiro não há drink mais nobre.” Tudo nessa frase que ela repetia é reflexo da burguesia decadente que ela representava. A minha malfadada carreira de pintor e desenhista, assim como meu amor por Homero e tudo relacionado à mitologia grega, se deve à minha avó. “Canta-me a cólera – ó deusa”, são versos que ainda me enchem de saudades e me fazem lembrar do cheiro de muitas bebidas. 

Depois a cristaleira passou para o meu pai. Diferente da minha avó, meu pai era alcoólatra desde pequenino. Pelo menos quando eu nasci ele já bebia, e assim continuou. A cristaleira continuava cheia de garrafas de bebidas, mas sem a mesma variedade de outrora. É engraçado como um monte de bebidas juntas é uma coisa linda. Várias garrafas de inúmeros tamanhos, diversas cores, muitos formatos, uma ao lado da outra. É quase tão bonito como uma queima de fogos, mas fogos de artifício não te deixam doidão. Por isso os fogos são inferiores. 

Teve um momento no qual meu pai parou de beber. Ele ficou limpo por dez anos, depois voltou com tudo e acabou morrendo, então a cristaleira passou para mim. Eu a levei para o meu apartamento. No começo eu guardava alguns instrumentos de desenho e pintura, coisas assim. Depois de um tempo, as garrafas finalmente voltaram. Teve um momento da minha vida que eu achava que não iria beber. Lembro de, aos dezesseis, ir a algumas reuniões do NA com meu pai, vendo-o e a outros alcoólatras e dependentes químicos contando suas histórias, eu pensava, não, esse não sou eu, nunca vou beber nem ser um alcoólatra. 

Eu realmente fiquei alguns anos sem beber muito, mas a frustração de ter falhado como artista, a vergonha que eu sentia por ter me tornado um burocrata de merda, tendo de ir todos os dias àquela repartição odiosa, fez com que eu voltasse a beber de verdade. A cristaleira voltou a ser o local de guardar as garrafas, os copos, os dosadores. Quando recebi a herança do meu tio, enchi a cristaleira de garrafas de todos os tipos, bebidas de todo o mundo, ficou lindo. Preparei três drinks, um para a vovó, um para o papai, e um para mim. Brindei com eles e virei os três. Depois, obviamente, bebi até perder a consciência. 

Assim foi indo a minha vida, até o dia em que morri. Agora tem um casal levando minha cristaleira para a casa nova deles. O jovem pai decide guardar as bebidas dele na cristaleira. Quando o pequeno Joaquim nasce, seu pai brinda com whisky. À medida em que o Joaquim vai crescendo, ele vê o papai bebendo cada vez mais. É o avô do Joaquim, pai da sua mãe, que banca a família. Em compensação ele controla tudo com mão de ferro. Não perde uma oportunidade de humilhar seu genro, lembrando que ele é um inútil, que só tem um emprego porque o sogro arrumou. 

Os anos passam e quando Joaquim tem doze anos ele decide fazer uma coisa maravilhosa. Ele abre a porta da cristaleira. Ela parece tão diferente de qualquer outro móvel que tem na casa. Feita de madeira, madeira de verdade, não esse compensado porcaria que a gente vê por aí. As portas são trabalhadas, com padrões e detalhes, assim como os pés e a parte de cima. Quando ele abre vê o interior recoberto pelo pano vermelho que, embora velho, ainda é elegante. É um móvel antigo, mágico, que traz consigo a sabedoria de outrora. Joaquim olha as garrafas e escolhe uma. Por coincidência é um Chivas 13 anos, igual ao que havia dentro quando seus pais abriram a cristaleira pela primeira vez. Parece até que eu vim do além só para colocar essa garrafa ali na hora que Joaquim fosse escolher alguma bebida. Ele também vai ter bom gosto. 

Joaquim serve uma dose no copo que ele vê seu pai usando, um pequeno, de shot. Dá um gole. A bebida queima sua boca, sua língua, sua garganta. Ele começa a tossir. Aos poucos vai bebendo mais. De repente, vai tudo ficando mais fácil. No segundo copo, quase não queima. Quando termina, ele lava o copo e coloca de volta, ninguém vai perceber. Como está tudo girando, ele se deita, fecha os olhos e consegue esquecer a briga que os seus pais tiveram ontem, a gritaria, o soco. Ele abre os olhos e vê a cristaleira. Tão linda. Outro dia, quando seus pais estiverem fora, ele vai fazer a mesma coisa. 

Comentários

  1. Guilherme, belo conto. Interessante o modo como você se prendeu à cristaleira, não tirou o foco dela, dando a ela o caráter de um personagem. Quase um personagem amaldiçoado, que não consegue fugir do seu destino, e leva quem está por perto junto. O ciclo está muito bem feito, parabéns. Eu cortaria a frase "Tudo nessa frase que ela repetia é reflexo da burguesia decadente que ela representava." Perceba como ela destoa do restante do conto, oferecendo uma explicação que já está implícita, que permeia toda a história. Isso aí!

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