Macarrão Torrado
Era
uma quente tarde de outubro. Voltávamos do enterro de minha avó que falecera
exatamente um mês após meu avô. Estávamos exaustos, moídos, com as lembranças
nos assaltando a todo momento o que fazia as lágrimas virem os olhos. Elas, de
certa forma, deixavam o presente turvo e atuavam como colírio, desanuviando as
lembranças de nossa infância.
Por
mais que doesse e parecesse precipitado, era necessário voltar na casa da vó
Neuzina e organizar os objetos e os móveis para que os que ali ainda estavam pudessem
conviver em paz com aquele mar de memórias. A cozinha era a parte que mais
gritava aos nossos ouvidos. Era ali que todos se reuniam para conversar, trocar
confidências, brigar e amar. Dali saiam os mais deliciosos almoços de dia das
mães, de natal e de páscoa. Nessa floresta de conhecimento e reconhecimento,
esquecida em um canto, estava a panela em que a vó Neuzina sempre cozinhava a
sopa de macarrão. Tem que ser macarrão torrado porque engrossa o caldo, dizia
ela.
A
panela era enorme, afinal, era uma casa com esposo, oito filhos e muitos netos
que vinham constantemente jantar na casa da avó. Ela era de alumínio, fundo
preto de carvão. Panela grossa, mas já bastante amassada. A tampa mal se
encaixava e o fundo arredondado fazia com que a panela bailasse no fogão. A
panela tinha cheiro de macarrão torrado. Talvez fosse melhor lavá-la novamente,
mas o cheiro estava impregnado em minha mente. Vó Neuzina, naquele momento,
tinha cheiro de macarrão torrado. Eu a via mexendo a panela que insistia dançar
no fogão ao mesmo tempo em dizia para alguns de nós descer do banco para não se
machucar, ou largar determinado objeto para não quebrar.
As
lágrimas, novamente, deixavam o presente turvo e o passado vívido.
Boa tarde, Flávio. Este é o exercício de improviso da semana retrasada. Aproveito para justificar minha falta no último encontro. Eu não estava bem de saúde. Hoje estarei presente.
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