Melhor que fosse cheiro de mijo que de perfume.
Aquele vidro, ele nunca chamava de frasco.
Era dessas palavras que lhe causavam alergia: frasco, através, rabo, perfume. Preferia vidro — até embalagem, vá lá! —, por meio de, cauda, cheiro.
Nunca conversaram. Nem agora, que ela não tem nem boca nem cheiro, nem antes. Discutiam.
E ela ainda estava ali, naquele vidro, os bicos de jaca translúcidos, a tampa de rosca carcereira do fedor, que espumava feito chorume — chorume seria mais agradável.
Aquele líquido que misturava-se ao líquido que das fraldas vazava — mijo, conhece?. Noé não venceria aquele dilúvio de cheiros, perfume e mijo, cheiro e cheiro. Melhor que fosse mijo, só mijo, que perfume.
O vidro estava mais vivo do que nunca. Inquebrável.
Ela, mais viva do que nunca. Inquebrável.
Ele jamais procurou sinônimo inofensivo para a palavra avó. Incurável.
Forte, Cássio. Bom, um conto que carrega uma visão honesta, embora com uma linguagem mais hermética, mais aberta a elaboração do leitor (e isso não é bom nem ruim, apenas um traço de estilo, talvez). O que vejo é uma raiva, incontestável, desse neto, na minha opinião. Estou certo? Será?
ResponderExcluirAcertou em cheio, Flávio. Raiva e rancor, daqueles que se carregam até para depois dos cabelos brancos -- ou da falta deles, rs.
ExcluirObrigado!