EXERCÍCIO DE CASA TRÊS (MIRIAM WAIDENFELD CHAVES)

 

O PARAÍSO PERDIDO (Miriam Waidenfeld Chaves)

Desde que conheceram a serra do Colibri, os Pereiras não pensaram em outra coisa. Diminuíram o número de viagens para o exterior e começaram a poupar para construir a casa de seus sonhos.

Com vista panorâmica para o horizonte, decidiram que o vidro seria um elemento-chave da arquitetura. Queriam a floresta dentro da sala de estar. Teriam a lareira de pedra, o assoalho de madeira e o tapete kilim comprado na Turquia atravessados pelos raios de sol, que  espalhariam a sua luz por todo o ambiente. Da cozinha sem paredes até poderiam enxergar os  colibris regorjeando e os macaquinhos pulando de galho em galho  na mata.   

Esse sonho demorou uns quatro anos para ser finalizado. Desde então, os Pereiras viajaram para aquele paraíso regularmente. Os sogros de Eunice e sua mãe, Judith, foram os que mais usufruíram daquela empreitada.  Com os netos batiam um bolo na cozinha, jogavam gamão na sala ou, simplesmente, colhiam alguns legumes na horta  para a salada do almoço

***

É bem verdade que a escuridão da mata, seus ruídos e o vento, de início, causaram certa estranheza nos Pereiras, habituados com o burburinho da cidade.

Quando chovia, os trovões e relâmpagos pareciam invadir a casa. Sem sono,  costumavam tomar uma caneca de chocolate na cozinha. Assim, aquietavam as suas almas.

No dia seguinte, quando o sol começava a brilhar, tudo entrava nos eixos. E as crianças corriam para o jardim atrás de Chiquinho. É bem verdade, que com o tempo todos na casa se acostumaram com as esquisitices da Natureza.

Dentre tantas histórias, os moradores   selecionaram quatro que sempre foram contadas e recontadas para amigos e parentes. A primeira referia-se a uma araucária que despencara em meio a uma tempestade sobre os tomates da horta. Seu tronco,  transformado em um dos bancos da varanda, tornou-se o xodó da casa.   

Chiquinho, um  linguiçinha, era o personagem da segunda história: num  dia de inverno, foi encontrado sobre o tapete da varanda dormindo o sono dos justos. Um mistério! Ninguém soube explicar de onde surgiu aquela criatura. O fato é que, a partir daquele momento, jamais saiu dos braços de Luiza e Paulo Henrique, filhos dos Pereiras.

O terceiro caso pôde ser entendido como um prenúncio  do que estava por vir: num domingo, à tardinha, enquanto avós e netos jogavam gamão na sala, dois rapazes cruzaram o jardim e desapareceram na mata. Logo após, outros quatro executaram o mesmo trajeto. Apenas encararam os sogros de Eunice que da janela observavam aquele movimento do lado de fora da casa.

Nunca se obteve alguma explicação para esse fato. Apenas sabia-se que a construção de outras casas na redondeza acabara com o sossego daquele paraíso. O som das festas e dos churrascos inclusive espantou colibris e macaquinhos de seu habitat natural.   

Até telefonemas de gente querendo comprar a casa os Pereiras receberam!  

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A quarta história resultou na venda da casa.

Era natal. A ceia seria servida à meia noite. Judith ao piano mostraria seus dotes de cantora e a criançada apenas abriria os presentes  depois da sobremesa.

Tudo foi preparado com esmero por Eunice que, depois de muito tempo, receberia o seu irmão em sua casa. Brigados, ela esperava não perder a paciência com as suas opiniões sobre a vida.  

Quando o relógio marcou 23:30 minutos, nada a partir daquele momento saiu conforme o planejado.

Eunice, sua mãe, Edith, e Raul discutiam a sós no escritório. Mãe e filha, chateadas, tentavam demove-lo da assessoria que estava prestando a um deputado acusado de corrupção.

Na sala, todos se divertiam. Chiquinho, diante tanto movimento, corria para lá e para cá. Luiza e as primas cochichavam perto da lareira. Os meninos, num canto, jogavam totó. Os adultos, nas poltronas, ao lado da cozinha, conversavam.

De repente, dois Papais Noel entraram na sala. As crianças, de imediato, correram até eles gritando Papai Noel, Papai Noel, Papai Noel chegou! O primeiro deles os empurrou para longe. Começaram a chorar.

O segundo Papai Noel agarrou Paulo Henrique, quando seu pai e os demais familiares se deram conta de que estavam sendo assaltados.

Enquanto um Papai Noel amarrava os adultos, o outro bebia vinho e engolia nacos de presunto de Parma com sofreguidão.

Judith e os filhos silenciaram-se. Mantiveram-se escondidos no escritório.

Meia hora depois, esse drama chegou ao fim.

Raul, sem dar ouvidos aos apelos da mãe e da irmã, sacou a sua pistola do casaco e se dirigiu para a sala devagarzinho. Protegido pela estante de livros disparou contra o Papai Noel que ainda devorava pedaços do presunto de Parma.  

O outro, instintivamente, colocou a bolsa já cheia de celulares e relógios no ombro e revidou. No segundo seguinte, correu para a mata carregando junto consigo o companheiro ferido.  

Na sala, o marido de Eunice continuou caído no chão ensanguentado.

 

Rio de Janeiro, 8 de maio de 2022

 

 

 

 


Comentários

  1. Sem dúvida, um paraíso perdido. E interessante imaginar que a história nasceu da foto da mesa de baralho. A janelona te inspirou, fiquei surpreso. E feliz, porque você observou algo seu, que foi ao encontro da história. O relato dos dois papais Noel é assustador, coisa de filme. Deu uma arrepiada, aqui. Como sugestão, faria um final que remetesse, de algum jeito, aos Pereira, ou aos colibris, ou ao paraíso: algo que arredondasse o final, um pequeno detalhe que levasse o leitor de volta ao começo. Isso aí!

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  2. Adorei. Ri dos Papais Noel assaltantes (e do guloso) até que o clima ficou bem tenso. Rsss

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