O Sofá
Irene, sua esposa, chegou a pensar numa reforma da casa. Queria abrir um acesso direto dos quartos para o quintal.
- Pra que isso, Irene? Ele perguntava, sem tirar os olhos da TV.
- Ah, Caio, sei lá, vontade de mudar.
Irene respondia sem ânimo, mas o que ela queria mesmo, talvez, fosse não ter que passar pela sala.
Ultimamente, quase tudo a irritava, naquele ambiente: o som alto dos programas da televisão e as coisas espalhadas. Sobre o sofá as chaves do carro, a carteira, jornais, contas a pagar, alguns livros e a capa dos óculos. A almofada funda tinha a marca do corpo de Caio.
Logo que se casaram, fizeram planos. O maior sonho deles era comprar uma casa com um quintal grande, onde pudessem ter um jardim."
- Irene, ainda quero te ver cuidando das roseiras". Era uma das coisas que Caio dizia, quando visitavam parques e jardins da cidade, ou nas poucas viagens que fizeram juntos.
Irene nunca viajava sozinha.
Caio tinha ciúmes. Um ciúme silencioso que rondava Irene todo o tempo.
Enquanto trabalhava fora de casa, ainda tinha alguma convivência com os colegas. Depois, desistiu de sair, de visitar sua família, de ir ao cinema, de qualquer coisa que tivesse que fazer na companhia do marido.
Irene se sentia vigiada pelo olhar cortante de Caio, como tesoura de poda na raiz de qualquer movimento seu, ainda que pequeno.
Desde que se aposentou, passava muito tempo no quintal. Cuidava das roseiras, renovava os vasos de plantas e se escondia em seu ateliê de arte, que ficava ao lado da área de serviços. Demorou para ficar pronto. Ela não tinha pressa. Um dia levava uma tela para pintar, noutro dia uns rolos de sisal que encontrara na loja, ao lado do seu trabalho.
Sempre talentosa, Irene amava transformar coisas e via beleza até num pedaço de madeira que encontrasse na calçada. Em suas mãos, quase tudo virava um objeto de arte.
Caio preferia a matemática. Trabalhou durante anos como professor. Um acidente vascular interrompeu sua carreira, antes da hora.
Apesar de não ter tido muitas sequelas, ficou esquecido e já não poderia continuar na universidade, onde ministrou suas aulas por mais de 15 anos.
Desde então, Caio passou a ficar muito tempo na sala de estar. A casa era grande para o casal. Não tiveram filhos. Viviam os dois, cada um no seu canto. Ele se aposentou primeiro. Ela acabara de se aposentar. Atuou como professora de artes plásticas na mesma universidade, onde Caio trabalhava. Foi nos intervalos das aulas que se conheceram.
No início, ainda conversavam muito. Sobre literatura, sobre música e sobre plantas.
Com o passar dos anos, os diálogos foram ficando mais raros.
Poucas vezes tiveram alguma discussão. Irene foi ficando mais calada, depois que Caio fez da sala de estar seu habitat. Gostava de usar um pijama azul marinho, da cor do sofá. Não fosse a cara rosada, Irene passava sem perceber a presença de Caio.
Dia após dia, Irene cumpria as rotinas de casa e logo depois se trancava, debruçada em seus materiais de arte. Passava cada vez mais tempo no ateliê.
Certa manhã, Caio anunciou que, à tarde, iria passar a reprise da ópera Carmen. Talvez ele a quisesse junto dele, como antes. Nem que fosse para ela tirar um cochilo, recostando a cabeça no seu colo. Irene inventou uma desculpa e se ocupou de pequenos afazeres, até a hora de ir para o ateliê.
Naquele dia, permaneceu ali por mais tempo. A música alta tocando na sala e Irene parecia sentir a força da voz da soprano que interpretava Carmen. Tecia um tapete de sisal redondo e nem percebeu a chegada do pôr do sol. Últimos acabamentos e o tapete estava pronto. Pensou em levá-lo para sala e mostrar a sua obra de arte, porém desistiu.
Entrou em casa novamente, perguntando: "Caio, você já tomou a sopa? Deixei em cima do fogão."
Nenhuma resposta.
Na sala, o som ainda alto e Caio de bruços no chão. Entre os dedos, o controle da TV.
Denise, na mosca. Acho que ficou muito clara a metáfora entre o "sofá desgastado pelo tempo e por tristezas acumuladas" e a vida pós aposentadoria de Caio. Interessante, você optou por emprestar as características de Caio para o sofá, e funcionou. E há outras metáforas também, não absolutas, o jardim e a tesoura. Senti um pouco de falta do sofá mais para o fim. Algo fácil de resolver, certo? Isso aí!
ResponderExcluirObrigada pelo retorno, Flávio. Vou pensar nesse final, conforme sua sugestão. Valeu!
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