BARCOS, PEIXES E PÁSSAROS
Cynthia
Dorneles
Muita
preguiça, febre. Mal dava para assistir a tv. A coisa andava mal. Se Flavio lia,
os olhos doíam. Se ficava sentado, a coluna lombar ia para o brejo. E tinha o
cotovelo, que se digitava parecia que ia se destacar do braço. “Tennis Elbow”.
Era uma doença chic. Doença de tenista. Mas a dor era uma chatice, como a dor
de qualquer doença. Mas ele ia assistindo pela tevê a corrida em Mônaco, com
aquelas paisagens em Mônaco que de tanto ver, lhe eram familiares. Combinava
com sua doença de tenista aquela paisagem. Os barcos daqueles ricos de verdade
todos apitando por conta da vitória de um cidadão monegasco era impressionante.
Havia algo de poesia nos apitos de barcos. E quando ficava sentimental, voltava
a juventude em seus pensamentos.
Até pouco tempo atrás, ele estava
no seu tempo, olhando meninas, sendo por elas olhado. Pegava sua guitarra,
fazia sua cena de músico incompreendido e costumava fazer sucesso. Muitas gatas
para quem tocou se apaixonaram por ele. Afinal muitas delas diziam estar à
espera de um homem sensível e ele era o próprio homem sensível e injustiçado.
Agora não. Agora ouvidos críticos e elogios eventuais eram o que lhe dedicavam
ao fim de suas performances. Era melhor que nada. Mas ele às vezes se
perguntava se não teria sido melhor ter morrido naquele acidente grave, mas não
fatal há dois anos atrás. Foi por um milagre que ainda naquela noite se
apresentou num teatro de cidade do interior. Na hora do show, tocou
maravilhosamente bem imaginando que havia renascido e que se havia sobrevivido
sem um arranhão só podia ser porque Deus lhe reservaria alguma missão na Terra.
Muito tempo já havia se passado
desde este dia e a missão divina não aconteceu ou se aconteceu ele nem percebeu
qual seria. Hoje, se não fosse pelos trocados que recebia ao fim de cada
apresentaçãozinha besta ele definitivamente não iria sair de casa naquelas
noites frias. Agora então nem se fala. Terminava com dores horríveis nos dedos,
no cotovelo, na lombar. Mas os trocados garantiam o condomínio, a luz, o gás.
Mesmo que já não trouxessem as gatas maravilhosas de antes, pagavam seu consumo.
Flavio, até hoje rock and roll
até as escamas imaginárias do seu ser, estava determinado a não envelhecer no
estilo que tinha visto seu pai envelhecer. Seu pai empurrava o andador
ferozmente para cima e para baixo das mesmas ruas por onde andava agora. Com
igual ferocidade, falava de cada uma de suas doenças como se fosse um grande
assunto com cada conhecido que avistava e que gentilmente lhe perguntava como
iam as coisas.
O rosário de doenças era
infinito, só perdendo para o de revoltas. As re-voltas eram coisas que iam e
voltavam na mente de “Seu Antenor da banca de jornal”. Colecionadas ao longo de
décadas e sobre as quais ele jamais havia movido uma palha, amontoavam-se as
iras umas sobre as outras, indo e voltando. Então a única coisa que seu pai fazia
mesmo era reclamar. Re- clamar. Clamava a altos brados tudo o que de errado
faziam os governantes, os políticos, o síndico, os vizinhos, o preço do
supermercado, da gasolina sem jamais sair do seu sofá cada vez mais puído. Até
não restar ninguém com paciência para lhe perguntar como estava.
Flavio assistia a TV no apartamento
que herdara de seu pai. Naquele instante que ele ligou o aparelho, um
gavião-carijó entrou janela adentro de olho num ninho de rolinhas no seu ar
condicionado. Sem querer, passou direto por uma fresta da tela de proteção e
ficou preso na sala. Era belíssimo com suas penas alaranjadas e seus olhos
redondos, com uma das patas presas na tela, se debatendo. Estava tentando
desesperadamente sair. As rolinhas adultas, do outro lado da trama, ficaram
imóveis e silenciosas, mas os filhotes agitadíssimos. Poucos instantes antes o
gavião tinha dado seus grasnados lá do alto. Os pequenos imediatamente após, piaram
assustados e abriram suas asas ainda inúteis, o que denunciou a posição do
ninho e provocou o mergulho do gavião sobre eles. Para sorte das rolinhas, um pequeno
erro de cálculo no mergulho do gavião fez com que entrasse janela adentro do
apartamento de Flavio e prendesse sua pata num buraco da tela.
Flavio nada viu nem ouviu, só
assistia a televisão. Mas o velho gato de seu pai viu e ouviu tudo. Para pânico
do gavião e das rolinhas, lentamente se aproximou da ave presa. Mas era um gato
bem alimentado, esperto e já idoso. O gavião estava preso, mas iria dar bicadas
e unhadas com muito vigor, já que era um bicho jovem. Talvez o bichano
calculasse o estrago que poderia resultar da aventura e preferiu ficar apenas
olhando atento aos movimentos do pássaro.
Na rua, sete andares abaixo do
apartamento aonde Flavio babava adormecido enquanto assistia a corrida na tevê,
um homem tentou roubar um automóvel, mas foi visto pelo dono do mesmo- que
estava armado e deu tiros. Tiros estes que quase feriram um garoto que
entregava pizzas de bicicleta e uma mãe que trazia seu filho de uma festinha. O
ladrão fugiu.
No andar de cima do apartamento
de Flavio, uma mãe tentava sem sucesso convencer sua filha a botar uma roupa
menos indecente. A jovem normalmente era bastante discreta, mas nesta noite
havia pintado os cabelos de magenta e de dia havia feito uma tatuagem de um
coração partido. Seu noivo, na véspera, tinha terminado com ela um namoro de
dez anos e a nova namorada dele já estava grávida de cinco meses. Nunca mais
Lucia seria discreta. A mãe que se danasse. De que lhe havia servido ser tão
boa moça?
No andar de baixo, seu vizinho
não conseguia se concentrar para escrever sua dissertação por causa da
barulheira da rua, do gavião preso, da televisão de Flavio que berrava junto a
uma mãe e uma filha furiosas e igualmente estridentes. Seus prazos estavam
apertadíssimos. Faltava muito pouco, não podia desistir agora, depois de tantos
sacrifícios. Dentro da geladeira, havia uma cerveja Hocus Pocus que pretendia
abrir no instante que terminasse seu trabalho. Pensando bem, uma cervejinha só
não teria o poder de tirá-lo de sua tarefa. Podia até ajudar. Abriu uma
geladinha e entoou Carmem de Bizet a plenos pulmões. Já havia feito ópera na
adolescência.
No prédio da frente ao de Flavio,
que continuava a assistir tevê, os cachorros Pinschers da vizinha começaram a
latir ao ouvirem vozes desconhecidas nos fundos, na área de serviço. Eram os
convidados de uma festa a fantasia do andar de cima que haviam se enganado de
apartamento e subiam as escadas. Entre estes convidados, estava Claudia, que
havia completado 56 anos e estava tentando a sorte no Twitter pela primeira
vez. Ela amava o rock and roll e tudo o que queria na vida depois de todas as
suas conquistas era ter um homem sensível a seu lado que compartilhasse de seus
gostos musicais. A música para ela era quase como que respirar. Às vezes ela se
sentia num mar sem fim. Tinha começado a fazer natação.
Nossa, Cynhtia, seu conto ficou lindo. Que bacana, esse narrador que circula pela vizinhança no final. Você utilizou com maestria o narrador onisciente, que pouco tem dado as caras na literatura. Só fiquei na dúvida sobre o gavião: primeiro achei que era sonho, mas depois você reafirma sua presença. Mas acho que não é sonho, Flavio estava apenas dormindo e não viu o bicho. Acho que é isso. Quanto à metáfora: acho que ela está nesse gavião. Nesse enredamento, nessa ave que fica presa, certo? Acho que é uma metáfora da vida do Flavio. Funciona. Imagem forte. Isso aí, parabéns.
ResponderExcluirmuito obrigada Flavio pelo retorno. O conto todo é uma metáfora de como tudo acontece, simplesmente tudo, e às vezes a gente não vê nada. Desejamos, sonhamos, nos decepcionamos e por um tris podemos ser bem ou mal sucedidos, o gavião que erra o mergulho e de predador passa a presa. Mas tudo isso assim, sem querer, vendo tv um programa qualquer....
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