Exercício 5 - A Rural Branca (Denise Morais)

 A Rural Branca


O cheiro da calda do doce de figo inundava a casa, logo cedo. Como o último sinal que toca no teatro anunciando a proximidade do espetáculo, aquele cheiro era a pista de que a rural do Cabral já deveria estar perto. 

Naquela época, a gente sabia o dia aproximado dos acontecimentos, mas nada muito definido. A gente ia vivendo por pedacinhos. “Hoje é dia de feira”! “Sua prima vai se casar, neste ano!” “Tia Débora vem passear em Belo Horizonte, nas férias!” 

E, pelo movimento da casa, eu construía meu relógio imaginário, tentando controlar o tempo das coisas. 

A feitura do doce de figo era um evento à parte. Não só pelo sabor inesquecível, mas também pelo prenúncio da época de natal e das visitas que chegariam em nossa casa.

Minha avó começava a preparação do doce, dias antes. A bacia com os figos verdes, colhidos pela minha mãe na árvore do quintal, ocupava quase toda a pia da cozinha. Na hora do café, eu e meus irmãos olhávamos minha avó raspando a poeirinha da fruta, antes de colocar os figos no caldeirão grande, em cima do fogão.

Dona Marieta era uma avó amorosa, mas, na hora de cozinhar, não gostava muito de conversa. Os meninos ficavam por perto, amontoados na cozinha pequena, até que a minha mãe esparramasse todo mundo dali: “Vão brincar lá fora! Aqui, sua vó não gosta de confusão!”

Os meninos corriam para rua, descalços, com suas bermudas curtas e camisetas de algodão, esgarçadas pelo tempo. Roupa nova era só de vez em quando.

Eu, ainda pequena, caçula dos cinco irmãos, ficava por ali no quintal e ia brincar com a Tele, nossa cadela marrom. Tele veio para nossa casa já grande, quando não era mais filhote e parecia conhecer a todos de longa data. Era dócil e se deitava no chão, com aquele olhar de pedinte para receber carinho. Eu fingia entender seus latidos e contava pra ela meus segredos de menina. Nossa conversa era embalada pelas músicas antigas, cantaroladas pela minha avó na cozinha, enquanto o disco vinil do Noel Rosa tocava no aparelho de som da sala. Tele nunca passeava na rua. O quintal era grande, rodeava a casa e ela tinha muito espaço para correr. Parava na porta da cozinha, no dia do doce de figo. Não sei bem se atraída pelo cheiro da calda ou se também sentia a chegada da Tia Débora, que vinha na rural branca do Cabral.

Ele era um homem bonito e simpático. Era casado com Ana Maria, minha prima, filha da Tia Débora. Era ele quem dirigia a rural. Quando conheceu Ana Maria, estava divorciado e já tinha dois filhos: Paulinho e Regina. Os meninos eram pequenos e também vinham do Rio de Janeiro, passar as férias em Belo Horizonte.

A rural branca era a nossa única possibilidade de andar de carro. Minha avó nunca teve carro, nem minha mãe, nem meu pai. A gente era mais pobre que a família da Tia Débora, irmã da minha avó. Ela gostava de falar que trabalhava no Ministério Público, e esticava bem a palavra “Ministério” puxando o s com o som de x. Eu imaginava que o Minixtério era um lugar cheio de notas de dinheiro, porque Tia Débora tinha carro e a gente não. Eu contava isso para Tele, nossa cachorra.

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A poeira da rua de terra levantou com a freada do carro. Os meninos subiram correndo para casa. Minhas irmãs mais velhas limpando o suor da testa, para cumprimentar a Tia Débora, que descia do banco de trás da rural, carregada de sacolas de biscoitos de polvilho bem grandes, daqueles vendidos na beira da estrada.

Tia Débora era muito elegante, usava sapatos de salto e vestidos de poá. E corrigia a gente, o tempo todo: “Menina não assobia!”; “Sobremesa não se repete!”; “Tira o pé sujo do sofá, menino!”.

O bagageiro da rural vinha lotado de coisas, além das malas. Os meninos no chão da sala, observavam o abraço não muito apertado das irmãs Marieta e Débora. Estavam ansiosos, esperando Cabral descarregar a rural com Ana Maria e dar início à cerimônia de abertura das embalagens.

Numa caixa, roupas usadas, na outra, material escolar e na outra, bombons de cereja.

Os bombons não eram gostosos como os doces de figo da minha avó, mas a caixa era bonita, eu pedia para guardar.

Cabral fumava seu cigarro na varanda, enquanto minha mãe conversava com Ana Maria na cozinha. Ela sempre reclamando da mãe. “Tia Débora é assim mesmo, Ana Maria, você tem que ter paciência”, minha mãe tentava encurtar a conversa, ansiosa para ir para sala, ver a cara dos filhos recebendo os presentes de natal. 

Eu nem sempre gostava das roupas, mas tinha que usar. As canetinhas até que eram boas, melhores que as nossas. Os meninos faziam festa com as caixas já vazias e os papéis de presente amassados, que viravam bola de basquete.

O dia seguinte era sempre melhor. Cabral pedia uma flanela para lustrar a rural. Eu, ficava por perto, rodeando o carro. Quem sabe iria na primeira viagem? A gente não ia muito longe. Eram passeios próximos, porque Cabral tinha que ir e voltar para buscar o resto da família. Eu fazia hora para descer da rural. “Tio, deixa eu voltar com você, pra buscar mais gente?” Ele abria um sorriso largo: “Fica aí menina. Pode ficar!”.

Os bancos da rural eram altos, cheiro de couro novo. O balanço do carro nas ruas esburacadas não doía meus ossos, era uma aventura! Eu tentava segurar no banco da frente e não tirava os olhos da janela. Tudo era pequeno, lá fora.

Na volta do passeio, o almoço era servido. Não cabia todo mundo na mesa e eu achava isso bom. Comíamos com o prato na mão. Eu, meus irmãos e meus primos.

O doce de figo, tão esperado, era servido de sobremesa.

Cabral pedia o queijo para acompanhar. “Queijo de Minas é mais gostoso.”, dizia ele, com o seu sotaque carioca, limpando o bigode brilhante de calda doce.

Dois figos em cada cumbuca e uma calda grossa por cima. Eu comia devagar, saboreando cada pedaço do tempo. Tele, na porta da sala, me esperando pra lamber a colher. Tia Débora não podia ver a cena. Ia brigar comigo dizendo: "Isso não se faz"!

De tardinha, outro passeio. Só as crianças e o Cabral, na rural branca. Primeiro, três voltas na pracinha, que era pra gente sentir a emoção da curva dentro de um carro grande. Depois, a Lagoa da Pampulha que era longe, muito longe, naquela época. 

Na volta, eu dormia no colo de um dos irmãos, embalada pelos sacolejos da rural branca nas ruas da cidade. Era Cabral quem me carregava no colo, ao chegar em casa.

Na sala, Tia Débora Ana Maria contavam as histórias do Rio de Janeiro, enquanto minha avó descascava o alho para o jantar e minha mãe terminava uma toalha de crochê. 

Deitada no sofá, eu despertava devagarinho e corria atrás da Tele. Queria contar para ela como era lindo o pôr do sol na lagoa.


Comentários

  1. Denise, que conto lindo. Seu conto me transportou para uma época que guardo na memória: quando não sabia ainda contar o tempo e perguntava quanto tempo ainda faltava para meu aniversário. Gostei demais do uso que você fez das 3 exigências e como elas são RELEVANTES no conto, verdadeiros personagens coadjuvantes, especialmente Tele e a Rural. A gente sempre fica curioso, nos contos cujo tema central é a memória, do quanto é recolhido da realidade e do quanto é imaginação. De um jeito ou de outro, você faz um belo trabalho de ficção jogando uma luz generosa sobre a cachorra, a Rural e o doce de figos, que são o alicerce de uma bela história, e muito bem escrita. De verdade. Parabéns pela sua prosa.

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    1. Muito obrigada, Flávio. Muito desse conto foi minha infância, inclusive a Tele e a rural!

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