Sofá
Fazia tempo que não se sentia feliz. O cheiro perdeu o gosto que perdeu a cor. Se nada mais tinha tom, a tristeza que sentia também não. Era desbotada, pesada, desconfortável como um sofá grande e velho em um cômodo pequeno. Também não sabia como havia ido parar ali: a tristeza-sofá não passava pela porta nem pela janela. Talvez tivesse entrado desmontada, em pedaços, um pouco por vez.
Uma pessoa está assistindo televisão quando de repente a vida passa, é assim. No cômodo pequeno não havia mais espaço para inquietações apaixonadas. Sentia que pouco sentia. Ela, o inconveniente sofá e a programação diária da tv compartilhavam a mesma resignação, fato que anos antes soaria impensável. Acontece que o sofá era grande de mais, ocupava todo cômodo, e não passava pela porta. Moveu-se lentamente, trocando de sentada a deitada. Esticou o braço para pegar o controle e ligou a televisão.
Que legal, Ana! Teu texto me deu uma sensação de algo se dissolvendo, deu pra sentir a tristeza..
ResponderExcluirObrigada, Natasha! Gostei de pensar em algo dissolvendo :) - Ana
ExcluirAna, que tristeza. Você optou pro uma metáfora direta, usando o "como". Mas seu conto está prontinho para transformar a metáfora direta para uma absoluta: eliminando, ou transformando os trechos "como um sofá grande e velho em um cômodo pequeno" e "a tristeza-sofá". Acho que está bom assim, veja bem, mas só no caso de você querer deixar a metáfora mais sutil. Gosto do seu final, sua última frase, como uma melancólica rendição à tristeza. Bem triste. Mas é isso.
ResponderExcluirObrigada pelas dicas, Flavio! Vou tentar o exercício de transformar esses trechos. Mas quero manter a ideia de que o sofá ocupa um espaço desproporcional ao cômodo. Que bom que gostou do final, tentei "cortar o rabo", como tu comentou em aula :)
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