Exercício 4 (Denise Morais)

 A cama de gavetas


Os móveis foram cobertos, no dia anterior, com a lona preta, para evitar os respingos de tinta. Muitos deles arredados dentro dos próprios cômodos. 

Tudo fora do lugar. De menos, a cama de casal. Era feita de madeira maciça. Quase impossível mover aquele peso.

Salete terminava seu café improvisado, no meio da bagunça, quando o interfone tocou. Os pintores chegaram mais cedo, naquele dia. Trocou de roupa rapidamente, esticou os lençóis de qualquer jeito e foi abrir a porta.

  • Bom dia, Antônio! Vocês podem começar pela sala? Ainda não vieram buscar a cama. 

  • Claro, Dona Salete! - respondeu um deles.

Um pó fino se espalhou  pelo apartamento, enquanto Antônio lixava as paredes, mas Salete preferiu ficar. Colocou uma máscara de pano no rosto, cobrindo a boca e o nariz, e fechou a porta do quarto. 

Quando decidiu vender o imóvel, começou a se desfazer de muitas coisas. Um mês antes de começar a pintura, fez uma faxina nos armários. Doou roupas, sapatos, utensílios de cozinha e objetos de decoração. Só não havia mexido, ainda, no quarto de casal.

Dizia que não ter tempo.

A cama tinha quatro gavetas grandes, onde Salete guardou por vinte anos, dentre outras coisas, o álbum de fotografias do casamento.

Sentou-se no chão, buscou a playlist de músicas antigas no seu celular e abriu a primeira gaveta.


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O apartamento ainda tinha eco, quando Salete recebeu o telefonema de seu noivo, Renato, em seu trabalho.

  • Acabei de chegar aqui. Vieram montar a cama. Você vem?

  • Estou terminando um relatório e já vou, Renato.

Salete nunca desejou tanto encontrar um táxi, como naquela tarde. Um trânsito mais intenso que o normal, porque a chuva acabara de cair. 

O prédio onde comprou o apartamento não era tão longe do seu trabalho.

- Renato poderia ter me buscado, Salete pensava, olhando pela janela do carro. Eram muitas providências antes do casamento e ela cada dia mais cansada. Renato não demonstrava muito interesse pelas coisas da cerimônia e Salete insistia em controlar cada detalhe. Mas, a novidade da cama lhe deixou animada. Era a primeira mobília do apartamento.

Demorou a encontrar um marceneiro que fizesse exatamente o modelo que viu na internet. Queria uma cama que durasse a vida toda. Renato não opinou.

No colchão, ainda sem lençol, uma garrafa de champagne e duas taças. O cheiro de madeira nova misturou-se ao perfume dele e, por instantes, Salete sentiu-se a mulher mais feliz do mundo.

Antes de irem embora, cobriu o colchão com o plástico, enquanto Renato se vestia.

    - Pra quê o plástico? Ele perguntou.

    - Quero que tudo esteja novo, quando a gente se mudar pra cá de vez, respondeu Salete, observando a luz da lua que inundava o corredor.


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O álbum de fotografias estava intacto. Envolvido num papel grosso, ficou protegido de traças e poeira. Salete separava numa caixa de madeira, o que ainda manteria  guardado com ela. Ficou na dúvida. Colocou o álbum no chão. 

Retirou da segunda gaveta, alguns documentos importantes e os guardou. Não quis jogar fora a lembrança de batizado dos filhos, nem o diploma da escola Criança Feliz, assinado por eles, na formatura do Maternal III. Cada um com sua letrinha redonda, Matheus e Sara. Acima da assinatura, a logomarca da escola que ainda era a mesma.

O verniz da cama já não tinha aquele brilho, mas o fundo das gavetas conservava o papel contact.


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Era véspera de natal e Salete havia se arrependido de ter ido ao shopping naquele dia. Quando cismava com alguma coisa, não havia quem a convencesse do contrário.

No início do casamento, Renato chegou a tentar:

  • Salete, pra quê comprar o papel contact, hoje? Ainda nem desembrulhamos os presentes de casamento.

  • Pode deixar! Eu vou sozinha, respondeu Salete, pegando as chaves do carro.

Uma hora de fila na loja de departamentos e ela feliz com a compra. Aproveitou e levou roupas de cama novas.

Renato tomava cerveja, assistindo o jogo, enquanto Salete forrava as gavetas como quem faz um desenho calculado milimetricamente.

No aparelho de som do quarto, um CD do Geraldo Azevedo tocava "Dia Branco".

Terminou o trabalho, forrou a cama com o edredon novo, tomou um banho caprichado e exausta, foi para a sala, deitar-se ao lado de Renato. Adormeceu com a voz dos comentaristas, depois do jogo.


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A máscara de pano parecia não ser suficiente para conter o cheiro da tinta, que começava a entrar pela fresta da porta do quarto. Salete ligou o ventilador e abriu a janela até o final.

Aproveitou para desocupar as gavetas do outro lado. Sapatos de salto que já não usava mais. Alguns pares novos que nem chegou a usar ainda estavam ali, intactos.

Dentro de um saco de veludo, encontrou uma sandália vermelha que ganhou do marido, um dia antes da festa de aniversário de um ano do Matheus. 


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Renato não tinha costume de dar presentes e raramente acertava a cor, o tamanho, o gosto.

Salete acostumou-se e, além disso, naquele dia, estava muito ocupada preparando a festa do filho, quando Renato lhe entregou o embrulho, ao chegar em casa.

  • Será que me serve, Renato?

  • Você sabe que não sei comprar presentes, respondeu ele.

No dia do aniversário, Salete tentou usar as sandálias e desistiu. Era um número menor que seus pés. Não teve coragem de trocar. Achou bonita a embalagem de veludo. Guardou no fundo da gaveta da cama. Além de pequenas, aquele salto fino era inadequado, para uma mãe que vivia correndo atrás do filho, que começava a trocar os primeiros passos.


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A caixa, onde Salete colocou as coisas que guardaria com ela, ainda tinha muito espaço. Abriu a última gaveta da cama. Entre os lençóis de cetim, havia esquecido algumas lingeries. Usara poucas vezes. Comprava com antecedência, esperando algum convite, algum jantar especial, alguma comemoração de aniversário de casamento.

E ficava tudo ali, guardado, esquecido.

Antônio bateu na porta do quarto:

  • Dona Salete, os carregadores vieram buscar a cama.

  • Já vou, Antônio! Só um minuto. Salete respondeu, abaixando o som da música no celular.

Fechou as gavetas, tirou os lençóis da cama, tampou a caixa com os guardados. Viu o álbum de fotos no chão. Jogou-o em cima da cama e abriu a porta do quarto.

  •  A cama está pronta para desmontar. O que tiver sobre ela é lixo! Pode jogar fora! 

Salete tirou a máscara e saiu para tomar um ar!


Comentários

  1. Denise, você tem uma calma na sua narrativa que prende a gente do início ao fim. muita atenção aos detalhes, às descrições concisas. É incrível como sabemos exatamente como é essa cama. Outra coisa que gosto no conto é a história não contada, que se revela bem forte com a ação final da protagonista. o que será que aconteceu nesse casamento? Uma morte, uma separação, o quê. Não sabemos com certeza, mas isso se torna menos importante diante do percurso que fazemos com Salete. Muito bom, mesmo. Não pare de escrever!

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    1. Valeu, Flávio. Não posso parar! E nem quero! Muito obrigada pelo retorno. É um grande incentivo pra mim!

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