Exercício 4 - Cynthia Dornelles

 

CAMA DE GATO

Cynthia Dorneles

 

Custou uma fortuna e meia. Como aliás custam quase todas as coisas. Não seria a escolha dela, a mãe. Mas era escolha do filho. Primeira cama de casal. O otimismo da mãe que comprava pencas de camisinha e uma cama de casal para o filho que até aquele momento vivia para os games. A cama era feia, mas era prática. Fácil de levantar, podia guardar lençóis, cobertores, toalhas, realmente podia guardar uma penca de coisas. Mas bonita não era não. Só que foi a cama que ele gostou. Se ele gostou, fazer o quê, comprar.

Na verdade, o que havia de mais maravilhoso na cama era o colchão. O colchão era tão delicioso que havia o sério risco do moleque passar o resto da vida dormindo e saindo só para comer, ir ao banheiro, jogar mais um pouco e voltar a dormir de novo. Mas isso era impossível de prever e no olhar da mãe esta via seu filho pegando a estrada, conquistando o mundo, ganhando chão.

A mãe queria seu filho livre para fazer do seu quarto a sua casa, de verdade. Não ter que ir para motéis, pensar o sexo como algo escondido e errado- como tinha sido com ela, que teve de fugir de casa quando foi pega fazendo sexo. Então cama de casal havia de ser para o quarto dele.

Sim. Muitas namoradas. Muitos amigos. Tudo além da medida. E como tinha de ser, no futuro imprevisto, um gato que o filho trouxe para casa contrariando a mãe. Um gato que destruiu toda a lateral da cama. Agora ainda mais feia. Mas cada dia mais útil.

A mãe morreria de saudades daquela cama.

 

- E o gato? Vai levar o gato?

- Não sabemos. Vai depender do que o obstetra e o pediatra vão dizer.

- Tem um monte de gente que tem filhos e tem gatos. Não vai levar o gato?

- Mãe, a Tati tem alergia, já teve bronquite asmática.

- Eu também tenho. Amo o gato, mas eu também sou alérgica.

- Vai depender do que vão aconselhar o obstetra e o pediatra.

 

A mãe continuaria espirrando. O filho não levaria o gato. O gato, ao contrário da cama, já fora motivo de polêmicas ferozes. O filho deu faxina na casa para que o pai e a mãe topassem o gato na casa. Depois não deu mais faxina nenhuma, o gato virou xodó da mãe que preferiria um cachorro. O pai preferia o futebol e a rede. O gato não interferia nem no futebol nem na rede. Mesmo assim, por pura implicância, o pai ameaçava levar o gato pro Aterro. Claro que não levava. Bem pelo contrário, era quem dava a primeira ração da madrugada.

Comentários

  1. Você percebeu que o conto começou com a cama e terminou com o gato? Eu daria uma arredondadinha, quem sabe colocando o gato para arranhar outros móveis, outra cama. Ou nunca mais arranhando nada, depois da cama feia ter ido embora. Isso mais para o fim, dando um final mais redondo. Fazer uma ficçãozinha, entende? Gosto muito do diálogo: a repetição da fala do filho é ótima, diz muito. Boa, a concisão. Isso aí!

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