CAMA DE GATO
Cynthia Dorneles
Custou uma fortuna e meia. Como
aliás custam quase todas as coisas. Não seria a escolha dela, a mãe. Mas era
escolha do filho. Primeira cama de casal. O otimismo da mãe que comprava pencas
de camisinha e uma cama de casal para o filho que até aquele momento vivia para
os games. A cama era feia, mas era prática. Fácil de levantar, podia guardar
lençóis, cobertores, toalhas, realmente podia guardar uma penca de coisas. Mas
bonita não era não. Só que foi a cama que ele gostou. Se ele gostou, fazer o
quê, comprar.
Na verdade, o que havia de mais
maravilhoso na cama era o colchão. O colchão era tão delicioso que havia o
sério risco do moleque passar o resto da vida dormindo e saindo só para comer,
ir ao banheiro, jogar mais um pouco e voltar a dormir de novo. Mas isso era
impossível de prever e no olhar da mãe esta via seu filho pegando a estrada,
conquistando o mundo, ganhando chão.
A mãe queria seu filho livre para
fazer do seu quarto a sua casa, de verdade. Não ter que ir para motéis, pensar
o sexo como algo escondido e errado- como tinha sido com ela, que teve de fugir
de casa quando foi pega fazendo sexo. Então cama de casal havia de ser para o
quarto dele.
Sim. Muitas namoradas. Muitos
amigos. Tudo além da medida. E como tinha de ser, no futuro imprevisto, um gato
que o filho trouxe para casa contrariando a mãe. Um gato que destruiu toda a
lateral da cama. Agora ainda mais feia. Mas cada dia mais útil.
A mãe morreria de saudades
daquela cama.
- E o gato? Vai levar o gato?
- Não sabemos. Vai depender do que o obstetra e o pediatra
vão dizer.
- Tem um monte de gente que tem filhos e tem gatos. Não vai
levar o gato?
- Mãe, a Tati tem alergia, já teve bronquite asmática.
- Eu também tenho. Amo o gato, mas eu também sou alérgica.
- Vai depender do que vão aconselhar o obstetra e o
pediatra.
A mãe continuaria espirrando. O
filho não levaria o gato. O gato, ao contrário da cama, já fora motivo de
polêmicas ferozes. O filho deu faxina na casa para que o pai e a mãe topassem o
gato na casa. Depois não deu mais faxina nenhuma, o gato virou xodó da mãe que
preferiria um cachorro. O pai preferia o futebol e a rede. O gato não
interferia nem no futebol nem na rede. Mesmo assim, por pura implicância, o pai
ameaçava levar o gato pro Aterro. Claro que não levava. Bem pelo contrário, era
quem dava a primeira ração da madrugada.
Você percebeu que o conto começou com a cama e terminou com o gato? Eu daria uma arredondadinha, quem sabe colocando o gato para arranhar outros móveis, outra cama. Ou nunca mais arranhando nada, depois da cama feia ter ido embora. Isso mais para o fim, dando um final mais redondo. Fazer uma ficçãozinha, entende? Gosto muito do diálogo: a repetição da fala do filho é ótima, diz muito. Boa, a concisão. Isso aí!
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