A máquina de costura
Laura nunca esqueceu o barulho da máquina da avó. Os finais de semana aconteciam no meio das costuras de Dona Alzira, enquanto seus pais viajavam para algum congresso. Onofre se especializou em cirurgias do coração, no mesmo ano em que conheceu Marta, na faculdade de Medicina.
Desde então, durante as refeições, não se ouvia outro assunto que não fosse a agenda do casal: consultório, cirurgia, viagens…
Dona Alzira, sentada entre os dois netos, escutava a conversa, sem dizer uma palavra.
Preferia observar o movimento das crianças e ficar pronta para se manifestar na hora da bronca dos pais. Os meninos já sabiam para onde olhar, se a conversa tomasse outro rumo.
A medicina sempre foi um sonho para Marta e Onofre, talvez mais do que tornarem-se mãe e pai.
Dava para perceber a alegria de ambos, quando chegavam de volta do trabalho e ainda conversavam, como se estivessem no hospital.
O que não acontecia na hora de falar das notas da escola, da natação, da roupa da formatura, dos colegas que vinham brincar. Desses assuntos quem cuidava era Dona Alzira.
Laura foi crescendo e fez do quarto da avó um refúgio. Era ali que podia sonhar.
Panos, tesouras, linhas, fitas e o pedal da máquina embalavam seus planos.
De tanto olhar a avó, ela já começava a arriscar alguns desenhos que pareciam uma modelagem de roupa.
- Vó, eu não quero cortar gente. Eu gosto é de cortar panos.
Quanto mais perto chegava a hora da faculdade, mais Onofre falava sobre a área da Medicina que Laura deveria escolher. Era o que ele mais esperava ouvir da filha!
Dona Alzira ficou preocupada. Laura não levava muito jeito.
Talvez Caio pudesse se interessar. Até fisicamente, parecia muito com o pai.
O silêncio tomava conta de Marta, ao encontrar Laura conversando com a avó. Ninguém falava sobre isso, mas a expectativa era de que a filha estivesse estudando no seu quarto. Não dava para acreditar no número de candidatos, por vaga, no vestibular daquele ano.
Alguns dias se passaram até os resultados da prova e Laura parecia estar mais tranquila.
A máquina de costura ficou sem uso por um tempo. Dona Alzira não queria sentir que atrapalhava.
Retirava a mesa do café, quando Onofre surgiu na sala.
- Laura, eu conferi a lista de candidatos até o final, não encontrei seu nome.
- Pai, você olhou a lista de Psicologia?
Seu nome estava lá, acima de todos os outros! Marta e Onofre trocaram olhares entre a decepção e a surpresa.
Dona Alzira não conseguiu esconder sua satisfação. Bateu palmas e abraçou a neta!
No início, a contrariedade pairava no ar. Com o passar do tempo, as aulas de anatomia viraram assunto da família. Caio perguntava os detalhes, já ensaiando seguir os passos dos pais.
Cinco anos de curso e Laura recebia o diploma, sendo homenageada por toda a dedicação e comprometimento! Num abraço de Marta e Onofre, ao final da cerimônia, Laura sentiu a emoção por tantos diálogos que ficaram por acontecer.
Dona Alzira levou um caderno de anotações para presentear a neta. Na capa, um desenho feito à mão. Uma máquina de costura, alguns objetos ao lado e um corpo de boneca que servia de manequim.
…
Laura agora morava sozinha. Havia alugado um apartamento em outro bairro.
Marta e Onofre ainda exerciam a profissão, mas já não viajavam como antes. Caio começava o estágio no hospital e enchia as noites dos pais, tirando as dúvidas sobre os casos de cirurgia que já acompanhava.
Laura visitava os pais, aos domingos.
Os encontros não demoravam mais que o tempo da refeição. Sentados à mesa, recordavam as viagens de trabalho, perguntavam uma ou outra coisa sobre a vida da filha e lembravam com saudade das guloseimas de Dona Alzira.
O consultório de Laura ficava de frente para a Avenida Paulista. Um tapete ocupava quase toda a sala. Ela mandou cortar uma quina para dar destaque a um espaço reservado de costura.
Era ali, nos intervalos dos atendimentos, que ela se lembrava de Dona Alzira, modelando alguns tecidos, medindo peças e brincando de costurar. A máquina ainda fazia o barulho que embalou os seus sonhos. Do outro lado da sala, um porta-retratos com o sorriso de sua avó.
Denise, que bom que você escolheu essa foto. Ela não me disse nada... É ótimo ver que você conseguiu tirar uma história dessas dali! Gostei.
ResponderExcluirPois é, Adriana. Nem eu sei explicar como escolhi esta. Escrevemos o que está dentro, né?
ExcluirObrigada!
Denise, muito bacana a história que você extraiu da foto. Linda solução, do cantinho de costura no consultório. No começo, fiquei um pouco perdido na hora de decidir sob que olhar eu acompanhava a narrativa. Se o de Laura, se dos pais, se de Alzira. Depois o foco se estabilizou em Laura. Dê uma olhada nisso: quando escolhemos um ponto de vista, o ideal (ideal, não obrigatório) é que nos atemos a ele, para que o leitor se identifique e siga a história no fluxo que o narrador oferece. Um exemplo: quando você diz "Onofre se especializou" poderia ter dito "Onofre, o pai, se especializou...". São pequenos detalhes que nos colocam mais na pele da personagem. Isso aí, ótimo conto!
ResponderExcluirAh sim, ficarei atenta. Muito obrigada pelo retorno, Flávio.
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