A DA HORA
Cynthia
Dorneles
Haviam morrido só naquela
manifestação de ontem cinco pessoas, mas o que importava era a pose para o
selfie. O caos imperava. Nada se vendia, nada se comprava, nada se decidia.
Pessoas que até pouco tempo atrás eram amigas, agora nem se cumprimentavam. E
todas tinham razão, ou achavam que tinham. Ninguém tinha dúvidas. Só certezas.
Além da pose para o selfie, lutavam até o fim. Que fim? Um fim que se apostava
ser o que devia. Morte aos políticos. Morte à política. Heroicamente se vivia,
heroicamente se morria. Mas os advérbios facilmente poderiam ser substituídos.
O tempo diria que espécie de homens eram aqueles meninos. O tempo diria que
espécie de morte era aquela que em vida não se comprometia.
Como o que nunca faltava eram pessoas, se muitas morressem, nada mudava. Salvo para as famílias destas pessoas. Não havia razão para a guerra, diriam alguns. Havia razões de sobra para a guerra, diriam outros. O silêncio e a balbúrdia se confundiam no terreno das paixões. Podemos dizer que era tudo paixão. Exceto os mortos. Que enfim não faziam pose.
Cynthia, um belo texto. Gosto da forma como você começa, com os mortos, e termina, novamente com os mortos: essa circularidade é muito bem-vinda, embora não seja uma regra. Mas há um acabamento. Senti falta da contextualização: perceba como o conto não funciona tão bem sem a foto. É como uma reflexão sobre a foto, mas não se sustenta sozinho. Concorda comigo? Aproveite esse bom embrião e elabore esse enredo, se tiver vontade. Isso aí.
ResponderExcluirHaviam morrido só naquela manifestação de ontem cinco pessoas, mas o que importava era a pose para o selfie. O caos imperava. Nada se vendia, nada se comprava, nada se decidia. Pessoas que até pouco tempo atrás eram amigas, agora nem se cumprimentavam. E todas tinham razão, ou achavam que tinham. Ninguém tinha dúvidas. Só certezas. Além da pose para o selfie, lutavam até o fim. Que fim? Um fim que se apostava ser o que devia. Morte aos políticos. Morte à política. Heroicamente se vivia, heroicamente se morria. Mas os advérbios facilmente poderiam ser substituídos. O tempo diria que espécie de homens eram aqueles meninos. O tempo diria que espécie de morte era aquela que em vida não se comprometia.
ResponderExcluirComo o que nunca faltava eram pessoas, se muitas morressem, nada mudava. Salvo para as famílias destas pessoas. Não havia razão para a guerra, diriam alguns. Havia razões de sobra para a guerra, diriam outros. O silêncio e a balbúrdia se confundiam no terreno das paixões. Podemos dizer que era tudo paixão. Exceto os mortos. Que enfim não faziam pose.
No mundo inteiro, fabricavam-se certezas, eliminavam-se as dúvidas e as críticas. Antes criticar era apenas perceber as arestas, as falhas, os pontos cegos. Depois quem criticava era o inimigo. Como as lutas tinham se tornado praticamente individuais ou por grupos, não havia mais uma luta a ser travada por uma maioria. Não se identificavam inimigos comuns. Todos eram o inimigo. Ninguém era o inimigo. Como no cinema, não havia mais contexto, história pessoal de como um personagem chegava a um determinado ponto. Nada. Só o presente. No presente, as turmas estavam divididas e radicalizadas. Negava-se a importância da consciência de classe. Negava-se a importância da união de uma classe. Não havia direita. Não havia esquerda. Não havia mais um belo nascer do sol. O sol nascia. Não havia uma manhã sombria. Havia uma manhã. Era bom quem saía bem na foto. Era mau quem saía mau na foto. Novos mercados se abriam. Para alguns, poucos, pouquíssimos, a carnificina sorria.
sou eu, Cynthia, não sei como postar como Cynthia mesmo. Fiz aqui a contextualização, creio eu. Obrigada Flavio.
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