DESMEDIDA
Dizem que em Florianópolis só existem dois tipos de
trabalho: no turismo ou no funcionalismo público. Quando vim pra cá eu não
tinha nenhum dos dois. Estava terminando o mestrado e vinha com a cara e a
coragem tentar qualquer coisa fora da cidade onde há alguns anos atrás havia
ido estudar. A princípio eu não sabia o que exatamente iria fazer ou como iria
começar, só sabia aquilo que eu não queria fazer: voltar a dar aula. Tinha tido
uma experiência breve durante o mestrado em uma escola particular que não havia
sido nada motivadora. Antes da mudança vim passar uns dias para conhecer a
cidade e procurar onde morar e fiquei hospedada com um casal de amigos. Soube
por eles, então, que havia um processo seletivo aberto, e, um pouco a
contragosto, fui convencida a fazer a prova. Adiei passagem, prestei o concurso
às pressas, meus documentos vindo por uma empresa de ônibus, enviados pelo meu,
na época, companheiro que havia ficado em Campinas. Pra minha surpresa, passei.
Só que em segundo lugar. Havia somente uma vaga. Comemorei e me entristeci, não
sei bem em qual medida. Enfim a mudança aconteceu e, no dia em que saímos de
São Paulo, recebo um e-mail de uma futura colega perguntando se eu tinha
interesse na vaga, pois o primeiro colocado não havia assumido. Assim me tornei
funcionaria pública, cumprindo com a herança das minhas gerações anteriores e
após não assumir a vaga no primeiro concurso que, anos antes, prestei e passei.
Era o destino, praqueles que acreditam nele. Aos poucos fui fazendo as pazes
com a sala de aula e o que era assustador tornou-se motivo de encantamento. Decidi
continuar professora. Terminando meu contrato de substituta, surgiu um novo concurso,
dessa vez pra efetivo. Havia três vagas. Passei em segundo lugar. Um contrato
segue o outro e assim me livro de passar um mês, ou mais, desempregada. A
escola ficava a 45km da minha casa. Pego estrada todos os dias de moto, no
frio, na chuva, no sol, na ressaca, com cólica, tudo para alimentar aquelas
mentes ávidas por conhecimento de uma cidadezinha da grande Florianópolis. Minha
casa virou dormitório. Em uma manhã chuvosa e sonolenta bato a moto de frente
com um caminhão. Morri. Mas parece que continuei viva. Perdi meu companheiro, o
Grandão, meu cachorro. Doeu fundo, uma dor ardida a da perda. Talvez se tivesse
ficado mais em casa... Já a perda do companheiro humano não doeu tanto, foi
daquelas que acontecem aos poucos, só esperando pra ver quando a gente se liga
que o tempo daquilo já foi. Mas uma hora eu consigo uma transferência, vou pra
mais perto de casa, termino o estágio probatório, ganho pelo meu mestrado! Aí
vou poder fotografar, desenhar, ter tempo. Respirar. Nada como a tranquilidade
das férias e do décimo terceiro. E aí vieram os cabelos brancos. Luiz Otávios,
Thiagos e Gustavos e a vontade de entrar atirando em todo mundo, jogar mesa pra
cima e berrar. E a cerveja nos finais de semana já não é mais suficiente e
preenche também os dias de semana. E troca o ensino médio por fundamental II e
troca o II por I, tentando ter alguma esperança de encontrar a paz e (re)descobrir
a bondade do ser humano. Deve ter se perdido em algum lugar. Talvez pedir pra
São Longuinho. E bota longo nisso. Três anos e acaba o probatório! A transferência
veio um ano antes, escola pequena, poucas turmas, carga horária show, fundamental
I, do ladinho de casa. A paz. Mas aí veio o vírus e os 500km semanais de moto rumo
ao inferno são reduzidos aos passos possíveis dentro dos 70m². Trabalhar, dançar, trabalhar,
fazer yoga, trabalhar, falar com a família, trabalhar, beber, trabalhar, ler, trabalhar,
transar, trabalhar, estudar, trabalhar, surtar, trabalhar, me divertir, me
entediar, maldizer o trabalho, agradecer pelo trabalho. Tudo no mesmo lugar. Preferia
os 500km. Ninguém aguenta mais viver em frente à tela e os pais e mães querendo
abortar crianças já crescidas. Volto pra sala de aula sem vacina. Merendeira
preparando bolo sem máscara. Faxineira falta e é substituída pela merendeira,
que depois prepara o bolo sem máscara. Diretora que acha que vacina não
funciona e turmas que se modificam a cada semana. Mas o probatório acabou e
veio a gratificação pelo mestrado! Veio o tempo, a carga horária reduzida, a
estabilidade... e vieram os 500 mil mortos. E voltou a terapia. E veio a greve que
assim como veio foi embora rapidinho. E veio o medo de morrer. E veio o medo de
contaminar. De ficar sozinha. De surtar. E veio a decisão. A exoneração. A
segurança da casa e a insegurança do desemprego. E, finalmente, veio a vacina. Assim,
bem rapidinho, logo em seguida. Os professores primeiro. Só que eu não sou mais
professora. Professora desempregada pode? Depois da vacina não sabia o que iria
fazer e nem como começar qualquer outra coisa. Só sabia que não queria voltar
pra sala de aula. Afinal depois do probatório, da estabilidade, da gratificação
pelo mestrado, da escola pequenininha, do tempo e da exoneração, não fazia
sentido voltar. E aí bateu um medo. E também uma saudade - não sei bem em qual
medida. De qualquer forma, a vida não volta mesmo.
Natasha, um conto de um gole só. Deu a sensação de vida que passa rápido, que passou rápido, e agora é tomar fôlego para mais um tanto. Gostei que no final você volta a dizer o que disse no começo: não quero mais voltar para a sala de aula. Essa arredondada é boa, deixa o leitor com um lugar para segurar. Fiquei um pouco confuso com o vaivém dos concursos, na primeira parte. Acho que vale a pena dar uma revisada. Mas tá muito bom, isso aí!
ResponderExcluirFoi sim de um gole só. Acho que escrevi em apneia. E ficou grande, agora que vi! Mas pelo menos tô compensando os outros pequenininhos! Obrigada, Flavio, vou dar um tempinho e revisar com calma ;)
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