TUDO EM ORDEM
Abriu a porta da sala e logo a encarou. Lá estava ela, aguardando
pacientemente em cima da mesa: a chave de fenda amarela. Lembrou que precisava
apertar os parafusos do sofá, caso contrário teria que aturar o ranger das
pernas por mais alguns dias.
Ela já estava gasta, desbotada e com a ponta comida, mas
ainda assim nunca havia sido substituída. Estava consigo desde que morava com
sua mãe. Antes havia sido dela. Mas sua mãe nunca a havia usado de fato.
Era mais um desses objetos que temos em casa porque devemos
tê-los em casa, mas que nem sempre sabemos usá-los ou, muitas vezes, até mesmo
desconhecemos sua real utilidade. Claro que esse não era o caso da chave de
fenda amarela. Sua mãe só não a usava, pois não era muito afeita a montar,
desmontar e consertar coisas. Sempre teve inclinação para as coisas da cabeça e
pouca para as das mãos.
Quando era pequena, a caixa de ferramentas era como uma
caixa de brinquedos. Tomou-a para si e, todos os móveis da casa, em algum
momento, passaram cirurgicamente por suas mãos. Apertava parafusos soltos que
afrouxavam dobradiças e deixavam portas pendentes e montava os novos móveis que
chegaram durante os quinze anos em que viveram naquele apartamento. Mas o ápice
da satisfação foi quando aprendeu a usar a furadeira e pôde suspender um
sem-número de prateleiras – sem dúvida a mobília mais montada e estudada
durante os cerca de vinte anos de experiência com a chave de fenda amarela.
Quando saiu de casa para estudar não se afastaram. Passaram
juntas por um quitinete e quatro repúblicas. Curiosamente um dos poucos objetos
que não foram perdidos durante os nove anos de vida universitária e três
mudanças de Estado.
Casou. Separou. Foi morar sozinha. À chave de fenda amarela
se somaram as philips, brocas para madeira, concreto e metal, alicates e toda a
sorte de ferramentas para o conserto dos possíveis problemas e avarias que
móveis e imóveis venham sofrer.
Um dia, folheando o álbum de família, encontrou. Lá estava a
fotografia, o dia exato em que a chave de fenda amarela havia chegado na
família. À surpresa somou-se o espanto. Ligou para sua mãe e desabou: “A chave
de fenda amarela é verde”.
Gostei desse objeto, um elemento metonímico, que revela traços da personagem. É como se fosse parte dela, da vida dela, dos caminhos tomados. Sempre lá. Mas não era amarela, como não são amarelas muitas das coisas que julgamos conhecer bem, que nos acostumamos a ter e ver. Ótimo final, isso aí!
ResponderExcluirEu adorei!
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