Dever
de casa 5 – jogo da memória
Do
outro lado das montanhas, dos quintais, dos trilhos e ... (Miriam Waidenfeld Chaves)
A Mantiqueira era mágica. Seu
paredão verde, ao impedir que eu
enxergasse a paisagem que existia atrás da serra, me excitava. Mirava ansiosa
para suas montanhas, mas, infelizmente, meu olhar não conseguia ultrapassar aquelas alturas
incomensuráveis.
Rápida, do banco traseiro do
carro de meu pai, tentava uma última vez.
Voltava a cabeça para que antes da próxima curva, ainda pudesse
vislumbrar, de outro ângulo, o lugar que há poucos instantes não conseguira captar.
Tarefa inglória.
Inventava, então, lugares
imaginados. Uma casa perdida, um curral e um
cachorro latindo. Quem sabe, alguma alma
solitária fritando uma linguiça. Buscava até por alguma fumaça no céu. Depois,
concluía que por aqueles rincões só poderiam existir árvores, campos em declives e rios tortuosos.
Passei, assim, a caçar o outro
lado. Dos quintais. Das janelas. Dos trilhos e rios. Enfim, para minha alma
infantil, imaginar os lugares que eu não conseguia avistar, entrar ou
atravessar, se transformou na minha
brincadeira favorita.
Na casa de meu avô Alberto, por
exemplo, sonhava em escalar o muro alto do quintal para saber de onde vinham as
pereiras e os abacateiros, cujos galhos frondosos insistiam em acenar para mim.
Convidavam-me para uma estripulia. Mas, a minha miudeza, a falta de uma escada gigante e a vigilância de minha
avó me impediram. Assim, pisei naquele terreno apenas em minha imaginação. Era
carregado de árvores, sombrio e frio. Sem o sol do lado de cá, que
insistentemente batia sobre os dois pés de café e as inúmeras flores que
coloriam o jardim, regado toda santa manhã por minha tia.
Era lindo, mas fácil de ser
desbravado!
Quando minha avó não estava na
cozinha dando suas instruções para Helena, me levava até a estação de trem.
Moradora do Rio de Janeiro, nos
meus oito anos arregalava os olhos para ver
aquela máquina chegar
devagarzinho, apitando e soltando fumaça.
Maria da Fé, Itajubá Velho, Piranguinho,
povoados minúsculos que nunca conheci. Apenas na minha fantasia.
Quando o trem partia, de
soslaio eu olhava para além dos trilhos para admirar a Boa Vista. Eu morava no
Morro Chic. Sempre quis atravessar aqueles trilhos. Saber como vivia aquela
gente que habitava o outro lado da estação. Nos domingos, quando minha mãe e
tias perdiam a missa das 10:00 horas, na Matriz, atravessávamos aqueles trilhos
apressadas para ir à Igreja de São José do Operário. No caminho, olhava para as
casinhas, sem alpendre, janelas na calçada. Para minha tristeza, ainda
fechadas, naquele dia de descanso.
Idealizava, então, chãos
vermelhos, tetos com telhas aparentes, colchas de crochê e fogões a lenha. Na
missa, encontrava seus moradores. Inventava
suas vidas, enquanto o padre rezava
em latim.
Lá na casa de minha outra avó, a brincadeira era
diferente. Corria para o quintal. Primeiro, me dirigia para a pequena fonte com
uma Nossa Senhora em uma pequena gruta, rezava uma Ave Maria e zarpava para o
galinheiro. Depois, chegava ao quintal,
nos fundos. Corria por entre mangueiras, jabuticabeiras, pereiras e goiabeiras.
Enquanto descansava sob a parreira, sondava as árvores possíveis de serem
escaladas. Buscava pela árvore melhor posicionada para bisbilhotar o quintal do
vizinho: sombrio, cheio de árvores e folhas secas no chão. Quase abandonado.
Um dia pulei a cerca para
caminhar por aquele paraíso perdido. O latido do cachorro me fez retornar às
pressas. Só me restou subir na goiabeira, bem ali na fronteira, escolher o melhor galho para me aboletar e,
de lá, poder sonhar com aquela terra perdida.
Na roça, tinha a Mantiqueira me
engolindo com suas araucárias centenárias. Andar a cavalo ou a pé pelas picadas
tortuosas, frente a morros e estradinhas coalhadas de curvas, era uma festa.
Meus olhos se adiantavam e vislumbravam
a paisagem que estaria por vir logo ali depois da curva. Assim, continuava por
horas, perseguindo o desconhecido.
Quando chegava à beira do rio,
sua correnteza impedia a minha travessia para o outro lado. Perigosa, aquela terra de ninguém, na outra margem, era
coberta por copas de árvores gigantescas. Era sombria e impenetrável. Cheia de porcos do mato, cobras e anus
gigantes. Sempre mais mágica do que o lado de cá. Resignada, meus olhos voavam
para o outro lado e eu imaginava.
Cresci, mas não me emendei.
Continuo atrás de uma curva, uma janela aberta. Um rio, um trilho, uma montanha
para atravessar.
Rio de Janeiro, 19 de
maio de 2022
Que delícia de lembranças, Miriam. "Mangueiras, jabuticabeiras, pereiras e goiabeiras." Quero um quintal de avó assim... <3
ResponderExcluirEra mesmo lindos, obrigada!
ResponderExcluirMiriam, me identifiquei muito com sua personagem-narradora. Também perdia meu olhar do outro lado, gostava de ver as janelas abertas, saber o que tinha do outro lado do muro. Suas lembranças são particulares, e é isso que torna seu conto universal. E você já aparece, no conto, explorando os detalhes, que também ajudam a gerar esse mundo particular, e nos ajuda a acreditar nele. Gosto das casas sem alpendre, fechadas domingo de manhã. Se eu fosse lançar um desafio (sim, mais um), diria para você reescrever sem usar o substantivo imaginação ou o verbo imaginar. Será que fariam falta? Como dizer isso de outra forma? Isso aí!
ResponderExcluirobrigada pela sugestão...vou levar em consideração e mudar...muito obrigada
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