Conto 6 - A muralha da China (Antônio Carlos Viana) - 24/05

A muralha da China

 

Antônio Carlos Viana

 

Nossa mãe tinha avisado: “Façam de conta que Lelo ainda está vivo, conversem com dona Irene, fiquem como se ele fosse chegar e que vocês foram lá só pra brincar com ele”.

Eu e Vivi ficamos apreensivos, não sabíamos mentir, assim nos ensinaram na escola, assim meu pai tinha nos ensinado também. Chegamos lá e perguntamos por Lelo só por perguntar, porque a gente sabia que nunca mais que ele fosse voltar pra brincar com a gente.

Dona Irene disse que ele tinha viajado com o pai e que iam voltar pro almoço, por isso ela tinha feito rabada, o prato preferido dos dois. Mandou que fôssemos pro quarto de Lelo e podíamos brincar com o que quiséssemos.

Nosso sonho era montar a Muralha da China. Sentamos na cama de Lelo, sentimos o seu cheiro, aquele cheiro forte, ardido, o que ia sobrar dele mesmo, depois de tudo. Vivi pegou o quebra-cabeça e começou a montar. Eram muitas peças, que Lelo montava em poucos minutos. Era seu quebra-cabeça preferido. Ajudei minha irmã a ir montando a muralha, mas o pensamento não saía de Lelo e de seu Vicente. Vivi se saiu com uma besteira tão grande: “E se Lelo estivesse subindo agora aquela escadaria?”. “Que besteira, Vivi, Lelo está morto e alma não sobe muralha nenhuma”, eu disse baixinho, pra dona Irene não ouvir.

Tudo aconteceu num acidente de ônibus, que caiu numa ribanceira de um rio em Minas Gerais, Lelo e o pai morreram na hora. A notícia chegou primeiro lá em casa, pra gente ir preparando dona Irene, porque ela sofria do coração. Minha mãe e meu pai estavam tentando criar uma história comprida pra poder chegar lá e dizer a ela o que tinha acontecido, só não podia ser de supetão.

A manhã já tinha se passado e nada de meus pais chegarem com a notícia. A muralha era mesmo difícil de fazer. Melhor que a gente tivesse pegado o Taj Mahal. Sem Lelo, impossível encaixar tantos pedacinhos, todos muito parecidos.

Quando deu meio-dia, dona Irene veio nos oferecer almoço. Ela disse que Lelo e seu Vicente logo, logo, chegariam. Ficamos com pena, ela tão alegre, nos tratando tão bem, como sempre. Colocou mais dois pratos na mesa. A rabada cheirava como nunca, o cheiro do agrião entrava pelo nariz e descia pela garganta, enchendo minha boca de água.

Dissemos que não queríamos comer, já íamos pra casa, nossos pais estavam nos esperando. Nesse momento, meus pais bateram na porta, e meu coração afundou no peito a ponto de me fazer largar mais um pedacinho da muralha. Eu queria fugir dali antes de dona Irene começar a se desesperar, e nós também, não íamos aguentar o desespero dela sem cair no choro. Minha irmã já estava com cara de tristeza quando nossos pais entraram. Dona Irene recebeu os dois tão bem que a gente ficou pensando como eles iam atalhar aquela alegria com notícia tão triste.

Dona Irene se admirou daquela visita assim, disse que era um milagre receber pessoas tão importantes àquela hora. Nossos pais eram os líderes da comunidade. A rabada cheirava cada vez mais. Eles se sentaram no sofá meio rasgado pelos dois gatos que dona Irene criava: Jujuba e Pretinho. Eu e Vivi quisemos voltar pro quarto pra terminar a muralha, mas a curiosidade foi maior, e ficamos.

Dona Irene foi buscar mais dois pratos e colocou na mesa. Disse que seu Vicente e Lelo não demorariam a chegar, já estava até passando da hora, e que a rabada dava pra todo mundo. Meus pais agradeceram, e minha mãe disse que o nosso almoço também já estava pronto.

A cara de meu pai estava fechada, minha mãe fazia um esforço enorme pra se manter simpática. Por onde começariam? Falaram de novela, de balas perdidas, de bandidos e polícia. Eram esses os assuntos mais conversados ali. Fora disso, só a raiva que todos tinham do governo que não fazia nada por ninguém, só roubava e ainda ajudava a roubar.

Eu já estava agoniado porque dona Irene era daquelas que falam sem parar, sem dar brecha pros outros dizerem qualquer coisa. Ela disse que ia botar nossa comida, depois punha pro marido e pro filho, que já estavam chegando. O cheiro já tinha tomado conta de toda a casa.

Minha mãe perguntou por que a rabada de dona Irene cheirava tanto, e ela disse que era um segredo só dela. Meu pai falou que rabada só era bom com uma cachacinha de lado. Dona Irene disse que tinha cachacinha: “Vicente sempre tem um garrafão de vinho que ele enche de cachaça que traz das viagens a Minas”. Meu pai pediu uma dose. Vi que ele estava procurando um jeito de dar a notícia, alongando o caminho. Ele derramou um pouquinho pro santo e, vapt, engoliu de um trago só. Minha mãe disse que ele ia pegar a vigia de tardinha. “Veja lá se não vai me fazer o favor de perder o emprego”, ela falou. Meu pai elogiou a cachaça, da boa mesmo, seu Vicente tinha bom paladar. Quando falou no nome do morto pensei que ele fosse engatar o assunto, mas não. Pediu mais um copinho e engoliu na mesma rapidez, dessa vez sem a dose do santo.

Minha mãe resolveu ganhar tempo e disse que ia servir mesmo um pouco de rabada pra gente. Colocou a polenta, os ramos verdes de agrião por cima, um pedaço bom de rabada pra cada um e lambeu um respingo no dedo. Enquanto isso, meu pai bebia mais e mais cachaça, minha mãe advertindo pela décima vez que ele não lhe fosse perder o emprego. Ele já estava vermelho, ele ficava de uma vermelhidão assustadora quando bebia. De repente, ele falou: “Dona Irene, Vicente...”, mas parou por aí mesmo.

Eu e Vivi pensamos em comer mais porque aquela rabada ia terminar era no lixo quando dona Irene recebesse a notícia. E seu Vicente e Lelo não iam comer mesmo nunca mais. Minha mãe parece que entendeu isso e botou mais dois pedaços no nosso prato, e ainda assim ficou muita rabada. Dona Irene falou que a gente podia comer à vontade, ela tinha feito além da conta naquele dia.

Já eram quase duas horas e nada de meus pais darem a notícia. Até que minha mãe falou assim: “Dona Irene, a vida nos apronta cada uma...”, minha mãe sempre com seus pronomes em tudo que falava. Era professora de português o tempo todo. Dona Irene quis saber o que a vida tinha aprontado pra minha mãe. Ela disse: “Nada, não, falta de assunto”. Meu pai não parava mais de beber a cachaça de seu Vicente porque acho que ele também pensou como eu e Vivi, seu Vicente nunca mais que fosse beber nada.

De repente, dona Irene ficou pálida, foi se sentando, disse que tinha sentido uma coisa ruim por dentro, que a gente não era de fazer visita assim tão demorada, ainda mais ao meio-dia, que meu pai contasse logo, e começou a chorar desesperada, toda se tremendo. Meu pai então contou que seu Vicente e Lelo iam chegar, mas era dentro de um caixão. Pior jeito de dar uma notícia não tinha, mas foi assim que ele falou. Dona Irene emborcou no sofá, desfalecida, botando Jujuba e Pretinho pra correr. Minha irmã parou de roer um dos ossinhos que tinha sobrado em seu prato, e a Muralha da China ficou lá no quarto, pra sempre inacabada.

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