Conto 5 - Inverno em Abruzzo (Natalia Ginzburg) - 17/05

 

Inverno em Abruzzo

 

Natalia Ginzburg

 

Deus nobis haec otia fecit.

 

Em Abruzzo só existem duas estações: o verão e o inverno. A primavera é cheia de neve e vento como o inverno e o outono é quente e límpido como o verão. O verão começa em junho e termina em novembro. Os longos dias ensolarados sobre as colinas baixas e áridas, a poeira amarela da rua e a disenteria das crianças terminam e começa o inverno. As pessoas então param de viver nas ruas: os meninos descalços desaparecem das escadarias da igreja. Falo de um vilarejo em que quase todos os homens desapareciam depois da última colheita: iam trabalhar em Terni, em Sulmona, em Roma. Aquele era um vilarejo de pedreiros e algumas casas eram construídas com graça, tinham terraços e balaústres como pequenas mansões, e espantava encontrar ali, ao entrar, grandes cozinhas escuras com presuntos pendurados e amplos quartos esquálidos e vazios. Nas cozinhas o fogo era aceso e existiam vários tipos de fogo, havia o fogo grande com cepos de carvalho, o fogo de ramos e folhas, o fogo de galhos secos recolhidos um a um pelo caminho. Era fácil distinguir os pobres e os ricos olhando o fogo aceso, melhor do que se podia fazer olhando as casas e as pessoas, os vestidos e os sapatos, que para todos eram mais ou menos iguais.

Quando cheguei naquele vilarejo, a princípio todos os rostos me pareciam iguais, todas as mulheres se assemelhavam, ricas e pobres, jovens e velhas. Quase todas tinham a boca desdentada: lá as mulheres perdem os dentes aos trinta anos, por causa da fadiga e da má alimentação, dos maus tratos dos partos e dos aleitamentos que se sucedem sem trégua. Mas depois, pouco a pouco, comecei a distinguir Vincenzina de Secondina, Annunziata de Addolorata, e comecei a entrar em cada casa e a me aquecer em cada tipo de fogo.

Quando a primeira neve começava a cair, uma lenta tristeza apoderava-se de nós. Era um exílio, o nosso: a nossa cidade estava longe e longe estavam os livros, os amigos, os vários e mutáveis acontecimentos de uma verdadeira existência. Acendíamos o nosso aquecedor verde, com o longo cano que atravessava o teto: nos reuníamos todos no cômodo onde estava o aquecedor e ali se cozinhava e se comia, meu marido escrevia sobre a grande mesa oval, as crianças salpicavam o chão de brinquedos. No teto do cômodo havia uma pintura de Aquila, a constelação Águia: e eu a olhava e pensava que aquilo era o exílio. O exílio era Aquila, era o aquecedor verde que zunia, era o vasto e silencioso campo e a imóvel neve. Às cinco soavam os sinos da igreja de Santa Maria e as mulheres iam se benzer com seus lenços pretos e o rosto vermelho. Todas as tardes meu marido e eu fazíamos um passeio: todas as tardes caminhávamos de braços dados, afundando os pés na neve. As casas que ladeavam a rua eram de conhecidos e amigos: e todos saíam à porta e nos diziam “Passar bem”. Alguém às vezes perguntava: “Mas quando vocês voltam pra casa?” Meu marido dizia: “Quando acabar a guerra”. “E quando que vai acabar essa guerra? Você que sabe de tudo e é professor, quando será que vai acabar?” Ao meu marido chamavam de “professor”, não sabendo pronunciar seu nome, e vinham de longe para consultá-lo sobre as coisas mais variadas, sobre a melhor época para arrancar os dentes, sobre os auxílios que a prefeitura dava e sobre taxas e impostos.

No inverno algum velho ia-se com pneumonia, os sinos de Santa Maria badalavam pelo morto e Domenico Orecchia, o carpinteiro, fabricava o caixão. Uma mulher enlouqueceu e a levaram para o manicômio de Collemaggio, e o vilarejo falou um bocado disso. Era uma mulher jovem e limpa, a mais limpa de todo o vilarejo: disseram que isso tinha acontecido de tanta limpeza. O Gigetto di Calcedonio teve duas gêmeas, além dos dois meninos gêmeos que já tinha em casa, e fez um espalhafato na prefeitura porque não queriam lhe dar o auxílio, já que possuía alguns alqueires de terra e uma horta grande como sete cidades. A Rosa, a inspetora da escola, levou uma cusparada da vizinha no olho, e circulava com um curativo para que lhe pagassem a indenização. “O olho é delicado, o cuspe é salgado”, explicava. E também disso se falou um bocado, até que não houve nada mais a dizer.

A saudade crescia dentro de nós a cada dia. Algumas vezes era até agradável, como uma companhia terna e ligeiramente inebriante. Chegavam cartas da nossa cidade, com notícias de núpcias e de mortes das quais éramos excluídos. Às vezes, a saudade se fazia aguda e amarga e se transformava em ódio: então nós odiávamos o Domenico Orecchia, o Gigetto di Calcedonio, a Annunziatina, os sinos de Santa Maria. Mas era um ódio que mantínhamos velado, reconhecendo-o injusto: e a nossa casa estava sempre cheia de gente que vinha pedir favores e que vinha oferecê-los. Às vezes, a costureira vinha nos fazer um sagnoccole. Amarrava um trapo na cintura e batia os ovos e mandava Crocetta rodar pelo vilarejo procurando quem pudesse nos emprestar um caldeirão bem grande. Seu rosto vermelho ficava concentrado e seus olhos brilhavam com uma vontade imperiosa. Teria posto fogo na casa para que seu sagnoccole saísse bom. Seu vestido e seus cabelos tornavam-se brancos de farinha e, sobre a mesa oval onde meu marido escrevia, era cuidadosamente servido o sagnoccole.

Crocetta era a mulher que limpava nossa casa. Na verdade, não era bem uma mulher já que tinha quatorze anos. Foi a costureira quem a arranjou para nós. A costureira dividia o mundo em dois grupos: aqueles que se penteiam e aqueles que não se penteiam. Daqueles que não se penteiam é preciso se resguardar, porque naturalmente têm piolhos. Crocetta se penteava: e por isso veio trabalhar conosco, e contava às crianças longas histórias de mortos e de cemitérios. Era uma vez um menino que perdeu a mãe. Seu pai arrumou outra mulher e a madrasta não gostava do garoto. Por isso ela o matou enquanto o pai estava no campo e fez um cozido com ele. O pai volta para casa e come, mas, depois de ter acabado, os ossos que sobraram no prato se põem a cantar:

 

Minha madrasta cruel
Me cozeu num fogaréu
Meu caro pai que glutão
Me traçou cum enorme bocão.

 

Então o pai mata a mulher com uma foice, e a pendura num prego em frente à porta. Às vezes me surpreendo a murmurar a letra dessa canção, e então todo o vilarejo retorna diante de mim, junto com o sabor particular daquelas estações, junto com o sopro gelado do vento e com o badalo dos sinos.

Toda manhã eu saía com meus filhos e as pessoas se espantavam e desaprovavam que eu os expusesse ao frio e à neve. “Que pecado cometeram essas criaturas?” diziam. “Não é época de passear, Dona. Volta pra casa”. Caminhávamos longamente pelo campo branco e deserto e as poucas pessoas que eu encontrava olhavam as crianças com pena. “Que pecado cometeram?” me diziam. Lá, se uma criança nasce no inverno, não a levam para fora do quarto até a chegada do verão. Ao meio-dia meu marido me encontrava com a correspondência, e voltávamos todos juntos para casa.

Eu falava com as crianças sobre a nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixamos e não tinham dela nenhuma lembrança. Eu lhes dizia que lá as casas tinham muitos andares, havia tantas casas e tantas ruas, e tantas lojas boas. “Mas aqui também tem o Girò”, diziam as crianças.

A loja do Girò era bem em frente à nossa casa. Girò ficava parado na porta qual um mocho velho, e seus olhos redondos e indiferentes fixavam a rua. Vendia um pouco de tudo: gêneros alimentícios e velas, cartões-postais, sapatos e laranjas. Quando chegavam as mercadorias e Girò abria as caixas, os meninos corriam para comer as laranjas estragadas que ele jogava fora. No Natal chegava até torrone, licores e caramelos. Mas ele não cedia um centavo no preço. “Como você é mal, Girò”, lhe diziam as mulheres. Respondia: “Por bem fazer, mal haver”. No Natal os homens retornavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam alguns dias e partiam novamente, depois de terem matado os porcos. Por alguns dias não se comia senão torresmo, linguiça, e não se fazia nada além de beber: depois os gritos dos porquinhos novos tomavam conta da rua.

Em fevereiro o ar se tornava úmido e fraco. Nuvens cinza e carregadas vagavam pelo céu. Houve um ano em que durante o desgelo se romperam as calhas. Então começou a chover dentro de casa e os cômodos viraram verdadeiros pântanos. Mas foi assim por todo o vilarejo: não restou seca uma casa sequer. As mulheres esvaziavam os baldes pelas janelas e varriam a água pela porta. Havia quem fosse para cama com o guarda-chuva aberto. Domenico Orecchia dizia que era castigo por algum pecado. Isso durou mais de uma semana: depois finalmente qualquer traço de neve sumiu dos telhados e Aristide consertou as calhas.

O fim do inverno despertava em nós uma certa inquietação. Talvez alguém viesse nos visitar: talvez alguma coisa finalmente acontecesse. O nosso exílio também deveria ter um fim. As estradas que nos separavam do mundo pareciam mais curtas: o correio chegava com mais frequência. Todas as nossas frieiras saravam lentamente.

Há uma certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. A nossa existência se desenvolve segundo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência uniforme e antiga. Os sonhos jamais se tornam realidade e, mal os vemos despedaçados, compreendemos imediatamente que as maiores alegrias da nossa vida estão fora da realidade. Mal os vemos despedaçados, nos torturamos com saudade do tempo em que ferviam dentro de nós. A nossa sorte transcorre nessa alternância entre esperanças e saudade.

Meu marido morreu em Roma no presídio Regina Coeli, poucos meses depois de deixarmos o vilarejo. Diante do horror de sua morte solitária, diante das angustiantes alternativas que precederam sua morte, eu me pergunto se isso aconteceu conosco, nós que comprávamos laranjas do Girò e passeávamos na neve. Naquela época eu tinha fé num amanhã fácil e alegre, rico de desejos realizados, de experiências e de tarefas comuns. Mas aqueles eram os melhores dias da minha vida e só agora que me fugiram para sempre, só agora eu sei.

 

 

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