Conto 4 - As provisões do tempo - Ettore Bottini (ler para o dia 10/05)

 

As provisões do tempo

 

Ettore Bottini

 

A água com pó de café abriu fervura e subiu espumando; o Turco desligou o gás, esperou que a mistura decantasse e serviu-se uma caneca. Verteu o resto em um filtro encaixado na térmica e sentou-se junto ao velho fogão a lenha, agora convertido em aparador e mesa: um maciço bloco de alvenaria vermelha e chapa de ferro encalhado no centro da cozinha. Testemunho de sua aposentadoria, pequenos objetos lentamente aderiam a ele: potes, toalhinhas de croché, latas, porta-retratos c cinzeiros.

O relógio de parede marcava cinco e meia da manhã. Já clareava, embora o sol não estivesse à vista. Acabou de beber o café, lavou o pouco de louça que usara e fechou a garrafa térmica. Movia-se com cuidado para não despertar a esposa, que dormia no quarto ao lado. Os dois cômodos e o espaço da loja, abrindo para a rua sob o letreiro "A Favorita", formavam o núcleo original da casa. Esta aumentara como casca de caracol, na medida das necessidades, dos filhos e do conforto: dois banheiros, mais dois quartos, a sala de visitas e uma varanda a olhar para o que restara de quintal. Junto ao muro dos fundos, algumas roseiras onde antes ficava a latrina.

Saiu à rua por uma passagem lateral; para evitar a barulhenta porta da garagem, deixara a picape ao relento. Andou-lhe à volta enquanto chutava de leve os pneus, e acendeu um cigarro. Ainda era cedo para ir ao encontro do Walter.

Descera do ônibus naquela cidade, quarenta anos antes, meio por acaso, para tentar a sorte. A grande mala de mascate não estava completamente vazia, ao fim de seu roteiro de sempre, e aquilo o incomodava; fora isso, o ritual era o mesmo: hospedar-se na pensão, puxar conversa com a dona ou o dono e, por meio deles, fazer contato com as senhoras do local. Depois a reunião, sempre na casa de uma delas, a exibição inicial dos artigos, o preço, o inevitável regateio e as eventuais disputas por uma peça ou outra. No fim, fechadas as compras e anotadas as encomendas para uma futura e incerta volta, o cafezinho e dois dedos de prosa. A surpresa ficara por conta do marido da anfitriã, que o chamara à parte com uma proposta. A cidade, dissera ele, escolhendo as palavras, precisava de uma loja de insumos; não era agradável deslocar-se até as cidades vizinhas em busca de algumas latas de querosene para a geladeira, uma manga de lampião ou um produto veterinário qualquer. Além disso, o aumento do comércio seria bom para todos. Propunha-se a ceder um galpão e a adiantar o capital necessário para iniciar o negócio; seriam sócios até que o outro pudesse comprar sua parte. Antoine, o mascate, sabia que Walter, o dono da casa, era um jovem fazendeiro da região, não o maior ou o mais rico, mas aquele a quem os outros recorriam em busca de conselho. Falava com voz pausada e grave, com um ar circunspecto que o fazia parecer mais velho; ostentava um pequeno bigode que criava, paradoxalmente, o efeito oposto. O mascate, que mais tarde seria apenas o Turco, mexeu a colherinha na xícara por um momento. Percebia, atrás da aparente generosidade da oferta, a valorização da cidade e das propriedades do outro, mas também o entusiasmo dos olhos e a sinceridade da voz; além disso, estava cansado da vida errante, sempre longe da mulher e dos meninos. Estendeu a mão e, no dia seguinte, voltava para São Paulo com uma primeira lista de compras urgentes.

Planejar o futuro é exercício vão; Antoine viu A Favorita prosperar, vendendo desde peças para trator até doces em lata; viu a chegada da luz elétrica e do telefone; viu os dois filhos formados em engenharia e se viu, e à esposa, envelhecer. A relação comercial entre ele e o fazendeiro, ao contrário da regra, transformara-se em amizade quase fraterna. Mas a cidade não crescera como haviam esperado, permanecera à margem do dinheiro que circulava nas duas vizinhas maiores. O Turco não se importava. Acostumara-se à vida pacata e introduzia, aos poucos, alguma novidade na casa ou na loja; mandara buscar em São Paulo uma eletrola e todo sábado à noite, enquanto as mulheres tagarelavam na varanda, os dois amigos se instalavam em silêncio na frente do móvel de madeira clara e forro vermelho a ouvir música pontuada pelo baque dos discos a cair no prato. A eletrola fora depois trocada por aparelho mais moderno, os pesados discos de baquelite substituídos pelos de vinil, mas o costume de ouvir ópera aos sábados permanecera até a morte da esposa do Walter, havia três anos.

 

Deu a partida e engatou a primeira na picape às seis horas em ponto, dirigiu algumas quadras, virou à esquerda e estacionou junto à calçada, onde o amigo já o esperava, a figura alta e magra em frente ao portão do jardim. Destravou a porta do passageiro e acenou para o outro, que entrou com os movimentos tentativos de quem enxerga mal.

-  Acho que vai chover – disse o Walter.

O turco assentiu com um movimento de cabeça. Estava acostumado às poucas palavras do velho fazendeiro. Viera a descobrir, também, com o tempo, que sua antiga loquacidade de  comerciante era mais um dever de ofício  que um dom natural. Uma exceção ocorrera dias antes. Quando o amigo passara pela loja para combinar a viagem e mencionara um defeito no próprio carro para não confessar que a catarata já não lhe permitia dirigir. Precisava ir até o cartório de Ponta Porã para formalizar, finalmente, a transferência da fazenda para o novo proprietário. Dali a duas semanas estaria morando com a filha, médica, em Curitiba. Nada daquilo era novidade para Antoine: nem o falso defeito, nem a venda das terras, nem a profissão da filha, mas o nervosismo e  a excitação do outro o inquietaram, talvez porque entrevisse para si igual destino.

 

O solavanco da lombada marcava o fim da rua principal e o início da estrada, ainda com cheiro de asfalto novo. O sol subira um pouco e entrava pelo vidro traseiro; Antoine sentia o calor na nuca e via a sombra da caminhonete projetada à frente. Aumentou a velocidade. Precisavam ganhar tempo na parte asfaltada, pois os dois terços seguintes eram de terra esburacada pelas águas. A noroeste, de onde vinham as tempestades naquela época do ano, podia ver a massa compacta de nuvens no horizonte, a chuva que o Walter previra. De resto, o caminho era uma reta quase contínua, com uma ou outra curva suave, e ele deixou que o pensamento vagasse, desconexo, entre os filhos, a estrada, suas famílias, o velocímetro, a esposa, o odômetro, a loja, de novo a estrada. Passaram a ponte sobre o rio que dava nome à cidade. Uma hora depois, estavam pudicamente a urinar um de cada lado da rodovia, já na parte de terra. O Turco abotoou a braguilha e voltou devagar para a picape. Olhou de novo para noroeste; as nuvens não pareciam ter aumentado e se esgarçavam mais.

- Não acho que vá chover - falou, meio para si mesmo.

O outro deu de ombros, acendeu um cigarro e abriu o quebra-vento para proteger a brasa. Antoine, agora concentrado na direção, procurava manter uma velocidade média, rápida o suficiente para transformar as irregularidades da pista em um trepidar contínuo, mas não tanto que o fizesse perder o controle em um solavanco maior. O Walter fumava e olhava a paisagem. A criação de gado se deslocara para a fronteira oeste e para o norte; agora um verde mar de cana se estendia dos dois lados da estrada, num perder-se de vista interrompido apenas pelo metal brilhante da usina ao longe. Tinha lá sua beleza eficiente, mas ele sentia saudade das largas pastagens pontilhadas pelo branco dos bois e a negra sombra das pequenas árvores retorcidas pelo vento.

Estacionaram na frente do cartório pouco antes das dez da manhã. Ao empurrar a porta de vidro escuro e aço escovado, o Walter voltou-se como quem se lembra de algo:

- É, não choveu mesmo - disse, e entrou.

O Turco observou através do âmbar a imagem do amigo diluir-se na sombra do interior. Piscou os olhos como quem desperta e dirigiu-se a uma padaria na esquina próxima. Ali poderia esperar, com uma média e um pão com manteiga.

 

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