As
provisões do tempo
Ettore Bottini
A
água com pó de café abriu fervura e subiu espumando; o Turco desligou o gás,
esperou que a mistura decantasse e serviu-se uma caneca. Verteu o resto em um
filtro encaixado na térmica e sentou-se junto ao velho fogão a lenha, agora
convertido em aparador e mesa: um maciço bloco de alvenaria vermelha e chapa de
ferro encalhado no centro da cozinha. Testemunho de sua aposentadoria, pequenos
objetos lentamente aderiam a ele: potes, toalhinhas de croché, latas, porta-retratos
c cinzeiros.
O
relógio de parede marcava cinco e meia da manhã. Já clareava, embora o sol não estivesse
à vista. Acabou de beber o café, lavou o pouco de louça que usara e fechou a
garrafa térmica. Movia-se com cuidado para não despertar a esposa, que dormia
no quarto ao lado. Os dois cômodos e o espaço da loja, abrindo para a rua sob o
letreiro "A Favorita", formavam o núcleo original da casa. Esta
aumentara como casca de caracol, na medida das necessidades, dos filhos e do
conforto: dois banheiros, mais dois quartos, a sala de visitas e uma varanda a
olhar para o que restara de quintal. Junto ao muro dos fundos, algumas roseiras
onde antes ficava a latrina.
Saiu à rua por uma passagem lateral; para evitar a barulhenta porta da
garagem, deixara a picape ao relento. Andou-lhe à volta enquanto chutava de
leve os pneus, e acendeu um cigarro. Ainda era cedo para ir ao encontro do
Walter.
Descera do ônibus naquela cidade, quarenta anos antes, meio por acaso,
para tentar a sorte. A grande mala de mascate não estava completamente vazia,
ao fim de seu roteiro de sempre, e aquilo o incomodava; fora isso, o ritual era
o mesmo: hospedar-se na pensão, puxar conversa com a dona ou o dono e, por meio
deles, fazer contato com as senhoras do local. Depois a reunião, sempre na casa
de uma delas, a exibição inicial dos artigos, o preço, o inevitável regateio e
as eventuais disputas por uma peça ou outra. No fim, fechadas as compras e
anotadas as encomendas para uma futura e incerta volta, o cafezinho e dois
dedos de prosa. A surpresa ficara por conta do marido da anfitriã, que o
chamara à parte com uma proposta. A cidade, dissera ele, escolhendo as palavras,
precisava de uma loja de insumos; não era agradável deslocar-se até as cidades
vizinhas em busca de algumas latas de querosene para a geladeira, uma manga de
lampião ou um produto veterinário qualquer. Além disso, o aumento do comércio
seria bom para todos. Propunha-se a ceder um galpão e a adiantar o capital
necessário para iniciar o negócio; seriam sócios até que o outro pudesse
comprar sua parte. Antoine, o mascate, sabia que Walter, o dono da casa, era um
jovem fazendeiro da região, não o maior ou o mais rico, mas aquele a quem os
outros recorriam em busca de conselho. Falava com voz pausada e grave, com um
ar circunspecto que o fazia parecer mais velho; ostentava um pequeno bigode que
criava, paradoxalmente, o efeito oposto. O mascate, que mais tarde seria apenas
o Turco, mexeu a colherinha na xícara por um momento. Percebia, atrás da
aparente generosidade da oferta, a valorização da cidade e das propriedades do
outro, mas também o entusiasmo dos olhos e a sinceridade da voz; além disso,
estava cansado da vida errante, sempre longe da mulher e dos meninos. Estendeu
a mão e, no dia seguinte, voltava para São Paulo com uma primeira lista de
compras urgentes.
Planejar o futuro é exercício vão; Antoine viu A Favorita prosperar,
vendendo desde peças para trator até doces em lata; viu a chegada da luz
elétrica e do telefone; viu os dois filhos formados em engenharia e se viu, e à
esposa, envelhecer. A relação comercial entre ele e o fazendeiro, ao contrário
da regra, transformara-se em amizade quase fraterna. Mas a cidade não crescera
como haviam esperado, permanecera à margem do dinheiro que circulava nas duas
vizinhas maiores. O Turco não se importava. Acostumara-se à vida pacata e
introduzia, aos poucos, alguma novidade na casa ou na loja; mandara buscar em
São Paulo uma eletrola e todo sábado à noite, enquanto as mulheres tagarelavam
na varanda, os dois amigos se instalavam em silêncio na frente do móvel de
madeira clara e forro vermelho a ouvir música pontuada pelo baque dos discos a
cair no prato. A eletrola fora depois trocada por aparelho mais moderno, os
pesados discos de baquelite substituídos pelos de vinil, mas o costume de ouvir
ópera aos sábados permanecera até a morte da esposa do Walter, havia três anos.
Deu a partida e engatou a primeira na picape às seis horas em ponto, dirigiu
algumas quadras, virou à esquerda e estacionou junto à calçada, onde o amigo já
o esperava, a figura alta e magra em frente ao portão do jardim. Destravou a
porta do passageiro e acenou para o outro, que entrou com os movimentos
tentativos de quem enxerga mal.
- Acho que vai chover – disse o
Walter.
O turco assentiu com um movimento de cabeça. Estava acostumado às poucas
palavras do velho fazendeiro. Viera a descobrir, também, com o tempo, que sua
antiga loquacidade de comerciante era
mais um dever de ofício que um dom
natural. Uma exceção ocorrera dias antes. Quando o amigo passara pela loja para
combinar a viagem e mencionara um defeito no próprio carro para não confessar
que a catarata já não lhe permitia dirigir. Precisava ir até o cartório de
Ponta Porã para formalizar, finalmente, a transferência da fazenda para o novo
proprietário. Dali a duas semanas estaria morando com a filha, médica, em
Curitiba. Nada daquilo era novidade para Antoine: nem o falso defeito, nem a
venda das terras, nem a profissão da filha, mas o nervosismo e a excitação do outro o inquietaram, talvez
porque entrevisse para si igual destino.
O solavanco da lombada marcava o fim da rua principal e o início da
estrada, ainda com cheiro de asfalto novo. O sol subira um pouco e entrava pelo
vidro traseiro; Antoine sentia o calor na nuca e via a sombra da caminhonete
projetada à frente. Aumentou a velocidade. Precisavam ganhar tempo na parte
asfaltada, pois os dois terços seguintes eram de terra esburacada pelas águas. A noroeste, de onde vinham as tempestades
naquela época do ano, podia ver a massa compacta de nuvens no horizonte, a
chuva que o Walter previra. De resto, o caminho era uma reta quase contínua,
com uma ou outra curva suave, e ele deixou que o pensamento vagasse, desconexo,
entre os filhos, a estrada, suas famílias, o velocímetro, a esposa, o odômetro,
a loja, de novo a estrada. Passaram a ponte sobre o rio que dava nome à cidade.
Uma hora depois, estavam pudicamente a urinar um de cada lado da rodovia, já na
parte de terra. O Turco abotoou a braguilha e voltou devagar para a picape.
Olhou de novo para noroeste; as nuvens não pareciam ter aumentado e se
esgarçavam mais.
- Não acho que vá chover - falou, meio para si mesmo.
O outro deu de ombros, acendeu um cigarro e abriu o quebra-vento para
proteger a brasa. Antoine, agora concentrado na direção, procurava manter uma
velocidade média, rápida o suficiente para transformar as irregularidades da
pista em um trepidar contínuo, mas não tanto que o fizesse perder o controle em
um solavanco maior. O Walter fumava e olhava a paisagem. A criação de gado se
deslocara para a fronteira oeste e para o norte; agora um verde mar de cana se
estendia dos dois lados da estrada, num perder-se de vista interrompido apenas
pelo metal brilhante da usina ao longe. Tinha lá sua beleza eficiente, mas ele
sentia saudade das largas pastagens pontilhadas pelo branco dos bois e a negra
sombra das pequenas árvores retorcidas pelo vento.
Estacionaram na frente do cartório pouco antes das dez
da manhã. Ao empurrar a porta de vidro escuro e aço escovado, o Walter
voltou-se como quem se lembra de algo:
- É, não choveu mesmo - disse, e entrou.
O Turco observou através do âmbar a imagem do amigo diluir-se na sombra
do interior. Piscou os olhos como quem desperta e dirigiu-se a uma padaria na
esquina próxima. Ali poderia esperar, com uma média e um pão com manteiga.
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