Abril tem cheiro de minério - Exercício 5 [Cássio]


 Abril tem cheiro de minério


Se Gabriel me pedisse um conselho, eu diria: nunca pegue os vagões do meio, prefira as pontas. Os do miolo são os mais lotados; ao chegarem ao Brás, a estação, são os mais próximos das escadarias rumo à saída. É formigueiro, na chegada e na partida. Evitar a barriga do trem é lei; novato na linha ou embarca na cabeça ou se agarra no rabo do bicho. O miolo é para veteranos, apressados e desesperados.

Se Ezequiel era novato, não sei dizer. Era seu talvez o rosto que vi assombrado e dependurado na porta, agarrado feito sagui. O vento enfunava como se a pele fosse a vela de agourentas caravelas. Natanael era medo e reza. Insistiu em tomar o trem das 6h13, mesmo que não coubesse. Queria o contracheque sem descontos no fim do mês. A viagem com o corpo para fora do trem, pendurado somente pela fé nos dedos agarrados à barra de proteção, não era para ele uma aventura. Invejava a segurança e a salmoura de dentro. Um desafio à densidade populacional — a aula de Geografia nunca me errava nessas horas. A aula de Química também não, montando e desmontando as moléculas de cheiro, um coquetel de suores, de cachaça (o fígado acorda mais cedo do que a Química), de desodorantes e fragrâncias, de laboratórios intestinais e do salgadinho com aroma de qualquer coisa menos do queijo anunciado na embalagem, que a moça a dois corpos de mim consumia com ferocidade e bracinhos de tiranossauro. E havia o cheiro do minério, do ferro, o cheiro de siderúrgica, do atrito entre rodas e trilhos. Sutil, onipresente.

Se Daniel conseguisse falar, sem a fiscalização violenta do vento, diria que era o único cheiro que sentia. Pudera. O cheiro do minério exalava para os narizes tanto da sardinhada cozida dentro da lata, ao longo de uma, duas, dez estações, como das sardinhas que transbordavam para fora. Excesso de ingrediente, falta de vasilhame.

Se Ariel pudesse escolher, certamente preferiria o cheiro do salgadinho. O purgatório sempre parece o paraíso para quem admira do inferno. A tiranossaura devorava-os com tamanha vontade que coloria o próprio colo — mais os ombros, jaquetas e tricôs dos demais passageiros — daquele amarelo radioativo e farelento. A cada 18,7 salgadinhos consumidos, um escapava e ia ao chão, se é que a aula de Matemática havia me ensinado probabilidade de forma correta — mesmo que Matemática seja a menos exata das ciências e a mais exata das crueldades. Nos pés, se alguém conseguisse olhar, perceberia o começo de uma horta de salgadinhos no piso do vagão.

Se Muriel já tivesse pegado o trem, qualquer trem uma vez na vida, saberia que os vagões têm fauna própria. São o habitat, natural de tão artificial, de insetos com sonhos e apetites intranquilos. Foi um desses que desafiou a tiranossaura. Subiu em seu colo. Percebeu ali a mesa posta. O banquete de farelos. Ação gerou reação. Aula de Física. A dinossaura reagiu. Gritou. Abriu os braços. Sacudiu a poeira química. Química. O inseto avançou como dinossauro. Predador virou presa. A tiranossaura recuou como inseto. Biologia. O quadril invadiu espaços. A tiranossaura tentou escapar. Uma bunda empurrou outra bunda. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Física. Outra bunda expulsou outras bundas. Uma cadeia de bundas recuadas. Estrépito. Uma bunda final desterrou Miguel do trem. Os dedos de Joel se perderam da barra. Vida.

Se Manuel fosse pro céu, como cantou uma voz sardônica em meio ao burburinho dentro do vagão — “Caiu!”; “Caiu?”; “Ai, meu Deus!”, “Morreu?”; “Tem nem como” —, ainda sentiria o cheiro do minério, o cheiro 

do aço, o cheiro

do ferro, 


o cheiro

da ferrovia, o cheiro 

da Ordem, do 

Progresso, o cheiro

da terra

morta, o cheiro

estéril, o cheiro 

da Química, Física, Biologia, Matemática, Geografia, Geologia, o cheiro

das 48 horas semanais, o cheiro 

da aposentadoria, da invalidez, do substituível,

da máquina, o cheiro 

do massacre, o cheiro 

do ferro

morto, o cheiro 

do minério

ouro, o cheiro 

das Minas

Gerais, o cheiro do

Rio Doce,


o cheiro

do índio

morto


, o cheiro 

dos nomes das coisas e das coisas sem nome,

o cheiro do índio,

do Bandeirante, do Jesuíta, do Capitão, de Anchieta, de Anhanguera, 

de caravela,

de vento,

de estranhamento,

o cheiro

de nós,

o cheiro de brasil.


******


Sempre fui péssimo com nomes. Mas era bom com cheiros.

E com datas.

Era abril, perto do dia 19; 16 ou 17, talvez.

Dia de prova de História.

Faltei.


Comentários

  1. Eu achei sensacional, tocante mesmo, e adorei a forma como escreveu!

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  2. Cássio, você criou um belo conto a partir de uma experiência pessoal. E com um aguçado olhar de ficção, diria, com estilo próprio, uso pleno da imaginação, ousadia formal. Ficou de fato muito bom. Os elementos escolares, as matérias, sem deixar o conto descolar desse narrador-testemunha, funcionaram muito bem. Não entendi essa frase: "O cheiro do minério exalava para os narizes tanto da sardinhada cozida dentro da lata, ao longo de uma, duas, dez estações, como das sardinhas que transbordavam para fora." Dê uma revisada. Isso aí, tá de parabéns.

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