Prometeu [exercício 2 - Cássio]

Palito, um palito, palito, dois palitos, palito, três palitos.

Palito.

Cinco palitos.

Onze palitos.

Vinte e três palitos.

Trinta e sete palitos.

Um carro, uma buzina, um zunido. A rua, moleque! Um grito.

Cento e nove palitos.

Dois carros, só uma buzina, dois zunidos. Só um grito mesmo.

Duzentos e setenta e sete palitos.

Asfalto quente, cinza, chumbo, piche. Quente, calor. Mochila, pesada. Costura aberta. Zíper emperrado.

Quinhentos e noventa e nove palitos.

Palito, rua, rua?, estrada?, estrada, palito, fósforo?, dente?, fósforo, carro, asfalto, pedrisco, linha, tinta, moto, linha, pedrisco, asfalto, [espectro?], carro, Sol, calor, água, Sol Sol Sol, asfalto, suor, [espectro?], amigo, amigo?, risada, risadas risadas risadas, amigo?, retardado, carro, [espectro?], médico, lágrima, água, palito, asfalto, amigo?, neurologista, palito, calor, água, [espectro?], psiquiatra, lágrimas, água, [autismo], [autista? autista autista], água água água, psiquiatra, [fogo], [compreensão], fogo-compreensão, [autista], lágrimas, calor, lágrimas, suor, lágrimas, quilômetros?, risadas risadas risadas, palito, palitos, lágrimas, fósforo?, dente?, palitos.

— A distância toda, seu retardado.

— Distância em quilômetros, metros, centímetros?

— Não, moleque! Distância em fósforos. Palitos de fósforo!

Risadas risadas risadas.

Novecentos e noventa e um palitos.

Carro. Sem buzina.

Carro lento. Sem buzina.

Carro parado, porta batida

Carro grande, sapatos, pedriscos e sapatos, ruídos.

— Murilo?

Murilo, eu, eu mesmo, 13 anos, 27 de agosto de 2008, parabéns, obrigado, parabéns pra você, rá-tim-bum-Murilo-Murilo-Murilo, obrigado, não, palitos, palitos, palitos, mil?, mil e um?, mil e…?, não, Murilo, palitos, eu, eu palitos Murilo 13 anos, novecentos e noventa e um, rá-tim-bum-Murilo-Murilo-Murilo…

— Ô, Murilo?!

Homem, cabelo branco, roupa branca, pele branca, branco todo, branco tudo, bigode branco, carro branco, velho branco, branco conhecido, conhecido branco. Médico, neurologista, psiquiatra? Psiquiatra. Psiquiatra! Lágrimas, mamãe, gritos, papai, mamãe-papai, lágrimas-gritos.

— Por quê?

O psiquiatra.

— Estrada. Em palitos. De fósforo. A distância toda.

Murilo.

— Meu Deus! Molecada infernal! Que castigo!

— Castigo, não! Amigo, pedido de amigo.

— Que coisa! Que absurdo! Seu fogo, incompreendido. Você, Prometeu!

— Prometi, sim! Amigo, para o amigo. Prometi!

— Não! Prometi, não! Prometeu!

Novecentos e noventa e sete palitos…

Comentários

  1. Nossa, muito bom!! A gente vai entrando no conto e na vida dele aos poucos, perfeito. Parabéns!

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    1. Rayssa, super obrigado!
      A tentativa foi a de criar uma vida inteira num espaço muito curto de um conto.
      Obrigado. :)

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  2. Cássio, seu conto ficou com um jeitão meio caleidoscópico. Uma busca por uma visão autista do mundo, é isso? Mesmo sem os verbos, você conseguiu dar a ideia de ação, de movimento. Ainda mais com a ideia dos palitos, que medem distâncias. Fico na curiosidade, o artifício nasceu da restrição ou a restrição se adequou ao artifício? Mistérios da criação...

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    1. Flávio, não sei nem o que te dizer! rs
      A ideia foi exatamente essa. A de tentar fazer com que a falta de verbos fosse como um filtro de como um autista pode perceber o mundo, e de como o mundo o percebe.
      O artifício nasceu da restrição... eu acho. A ideia de um trabalho que demande muita atenção me remeteu a um castigo, que me remeteu a um castigo mitológico, de alguém incompreendido. Foi a partir desse embaralhado que a narrativa surgiu...
      Obrigado mais uma vez.

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  3. Impressionante como vc conseguiu traduzi esse universo. Parabéns!

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    1. Oi, Miriam. Obrigado pelo comentário. Você sempre tão gentil e calorosa. Muito obrigado!

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  4. Respostas
    1. Beatriz! Me deixou corado aqui. Não sei se mereço um comentário como o seu. Não sei nem se sei lidar. Fico enormemente agradecido. Ai, caramba. Me perdi aqui...rs. Já disse obrigado? Obrigado!

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