Exercício para casa 2 (Guilherme Eduardo Figueiredo)

    Tranca a porta do quarto, senta na poltrona. Tudo já na mesinha.  

    Colher dobrada. Heroína. Isqueiro. Heroína aquecida, liquefeita. Seringa, êmbolo para cima, líquido marrom quentinho. Garrote no braço. Dedos indicador e médio da mão direita em riste. Duas pancadas. Veia azul no braço branco. Agulha, agulha dentro da veia. Êmbolo para cima, sangue no cilindro, o marrom agora um vermelho sujo. Êmbolo para baixo. Calor nas veias, calor no corpo, calor na alma. Prazer. 

    Seu corpo todo brilha e afunda na cadeira e sua pele toda um receptor de bem-estar e um sorriso de orelha a orelha e a euforia que invade tudo, coloca a cabeça para trás e fecha os olhos e o mundo desaparece e foda-se tudo e foda-se o banco e só importa essa sensação maravilhosa e queria que tudo fosse sempre assim nunca sair daqui e uma vez em cima da montanha com o Gu e o pôr do sol lindo e as cores vermelho azul rosa os braços abertos na beira e deixar o corpo cair e o corpo sem peso e o corpo sem corpo e a água do mar e o lindo do fundo do mar e o eu era uma rocha depois uma gelatina depois derrete para água morna e o mar balançando para um lado e para o outro em um embalo gostoso junto com o calor do sol e o universo te ninando e te abraçando e protegendo e não tem nada lá fora para te atrapalhar e calma e tranquilidade, tem alguém batendo na porta. 

    Levanta e abre a porta. “Posso ir brincar na casa da Luiza?” “Claro, meu amor, pode ir e ficar lá quanto tempo quiser.” A porta fechada de novo, trancada. As contas na mesa de cabeceira, o vazio no quarto, o vazio na cama. Faz algumas horas que não come, mas tudo bem, a heroína sempre tira seu apetite mesmo. Depois é só abrir um salgadinho. Tinha outras coisas para fazer, mas agora não. Agora é hora de mais uma dose. 

Comentários

  1. Guilherme, muito bacana o uso que você faz da pontuação para levar o leitor à disparada de sensações internas da personagem. Primeiro as frases curtas, como que tomando embalo, e depois o jorro. Isso aí. Minha observação: um conto é uma luta que a gente vence por nocaute, então eu não entregaria a heroína para o leitor; deixaria que ele percebesse o uso da droga, e no fim, o soco com a filha batendo à porta. É como se você tivesse anunciado quase tudo de cara, entende? Veja se concorda.

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  2. Guilherme, seu texto me provocou muitas sensações. Depois que li o comentário do Flávio, concordei com ele. Se tirasse a palavra heroína ainda causaria mais angústia. Muito legal!

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