Fiquei um tempo tentando enfiar a chave na fechadura, mas não conseguia, como se eu estivesse tentando abrir a porta de outro apartamento. Quando finalmente consegui e entrei, fiquei olhando a sala. Nada de diferente. A mesa de vidro redonda, vazia, o sofá, a cristaleira onde ficavam algumas louças e o bar. Tudo como eu sempre deixo. Mesmo assim olhei mais uma vez, procurando se algum outro objeto estava fora do lugar. Não estava. Servi um copo de whisky, para relaxar à noite, depois de mais um dia de trabalho. O primeiro eu virei. Servi outro. Sentei no sofá com o copo, tirei uma sapato, depois o outro. Às vezes eu me sentia solitário demais nesse apartamento vazio, sem nem um bichinho para me fazer companhia. Para completar ainda teria de comer comida congelada. Fiquei sem saco e sem tempo de cozinhar.
Fui ao quarto, tirei a roupa e deixei o terno bem esticado, vou vesti-lo amanhã, em cima da cama. Duas coisas que eu não gosto nesse quarto, essa colcha vermelha horrível que eu ganhei de presente e insisto em usar e o fato de não bater sol. Talvez eu devesse ter alugado outro apartamento, mas esse era bem mais barato. Não sei se outro seria melhor. A colcha eu continuo usando porque sou mão de vaca mesmo, não tem outro motivo. Olhei em volta, alguma coisa parecia fora do lugar, mas não conseguia precisar muito bem o que era.
Depois do banho, vi no espelho que minha pele já estava ficando empolada. Três dias seguidos fazendo a barba. Pode ser o barbeador, vou tentar usar outro. Mas porque mesmo eu não podia deixar a barba crescer nem um dia? Será que se eu deixasse alguém pensaria que eu sou outro homem? Lembrei da bebida que estava na sala, em cima da mesa. Droga, deixei o copo de cerveja sem o porta copos. Assim estraga a madeira toda. Como o copo estava quase vazio fui servir outro.
Na cozinha aproveitei e tirei o frango do forno. O Milo veio logo miando, pedindo um pedaço. Tirei uma pelinha da coxa e dei para ele. Quer outro? Dei mais um pedacinho. Depois de comer ele ficou se esfregando nas minhas pernas. Fofinho. Ele foi o primeiro gato que eu tive, antes era só cachorro. Depois que meu último cachorro morreu eu queria outro, mas me convenceram que em apartamento era melhor gato. No fim das contas eu gostei de ter gato. Às vezes até penso em ter outro.
Quando entrei no quarto, parecia diferente. Não sei dizer o porquê. Fiquei alisando a barba e olhando em volta, pensando. É como se... como se tivesse um outro. Apesar disso, tudo estava normal. O Milo subiu na cama, cheia dos pelos dele. A colcha branca também não ajuda. Resolvi fechar a janela. O sol ainda estava muito forte, e nesse apartamento bate sol demais.
Sua palavra não pode ser outra senão "outro", né? Está bem encaixada, penei um pouco para descobrir! :)
ResponderExcluirAdorei como o contexto vai mudando ao longo do conto! Fiquei com a impressão não só de passagem de tempo, mas também de que o contexto não era tão relevante para o que ele que estava sentindo ou para a sua rotina.
ResponderExcluirGuilherme, que conto estranho. No bom sentido. Interessante essa ideia de lugar movediço, onde as coisas vão sendo diferentes. O que será que acontece na cabeça desse narrador? Serão vários dias enfileirados em um conto? Estamos na chave do exercício, claro, mas é o tipo de efeito que se encaixaria em um conto um pouco mais longo. Fica o embrião, para que você o revisite um dia. Acho que, embora o "outro" se irmane muito bem com a história, a repetição não provocou um efeito. Assim como a Adriana, demorei a identificar. Mas serviu como alavanca, certo? Isso aí!
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