Livre
A
tranca da porta girou quando deveria firmar a volta da chave. Na sala, se perguntou
se estava mesmo encostada. Dois copos com fatias de limão e uma garrafa de água
com gás vazia com a tampa ao lado estão na mesa de centro, ao pé da mesa, uma
bola de papel higiênico manchada de gordura. Um livro jogado no chão bem
pertinho do sofá, as páginas indo e vindo na onda do ventilador direcionado
para o sofá. O livro tem linhas em brancos, outras praticamente ilegíveis, uns
riscos cruzados. A capa não aparece. Não
tem sentido um livro na casa, muito menos jogado assim no chão. Nunca viu a
esposa com livro, apesar de ela reclamar que queria muito um cômodo pra ser a
biblioteca, agenda ela estava trocando todo mês. Começou a subir a escada, mas
o livro batia palmas pra ele. Sentou no sofá, a manta toda embolada, mancha de
suor ainda úmida no couro. O vento passou mais páginas e espalhou vários
marcadores Pra minha leitora, a única da minha vida, uma fita de papel Eu e
você e o livro livres. Corações metálicos saem voando. Quanta perda de tempo,
ele diz jogando o livro fechado na mesinha. Mas o livro faz questão de cair
aberto e se espalhar mais pelo chão. Sobe. A mulher espalha felicidade no ritmo
do celular. Ela não tem isso de cantar no banho.
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