Exercício para casa 1 (Antônio Marcos Garcias)

 

Livre

A tranca da porta girou quando deveria firmar a volta da chave. Na sala, se perguntou se estava mesmo encostada. Dois copos com fatias de limão e uma garrafa de água com gás vazia com a tampa ao lado estão na mesa de centro, ao pé da mesa, uma bola de papel higiênico manchada de gordura. Um livro jogado no chão bem pertinho do sofá, as páginas indo e vindo na onda do ventilador direcionado para o sofá. O livro tem linhas em brancos, outras praticamente ilegíveis, uns riscos cruzados.  A capa não aparece. Não tem sentido um livro na casa, muito menos jogado assim no chão. Nunca viu a esposa com livro, apesar de ela reclamar que queria muito um cômodo pra ser a biblioteca, agenda ela estava trocando todo mês. Começou a subir a escada, mas o livro batia palmas pra ele. Sentou no sofá, a manta toda embolada, mancha de suor ainda úmida no couro. O vento passou mais páginas e espalhou vários marcadores Pra minha leitora, a única da minha vida, uma fita de papel Eu e você e o livro livres. Corações metálicos saem voando. Quanta perda de tempo, ele diz jogando o livro fechado na mesinha. Mas o livro faz questão de cair aberto e se espalhar mais pelo chão. Sobe. A mulher espalha felicidade no ritmo do celular. Ela não tem isso de cantar no banho.

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