O silêncio. Fim de
tarde. O leve roncar do cachorro. O cheiro de pelo molhado. Chuva mais cedo. Prédio
em silêncio. Apartamento vazio. Será que colocou água nas plantas, dúvida. Sentada.
Tapete estirado. Respiração, mente esvaziada, inspira, não pensar, expira. Será
que pagou a luz, dúvida. O respirar, o foco. Alguns minutos mais e, enfim, a calmaria
da mente. A coluna, ereta. Os olhos, fechados. Os sentidos, despertos. Sobre os
joelhos dobrados, as mãos que repousam. O cachorro, agora mais perto. O inspirar
e o expirar no mesmo ritmo, a mão no cachorro. A casa vazia. O ar que entra, o
ar que sai. Algumas vozes, afastadas calmamente uma a uma. Alguns minutos mais.
Quase sente paz. O apartamento, enfim, era grande. E vazio. Pulmões cheios, e depois
vazios. O assombro de perceber a força das coisas que existem mesmo sem ela. Respiração
acelerada. A tentativa do controle. O inspirar e expirar já não funciona. Mas,
permanece ali. E o ar que preenche os pulmões. De repente, a intolerável certeza
do caber inteiramente. Inspiração, expiração. Quanto tempo será que se
passou. Antes que se percebesse, a sensação já não estava. Entra o ar, sai o
ar. Nada. Tanto faz. Quem tem paz por tanto tempo? A coluna dói. Algum tempo deve
ter passado. O inspirar e o expirar. Ainda estava lá. E, de dentro, vê-se
melhor. Será? De repente, um leve arrepio no braço. Quase imperceptível. Esperança.
Não aquela que sustenta a ilusão. Não a última que morre. O inseto. A esperança,
tão pequena e verde. Frágil e rara. A imagem da mãe quando profetizava, a
esperança vem com a sorte. O ar que entra e sai apressado assustou a esperança.
O voo para longe. Alívio. Lembrou que tinha medo de esperança.
Rayssa, eu ri! Bem nessa parte aqui: "Esperança. Não aquela que sustenta a ilusão. Não a última que morre. O inseto."
ResponderExcluirhahaha que bom, pois eu me pergunto se quem está lendo tbm passa por essas nuances, da ação cotidiana, à reflexão, ao riso. Fico feliz que tenha surtido efeito.
ExcluirDemais, Rayssa! Pra quem prática yoga ou medita, é impossível não se identificar.
ResponderExcluirNatasha
Rayssa, fiquei calmo com seu conto. As frases curtas, talvez, e compassadas com a abertura repetida com substantivos... Acho que a forma e o conteúdo se irmanaram. Você não fez uma enumeração longa na mesma frase, mas é como se o conto todo fosse uma pequena enumeração de ações. E tá tudo certo. Se Clarisse fizesse meditação seria algo assim: "De repente, a intolerável certeza do caber inteiramente no que já existia. E, se ao acaso, caíra no seu destino como se realmente o escolhera?". Isso aí!
ResponderExcluirO ar que entra e sai assustou a esperança. E eu também!
ResponderExcluirNão sei meditar, não consigo, mas seu texto me tocou como uma breve meditação.
Bacana!