Chego em casa. Não tem luz. Tudo está escuro. Reviro a mochila procurando as chaves. Difícil enxergar sem luz. Encontro. Parecem mais pesadas na ausência da luz. Procuro a chave certa. Uma volta. Sempre fecho com duas. Entro. Tropeço nos chinelos que não pude ver, já que não há luz. Sempre os deixo atrás da porta. Largo a mochila em qualquer lugar. Tanto faz o lugar certo, pois é impossível vê-la sem luz. Tiro a roupa. Preciso de um banho. Quem fechou a porta do banheiro? Não tem luz: água fria. Pelo menos parece sair mais água do chuveiro. Me jogo na cama. Ela faz um som diferente. Sem luz percebemos melhor os outros sentidos. Sinto um cheiro estranho. No fim das contas acho tudo isso bom. Durmo melhor sem luz. Fecho os olhos e percebo passar uma luz. Abro os olhos e não vejo nada. Fecho novamente os olhos e lá está a luz. Espio de canto de olho. Vem a luz. Abro os olhos. Vai a luz. Viro para o lado e novamente a luz. As paredes parecem estar mais claras. Some a luz. O cheiro fica mais forte. Acho melhor dormir de olhos abertos. Passa um feixe de luz e vejo que há roupas jogadas pelo chão. Lembro-me que saí apressada de manhã. Levanto. Caminho até a sala e tropeço de novo. Dessa vez na mochila que deixei largada. Chego até a cozinha. Abro a janela, buscando de onde vem a luz. Vejo erguido no meio do jardim um imenso farol.
Natasha, que linda, sua última frase. Me invadiu de um jeito. Há um efeito poético, mas ao mesmo tempo tudo é tão concreto (a mochila, as chaves, o chinelo), que o farol também ganha concretude, embora habite o campo das impossibilidades. Tornar concreto aquilo que é abstrato, como disse na terça, é um dos caminhos que a literatura trilha. Parabéns!
ResponderExcluirSem dúvida a última frase foi o maior dos exercícios de repetição: escrevi muitas vezes até me decidir e subi o texto ainda bem insegura com o final. Fico muito feliz com o retorno, Flávio. Obrigada! =)
ResponderExcluirLindo! Parabéns!!
ResponderExcluirObrigada, Karla!! :)
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