Exercício I: Beatriz Amaro

Notei assim que abri a porta - o incômodo foi instantâneo. Conto: uma mesa, quatro cadeiras, três gatos, trinta e seis plantas. Uma televisão, duas cafeteiras italianas, vinte e um quadros, sete canecas, duas taças de vinho. Não são os porta retratos, não é a disposição dos livros, não é nada no escritório (não há nada no escritório), não são as roupas que deixei estendidas no varal. Não são os esmaltes organizados por cor, não são as linhas que uso para bordar, não são as máscaras dispostas no porta-chaves. 


Mas há algo fora do lugar. Não é o cinzeiro, não são as portas dos armários, que permanecem abertas o tempo todo, não é a pilha de jornais que acumulei na despensa. Não é a bagunça, não é a sujeira, não é o monte de louças que deixei no escorredor. Não se trata das constantes, que, confirmo, estão inalteradas. 


Outra varredura. Não são os materiais de construção empilhados no banheiro interditado, não são os petiscos felinos que ficam sobre o armário de ferro, não é o estoque de chocolates que abasteço quinzenalmente. Não são os remédios, não são os discos, não é a cristaleira, não é o relógio de parede…


Canso. Penso. E já não hesito em concluir, quem diria: sou eu.

Comentários

  1. Que beleza, Beatriz. Eu sou suspeito, sou particularmente fã dos "nãos". A repetição não só do "não", mas da sintaxe das frases, essa boa monotonia, dá ao conto uma aflição, diria, bem incômoda. Funciona. Confesso que as duas interrupções não me agradam tanto. Acabam sendo ilustrativas do incômodo já implícito. Mas é uma opção. Minha dica de corte mesmo iria para "quem está fora do lugar". Quem diria: sou eu. Perceba como é mais forte e menos explicativo, como desafia mais o leitor. Isso aí!

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    1. Perfeito, Flavio. Sugestões acatadas. Quis deixar explícita a premissa, essa de notar que há algo diferente mas não se sabe o quê, mas vi que é mesmo desnecessário. Obrigada pela atenção e cuidado nas observações!

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