Exercício 1 (Karina Müller)

Empurro a porta, acendo a luz e a sala me diz que há algo estranho. As paredes com alguns machucados, as prateleiras um tanto vazias, um leve cheiro agridoce que vem do corredor atrás de mim: estranho. Sento no sofá, pego a taça que ficou metade por beber e no primeiro gole sinto o vidro me cortar os lábios. Com estranheza, percebo que a taça estava quebrada e sinto o gosto de sangue. Continuo sentada, quase imóvel, tentando entender o quê na cena me parece tão fora de lugar, tão errado, tão... estranho. Dão 20h e noto que o interfone ainda não tocou, que a luz do corredor permanece apagada e que o quadro de moldura verde, que pendia sempre torto para a direita e era seu preferido, estranhamente não está mais lá. Entre o torpor e a curiosidade, me levanto quando tocam os sinos da igreja para anunciar a meia-noite. Brinco com o sangue seco no rosto, passo pelos cacos de vidro até a estante e dedilho cada livro até chegar no espaço vazio. É quando a estranheza vira ausência que vira dor que vira entendimento. Agora sei o que a sala tenta me mostrar há horas - ou há dias. Numa fração de segundos, aperto a taça forte o suficiente para que termine de estilhaçar entre meus dedos e estou de novo à porta. Entro e me sento no sofá, encarando a sala que agora escancara suas ausências. Decido que a estranheza é uma excelente companhia, uma amiga muito melhor do que mereço. Dão 20h e noto que o interfone ainda não tocou. Estranho.

Comentários

  1. Muito bom. Consegue conversar com o leitor e passar a emoção. Parabéns!

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  2. "A sala me diz" já me conquistou de cara, Karina. Bela forma de trazer o estranhamento. Não sei se a repetição trouxe algum efeito, talvez bem leve, mas a estranheza permeou o conto todo. Dá até vontade de cortar a palavra "estranho" e suas derivadas, já que a descrição em si já provoca estranhamento. É um exercício interessante: exagerar no termo, provocar o efeito e depois cortar. São muitos os caminhos da criação. Isso aí!

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