Exercício 1 (Érica)

     Finalmente em casa! Era o que eu dizia mentalmente após sair do ônibus lotado naquela quinta-feira abafada, véspera de feriado. Agora era chegar em casa, tomar um longo banho e aguardar o fim de semana.

    Eu subia a rua de minha casa quase que me arrastando devido ao cansaço da semana e a ideia do fim de semana era o que me fazia chegar em casa: amanhã vou dormir até acordar. Preciso disso para repor as energias. Bendito fim de semana! E com feriado!

    O fim de semana deveria ocupar os cinco dias da semana e não apenas dois. Mas aí não seriam fins de semana, e sim a semana e eu passaria a desejar a semana e não os fins de semana. Esses eram os meus pensamentos até chegar no portão da frente.

    Quando tentei abri-lo, vi que estava destrancado. O fato não me alarmou, pois em outras vezes, devido ao atraso para pegar o ônibus, já havia deixado o portão destrancado e a dúvida me perseguia durante o dia: será que eu havia trancado ou não o portão. Atrás dela vinham, inevitavelmente, outras dúvidas: se havia desligado a tomada do ferro de passar roupa; se havia fechado a torneira do banheiro que insistia em pingar; se havia fechado a porta da geladeira. Coisas de uma mente cansada vindo de uma semana de trabalho e prestes a devagar deliciosamente no aguardado fim de semana.

    Ao chegar à porta, deparei-me com ela também destrancada. Aí tive a certeza de que não fora apenas um esquecimento. Eu jamais esqueço a porta destrancada. O portão sim. A porta nunca. E não havia semana atabalhoada ou promessas de descanso de fins de semana que me fizessem esquecer a porta da frente destrancada. A porta da frente guarda o conforto da minha casa. Guarda os meus segredos e as minhas delícias. Jamais eu a deixaria destrancada. Por nada e para ninguém. Tive a certeza: há algo estranho acontecendo.

    Ao entrar na sala, com o coração acelerado por medo e susto, percebi um agradável perfume vindo da cozinha. Aquele cheiro de amor que acaricia a pele e dá à casa da gente aquela sensação de estar em casa foram, paulatinamente, acalmando minha alma. De lá também vinha o cantarolar que eu conhecia muito bem, mas que a ausência apagava aquela sensação agradável. Lembranças de outros fins de semana e outros feriados começaram a emergir em meus pensamentos aguçando sentimentos e sensações.

    Lá estava ele, com sua presença marcante, suas habilidades culinárias e seu cantarolar de tenor. Meu coração se alegrou ao mesmo tempo em  que se desesperou: que dia é hoje? 20? Como eu pude me esquecer? É hoje que ele chega!

    Na mesa da sala, as rosas vermelhas frescas no jarro davam um bom sinal. O final de semana seria bastante movimentado.

Comentários

  1. Érica, sua repetição me transmitiu a mesma sensação que tive no conto da Lydia Davis: perturbação. Muita perturbação. Deu a ideia de uma mente cansada, realmente. Isso aí. No fim, a repetição deu uma parada. Acho que foi intencional, certo? Como se a personagem-narradora fosse se acalmando... Como dica: evite expressões como "eu dizia mentalmente" ou "esses eram os meus pensamentos". Isso porque em um conto em primeira pessoa, como o seu, essa ideia já está implícita. As palavras, assim, acabam sobrando.

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  2. Obrigada, Flávio, pelas dicas. Todas anotadas aqui.

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