O Perfume
Encostei a bagagem na porta, até encontrar as chaves da casa na bolsa de mão. Estava grato por terem inventado as malas de rodinhas. Dessa vez, trouxe de presente um casaco de inverno que preencheu quase toda a mala.
E claro, seu perfume predileto. Esse não poderia faltar. O perfume foi o presente que marcou a minha primeira viagem de negócios, depois da promoção.
Desde então, ela sempre usou o mesmo perfume.
E era tanto que a casa cheirava à Ana. As roupas, os lençóis, as cortinas da sala, as almofadas, absolutamente tudo.
Eu me acostumei. Ela olhava minha agenda e calculava os dias, para economizar o perfume até a próxima viagem.
No início, eu ainda perguntava se ela gostaria de outro perfume, outro presente, sei lá.
Com o passar do tempo, eu parei de perguntar sobre o perfume, o presente, a casa, os meninos, os gatos, os cachorros. Eu parei de perguntar.
Desfiz as malas no quarto, deixei o perfume em cima da cama e junto dele o casaco pesado de veludo.
Talvez ela não o usasse. No Brasil, nem fazia frio para tanto. Mas uma loja de abrigos de inverno, ao lado da empresa, era a única possibilidade para alguém que quase perdeu o voo de volta.
Eu precisava levar alguma coisa. Talvez o perfume não bastasse mais.
Tomei uma ducha demorada aproveitando o silêncio da casa. Eu poderia ter trago rosas ou qualquer outra coisa pequena, à venda no freeshop de sempre. Talvez, ela nem notasse.
Tirei um cochilo na sala abraçado à almofada de algodão cru e acordei com lambidos nos meus pés. Caio estava velho e já não fazia tanta festa, quando eu chegava, mas vinte dias de viagem era tempo suficiente para que ele se aproximasse um pouco mais.
Ana foi direto para a área de serviços. Tinha mania de limpar os sapatos, ao chegar da rua.
A janela estava aberta e as primeiras estrelas já surgiam. Senti um perfume agridoce no ar. Um perfume diferente. Não sabia identificar de onde vinha.
A sala ainda na penumbra, eu não pude enxergar os seus olhos ao entrar e me dar um beijo rápido.
- Fez boa viagem? Perguntou Ana com a voz baixa, enquanto ajeitava os pelos do Caio.
- Sim. Quase não embarquei, porque a reunião demorou, porém cheguei a tempo no aeroporto.
- Como sempre, as reuniões se arrastam mais do que o necessário, respondeu, ajeitando a gola do vestido, enquanto saía apressada para o quarto.
Senti vontade de lhe tocar o corpo. O modelo do vestido deixava as costas quase nuas e a saia rodada tocou as minhas pernas, quando ela se levantou. O perfume agridoce vinha dela, um perfume diferente, eu não tive dúvida.
Esperei que voltasse do quarto e dissesse algo. Ana passou direto para a cozinha.
- Quer um café? Perguntou, enchendo o caneco de água.
Me aproximei com o desejo de beijar seu pescoço. Ela se virou ao ouvir os meus passos e os nossos rostos ficaram juntos, quase na mesma altura.
E de novo, o perfume agridoce. Um perfume forte, muito forte.
- Te trouxe outro presente, você viu? Perguntei, tentando não prestar atenção naquele cheiro grudado no seu corpo, que agora exalava na cozinha.
Dessa vez, consegui ver os seus olhos, não por muito tempo. Abaixou-se pegando um guardanapo no chão e começou a arrumar a mesa.
- Não, depois eu vejo. O dia foi corrido. Caio tem tomado o meu tempo. Hoje tive que levá-lo ao veterinário pela manhã e à tarde.
O perfume do café inundou a cozinha e silenciou meu olfato, por um momento.
À mesa, um silêncio gritante. Olhei mais uma vez para ela. Tentei lembrar se já conhecia aquele vestido. Depois de tanto tempo, a casa não tinha seu perfume.
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O Perfume (Texto sem os verbos, quase todos)
A bagagem na porta, as chaves da casa na bolsa de mão. Grato pelas malas de rodinhas. Dessa vez, de presente um casaco de inverno, quase toda a mala.
E claro, seu perfume predileto. Esse, sem falta. Presente da minha primeira viagem de negócios, depois da promoção.
Desde então, sempre o mesmo perfume.
E tanto! A casa, cheiro de Ana. As roupas, os lençóis, as cortinas da sala, as almofadas, absolutamente tudo. Eu, acostumado.
Ela, minha agenda e o cálculo dos dias para a economia do perfume até a próxima viagem.
No início, a pergunta: Outro perfume? Outro presente? Sei lá.
Com o tempo, nenhuma pergunta sobre o perfume, o presente, a casa, os meninos, os gatos, os cachorros. Nada de perguntas.
As malas no quarto, o perfume em cima da cama e junto dele o casaco pesado de veludo.
Talvez, sem uso. No Brasil, sem frio para tanto. Mas uma loja de abrigos de inverno ao lado da empresa, única possibilidade para alguém quase sem o voo de volta.
Precisão de mais alguma coisa. Talvez.
Uma ducha demorada no silêncio da casa. Quem sabe rosas, ou qualquer outra coisa pequena à venda no freeshop de sempre? Quem sabe?
Um cochilo na sala abraçado à almofada de algodão cru e, de repente, lambidos nos meus pés. Caio já velho, sem muita festa na minha chegada, mas vinte dias de viagem, tempo suficiente para um pouco mais de aproximação.
Ana direto para área de serviços. Mania de limpeza dos sapatos, depois da rua.
A janela aberta e as primeiras estrelas. Um perfume agridoce no ar. Um perfume diferente.
De onde? Não sei.
A sala ainda na penumbra, um beijo rápido sem olhares.
- Fez boa viagem? Perguntou Ana com a voz baixa, enquanto ajeitava os pelos do Caio.
- Sim. Quase não embarquei porque a reunião demorou, porém cheguei a tempo no aeroporto.
- Como sempre, as reuniões se arrastam mais do que o necessário, respondeu, ajeitando a gola do vestido, enquanto saía apressada para o quarto.
Vontade do toque no corpo. O modelo do vestido, as costas quase nuas e a saia rodada nas minhas pernas, na saída para o quarto. O perfume agridoce, um perfume diferente, sem dúvida, nela.
A volta do quarto e nada. Ana na cozinha.
- Quer um café? Perguntou, enchendo o caneco de água.
Aproximação. Desejo de um beijo no seu pescoço. Meus passos próximos a ela. Um giro. Os nossos rostos juntos, quase na mesma altura.
E de novo, o perfume agridoce. Um perfume forte, muito forte.
- Te trouxe outro presente, você viu? Perguntei, tentando não prestar atenção naquele cheiro grudado no seu corpo e agora exalante na cozinha.
Dessa vez, os seus olhos, não por muito tempo. Um guardanapo recolhido do chão, e a mesa arrumada.
- Não, depois eu vejo. O dia foi corrido. Caio tem tomado o meu tempo. Hoje tive que levá-lo ao veterinário pela manhã e à tarde.
A cozinha inundada pelo perfume do café e meu olfato silenciado, por um momento.
À mesa, um silêncio gritante. Mais um olhar para ela. Esse vestido. Novo?
Depois de tanto tempo, a casa sem o seu perfume.
Denise, extremamente delicado, seu conto. Gosto do modo como os sentimentos se sedimentam sem que você precise explicá-los. E a repetição do substantivo PERFUME, embora sutil, está presente, impregnando toda a casa, toda a vida a dois. Muito bom. E que bacana, você cruzou o conto com o exercício de improviso! O resultado ficou muito bom, embora seja difícil, às vezes, mensurar o efeito lendo as duas versões. Mas é isso aí, consciência nas palavras!
ResponderExcluirMuito obrigada pelo retorno, Flávio. Muito legal o exercício do improviso. Já está fazendo efeito nas coisas que sigo escrevendo. "Consciência nas palavras", vou levar isso adiante. Obrigada!
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