Aperto.
Aperta o passo e
sobe os degraus apressada. Sente um aperto, como todos os dias, coloca a chave
na fechadura e torce para ser a certa. Como todos os dias, deseja sentir-se em
casa. E como todos os dias, abre a mesma porta. E como todos os dias, tateia,
ainda no escuro, em busca do interruptor e da sensação esquecida.
Joga as chaves sob
a mesa. E os sapatos apertados para longe. Mas,
ainda o aperto – do corpo. Tira a roupa, mas ao invés do alívio, o aperto – de não
saber.
Aperta os olhos,
acostumou-se à escuridão. Abre os olhos e procura ao redor mais uma vez. Busca nas
coisas o lar que sempre lhe coube – apertado no mundo que criou – entre muros e
labirintos de si mesma.
Ali, no aperto
entre livros, contas e miudezas, as fotografias que enfeitam a casa e conservam
o passado, esse lugar de onde nunca se sai completamente. Mas, antes do lar, o
aperto da memória.
Repara nos seus
livros enfileirados, que têm a idade dos sonhos gastos pelo tempo, neles sempre
coube mais do que em si mesma. Mas, antes do lar, o aperto da alma.
Ouve seus
discos, onde cabiam sem apertos as risadas da casa cheia. Mas, antes do lar, o
aperto do silêncio.
Sentiu os
cheiros, onde cabiam as saudades e os reencontros, onde cabia a presença, pois
sabiam-se ali. Mas, ainda o aperto de não sentir.
Percorreu as
paredes, onde antes cabiam seus castelos. Mas, antes da ponte, o aperto de ser
ilha.
Sentiu o aperto.
O aperto de não caber mais. Na casa. Em si. Entendeu, ali, lar, vez em quando é
onde cabemos, sem aperto.
"Mas, antes da ponte, o aperto de ser ilha". A premissa de transbordar é conhecer o limite e saber que é preciso atravessar! Parabéns!!!
ResponderExcluirUau, apertou 18 vezes a tecla da repetição, Rayssa! Não é fácil, né? Estou curiosa para saber quais serão os próximos "constrangimentos literários".
ResponderExcluir"que têm a idade dos sonhos gastos pelo tempo" - que lindo!! Que difícil entender os lugares em que cabemos sem aperto. Adorei!
ResponderExcluirBela prosa, Rayssa. As repetições trouxeram um registro poético. E deixaram um aperto, pode ter certeza. Interessante que você usou várias repetições. "Como todos os dias" no primeiro parágrafo, trazendo a sensação de rotina, arrastada. O "aperto", que cria o efeito de intensidade, aquilo que não passa nem vai passar... E a fórmula "mas, antes...", trazendo essa ideia de retorno ao aperto, seja qual for o caminho tomado. Redondinho, diria. Isso aí!
ResponderExcluirGostei muito, Rayssa :)
ResponderExcluirUau, que lindo! Fiquei emocionada!
ResponderExcluirMuitas sensações ao ler seu texto. Bacana demais! Parabéns!
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