Exercício 01 - Rayssa Cunha

 

Aperto.

Aperta o passo e sobe os degraus apressada. Sente um aperto, como todos os dias, coloca a chave na fechadura e torce para ser a certa. Como todos os dias, deseja sentir-se em casa. E como todos os dias, abre a mesma porta. E como todos os dias, tateia, ainda no escuro, em busca do interruptor e da sensação esquecida.

Joga as chaves sob a mesa. E os sapatos apertados para longe. Mas, ainda o aperto – do corpo. Tira a roupa, mas ao invés do alívio, o aperto – de não saber.

Aperta os olhos, acostumou-se à escuridão. Abre os olhos e procura ao redor mais uma vez. Busca nas coisas o lar que sempre lhe coube – apertado no mundo que criou – entre muros e labirintos de si mesma.

Ali, no aperto entre livros, contas e miudezas, as fotografias que enfeitam a casa e conservam o passado, esse lugar de onde nunca se sai completamente. Mas, antes do lar, o aperto da memória.

Repara nos seus livros enfileirados, que têm a idade dos sonhos gastos pelo tempo, neles sempre coube mais do que em si mesma. Mas, antes do lar, o aperto da alma.

Ouve seus discos, onde cabiam sem apertos as risadas da casa cheia. Mas, antes do lar, o aperto do silêncio.

Sentiu os cheiros, onde cabiam as saudades e os reencontros, onde cabia a presença, pois sabiam-se ali. Mas, ainda o aperto de não sentir.

Percorreu as paredes, onde antes cabiam seus castelos. Mas, antes da ponte, o aperto de ser ilha.

Sentiu o aperto. O aperto de não caber mais. Na casa. Em si. Entendeu, ali, lar, vez em quando é onde cabemos, sem aperto.

Comentários

  1. "Mas, antes da ponte, o aperto de ser ilha". A premissa de transbordar é conhecer o limite e saber que é preciso atravessar! Parabéns!!!

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  2. Uau, apertou 18 vezes a tecla da repetição, Rayssa! Não é fácil, né? Estou curiosa para saber quais serão os próximos "constrangimentos literários".

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  3. "que têm a idade dos sonhos gastos pelo tempo" - que lindo!! Que difícil entender os lugares em que cabemos sem aperto. Adorei!

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  4. Bela prosa, Rayssa. As repetições trouxeram um registro poético. E deixaram um aperto, pode ter certeza. Interessante que você usou várias repetições. "Como todos os dias" no primeiro parágrafo, trazendo a sensação de rotina, arrastada. O "aperto", que cria o efeito de intensidade, aquilo que não passa nem vai passar... E a fórmula "mas, antes...", trazendo essa ideia de retorno ao aperto, seja qual for o caminho tomado. Redondinho, diria. Isso aí!

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  5. Muitas sensações ao ler seu texto. Bacana demais! Parabéns!

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