Dever de casa 1 (Vinícius)

A falta

    Abro a porta do meu apartamento, jogo as chaves em cima da mesa, a falta de ânimo e o cansaço me fazem desfalecer no sofá. Mais um dia. Finalmente já posso ser eu mesmo. Olho ao meu redor, fito o teto branco, meio amarelado e percebo que há algo diferente, falta alguma coisa.

    Quadros empoeirados, livros não lidos, sonhos não vividos. Tento observar com atenção, mas falta força. Sinto que algo está fora do lugar e não consigo identificar o que é. Talvez não me falte nada ou me falte tudo. Sinto que falta. Uma voz surda e trêmula que mastiga meus pensamentos indica que sim, falta alguma coisa.

    Falta-me o mar, falta-me o sol, falta-me risos soltos.

    Sinto falta de uma ausência, de uma saudade. A falta de um vazio também é falta.

    Agora, falta-me o ar. A respiração acelera, as inspirações e expirações ficam cada vez mais curtas, o coração dispara e a garganta dá um nó. Quero chorar. Não vou chorar. Falta-me o choro. Outra vez, falta força.

    Os olhos marejam, a lágrima escorre e molha de sal a minha angústia. A dor do choro entalado me obriga a encarar que me falta a vida, falta-me eu mesmo.

Comentários

  1. "Sinto falta de uma saudade", que coisa linda, parabéns pelo texto!

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  2. Que lindo! "A falta de um vazio também é falta". Me lembrou um trecho de Dom Casmurro, em que Bentinho diz, logo no início: "Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.". Obrigada!

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    1. Acertou em cheio a referência. A inspiração foi exatamente desse trecho! Muito obrigado.

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  3. Isso aí, Vinícius, vivemos tempos de falta. Sua personagem não está sozinha. Dá angústia, a repetição da palavra. Um efeito de acúmulo. Falta tudo, né. Sentir falta de uma ausência é o cúmulo da falta, e o duro é saber que, por vezes, é possível. Me incomodei um pouco com "sonhos não vividos". Cuidado com as expressões lugar-comum. Vamos, durante a oficina, lutar contra eles. Mas é isso, parabéns pela prosa!

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