Exercício 01 - Ana O. Rovati

 Exercício 01

Palavra: pés


 

            Bati os pés no capacho da porta, tirando o excesso de água das botas. Chequei se Kiko, o gato da vila que me usa como fornecedora de comida, estava ao alcance de meus olhos, não estava, entrei. Menos mal, deve estar imundo, pensei.

            Refugiada daquele dia infinito, sentei sobre a sapateira para me descalçar. Alonguei os dedos dos pés, deixei a bolsa e segui apenas de meias. Pés secos, que vitória! Como é possível eu ter levado tanto tempo para comprar um calçado de chuva? Não apenas os pés, mas também a garganta agradecia.

            Caminho então até a cozinha, ascendo a luz e, finalmente saindo do automático, respiro e penso como é bom estar em casa. 

            O que posso jantar? Abro a geladeira e tomo um susto ao sentir algo pesar sobre meus pés: Kiko! Como tu entrou aqui? Atirado, esticado e me seduzindo, estranhei tamanha proximidade. Sem dar muita bola, agitei os pés para afastá-lo e seguir com minha busca alimentar. Vejamos o que temos: queijo e manteiga. Que estranho. Sou intolerante a lactose, quando comprei isso?

            Confusa, sentei no banquinho de toda vida, apoiando a cabeça nas mãos: sob meus pés, um tapete desconhecido. 

            Dando um pulo do banco, passo de relaxada a alerta em um segundo, realizando que a cozinha é uma combinação daquilo que conheço misturado a hábitos e objetos de uma desconhecida. Olho novamente para os pés e percebo que minhas meias, que lembrava serem novas, na verdade estão gastas nos dedos e calcanhares. Meu coração dispara. Sinto medo junto a uma espécie de sintonia com aquelas alterações. Há utensílios incríveis! Meu corpo, agitado, começa a tocar em tudo que vê, como se buscasse qualquer explicação palpável diante de tamanho desentendimento. Por fim, encontro um calendário: estou em 2027. Meu dia infinito havia durado 5 anos, e eu não tinha percebido.

Comentários

  1. Ana, que bacana a ideia de um dia tão longo. É a metáfora de um dia difícil. A impressão de estar na casa de outra pessoa é instigante, chegamos a pensar que a narradora entrou na casa errada. Vou dar uma sugestão: corte a definição do tempo. "Por fim, encontro um calendário. Meu dia infinito havia durado tanto, e eu não tinha percebido". Isso jogaria a bola para o leitor, e o efeito se ampliaria, ao invés de se fechar. Veja se concorda. Isso aí!

    ResponderExcluir

Postar um comentário