MARINA
Nos últimos dias tudo havia dado errado.
Mas poderia ter dado mais errado.
Disseram a Marina que deveria olhar os detalhes de sorte em
meio a tanta falta de sorte.
Falta de sorte. Era assim que deveria chamar. E não azar.
Azar nunca.
Tinha tido um pressentimento ao sair de casa naquela sexta:
iria bater o carro. Não sabia como, nem onde, muito menos o porquê.
Estava indo comemorar seu aniversário de namoro.
A dúvida durou um lapso de segundo, como duram todas as
dúvidas, como duram todas as decisões que tomamos quando temos que pensar
rápido.
Marina freiou para o ciclista atravessar.
Durou muito mais que muitos lapsos de segundos para ouvir o
estouro. O motor? A batida. E a fuga.
Achava que pressentimento era coisa de filme, coisa de livro,
coisa de faz-de-conta.
No dia seguinte Marina saiu de casa com um olhar
investigativo sobre todos os carros vermelhos com que cruzava: estava de moto,
camuflada.
Passou por uma quadra. Muitos carros estacionados.
Teve um pressentimento.
Voltou.
E lá estava o Ecosport vermelho.
Pensou que poderia. Pensou que não poderia. Foi embora.
Daí pra frente o carro, a batida, a raiva e a vingança
preencheram todos os dias, todas as horas e todos os lapsos de segundo.
A vida de Marina era como um redemoinho puxando tudo pro seu
centro. E esse centro era a falta de sorte. Maré de azar, para ela. Mas não se
pode dizer azar.
Mas naquele dia Marina estava confiante. Sabia que tudo iria
dar certo, era só ter paciência. Essa é a regra mais antiga e todo mundo sabia
disso.
Com paciência Marina puxou o freio de mão, que não segurou o
carro, que passou por cima do seu pé e que ficou agarrado por baixo em um cano
de ferro chumbado no concreto que impedia os veículos de se aproximarem do muro
dos vizinhos. O fusca azul marinho ficou separado do muro por centímetros. Com
a porta aberta e enganchado por baixo, não ia para frente e nem para trás.
Marina olhou para o céu e logo viu a lua despontando por
trás dos morros.
Brilhante. Intensa. Cheia.
Era uma noite gelada de outono, próxima ao solstício de
inverno.
Marina voltou. Entrou em casa, deixou sua mochila e seus
pertences e saiu.
Desceu a rua rumo ao mar. A praia estava iluminada pela luz
da lua. As águas, límpidas e cristalinas. E calmas.
Marina foi, aos poucos, se despindo. Primeiro Marina tirou a
jaqueta. Depois Marina tirou o cachecol, o casaco, a blusa. As meias. As duas
calças. Marina sentiu a pele se arrepiar.
Era uma noite gelada de outono.
Marina, por fim, ficou nua.
Entrou nas águas do mar como quem recebe um abraço. Marina
tornou-se mar.
Que forte! Gostei!
ResponderExcluirNatasha, li 3 vezes seu conto e fiquei cheio de dúvidas. Não entendi o que aconteceu no acidente (você fez uma grande elipse, ali, que achei que seria elucidada em algum momento). Depois, não entendi o parágrafo do freio de mão; ela puxou freio de mão e o fusca passou por cima do seu pé? Será que perdi alguma coisa? Mas, enfim, entendi que ela se suicidou por culpa, mas não consegui desembaraçar esses acontecimentos. Dê uma olhada nisso e me diga se sou eu que estou entendendo o conto errado. : )
ResponderExcluirOi Flavio! Obrigada pelo retorno! Isso, é isso mesmo que vc entendeu. Quer dizer, não sei se por culpa, talvez seja uma reação a tudo. Mas vou dar um tempo, assim como com os outros textos, pra poder reler sem estar com a leitura viciada. Depois de reler muitas vezes tudo parece fazer muito sentido, quando às vezes não faz, né! Obrigada ;)
Excluir