(R)estante de
mim.
Daqui vejo uma
pequena lasca se soltando e revelando a sua antiga cor. Antiga? Não, a cor
original. Ali, bem naquele cantinho onde o sol sempre bate no mesmo horário.
Ali, onde eu já repintei algumas vezes, mas, por algum motivo, nunca lhe mudei
o local. Talvez, goste de saber que o sol sempre alcança o mesmo ponto.
Em meio a tantas
mudanças, algo que nunca mude.
Lembro o dia em
que ela chegou. E a batalha que venci para poder merecê-la.
“Ela não combina
com nada”, disse a amiga.
“Mas, você não
vê, ela vai estragar a decoração!”, confirmou a vizinha ao avistá-la no
corredor.
“É muito grande,
não vai caber, não, moça, melhor desistir”, disse o entregador, cansado e meio
emburrado, em pensar nos lances de escada acima. Com certeza, ela não valia o
preço do serviço, pensou ele.
E, foi assim que
ela chegou. Chamando atenção. Causando certo alvoroço. E deixando um dedão
marcado, o do entregador. Mas, por sorte, não houve danos. Ao menos, nela não.
E hoje ela está
ali, onde sempre posso vê-la. Onde posso precisá-la. Ao meu alcance.
E como eu
preciso dela.
Ela abraça quase
tudo que amo hoje em dia. Porque com o passar da vida, o que resta de nós cabe
em espaços cada vez menores.
Os seus livros preferidos no lugar de
destaque. Agora são meus também. As páginas marcadas, com um pedaço de folha
rasgada, ainda estão todas lá. De vez em quando é bom relê-las, com cuidado. Com
saudade.
Ela já foi
cinza, já foi azul, hoje está amarela, sim, exceto naquele ponto ali, entre a quarta
e quinta prateleira, onde o sol bate, ali permanece cinza, lembrando que foi
assim um dia.
A velha estante de
aço, com suas cinco prateleiras, meio tortas, pelo peso dos livros e do tempo.
Uma delas, a
mais baixa, com sinais de ferrugem bem na parte do meio, onde – apesar do
esforço – nunca consegui desempenar totalmente. Mas, a ferrugem lembra que um
dia ela já foi degrau para eu alcançar o livro mais alto.
Daqui vejo
aquela lasca que mostra o cinza, e de repente sei por que a deixo ali. O cinza
original, de quando ela estava naquela mesma posição, com os mesmos livros,
quando ainda eram dele. E a lasca de tinta caída me lembra de quando só a
estante era cinza.
“(R)estante de mim” é um título genial, Rayssa. E o final cinza foi lindo. Caramba, precisamos de uma festa de arromba depois dessa rodada! ;)
ResponderExcluirObrigada!! Não sei se é problema aqui no meu login, mas não apareceu teu nome para mim, só "anônimo".
ExcluirHa! É que eu escrevi no celular sem fazer o login. É Adriana. :P
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirRayssa, gosto de como personagem e objeto se misturam. O pedaço cinza como um machucado, uma cicatriz, que é evidenciada no final. Você fez um ótimo exercício de estranhamento, ao focar nesse detalhe: é uma estante única, de uma personagem única. E, embora fiquemos curiosos sobre tudo o que aconteceu durante as trocas de cores da estante, ficamos confortáveis no papel de imaginar, essa grande elipse que você propõe, essa ausência de alguém. O leitor se encarregará de rechear essa lacuna. Isso aí!
ResponderExcluirGostei muito, Rayssa! :)
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