A PARTIDA
Começou com um tremor no canto esquerdo do rosto, que se
espalhou pelos lábios e preencheu toda a boca: uma gargalhada. Não recordava há
quanto tempo havia deixado de sorrir o sorriso dos alegres. Um sorriso um pouco
culpado, pois não se deve sorrir após perder um ente querido. Não se deve
sorrir após a morte de seu próprio pai. É claro que no fundo havia tristeza,
perdera aquele que havia dedicado sua vida a mim. Meu pai era um homem firme em
suas convicções e nunca permitiu que eu casasse. Nem eu, nem minhas duas irmãs.
Talvez isso não fosse um problema, afinal quantas moças não vivem felizes a sua
vida de solteiras? Talvez isso não fosse um problema, uma vez que todos um dia
morrem e levam consigo suas ideias - ou ao menos podem muda-las ainda em vida. Mas
não o meu pai. Viveu com muita saúde e - o pior - com lucidez até seus 98 anos.
Depois do funeral pensei em ir para casa e observar as ausências. Mas achei
oportuno encontrar alguns amigos para matar o tempo com uma partida de baralho,
assim como fazíamos eu, minhas irmãs e meu pai. Quando me deitei, tinha ainda o
sorriso nos lábios. Começou com um formigamento no braço que foi subindo,
preenchendo e apertando todo meu peito. Começou com um
formigamento no braço e terminou com uma pontada, explodindo o coração.
Eita, Natasha. Meus personagens preferidos, estes torcidos, contraditórios, esquisitos. E, diria, verdadeiros. Gostei muito de ver você usando as repetições, de diversas maneiras. Funciona, e bem. Eu cortaria o "Era essa, afinal, a tal felicidade?". Essa frase tenta arrematar algo que já está ali, esse comportamento estranho. Deixe que o leitor identifique esse sentimento da forma que ele conseguir, ou quiser. Isso aí!
ResponderExcluirObrigada, Flavio!! Feito :)
Excluir