Exercício para casa 03 - Jogo do observador (Natasha Mota)

 A PARTIDA

Começou com um tremor no canto esquerdo do rosto, que se espalhou pelos lábios e preencheu toda a boca: uma gargalhada. Não recordava há quanto tempo havia deixado de sorrir o sorriso dos alegres. Um sorriso um pouco culpado, pois não se deve sorrir após perder um ente querido. Não se deve sorrir após a morte de seu próprio pai. É claro que no fundo havia tristeza, perdera aquele que havia dedicado sua vida a mim. Meu pai era um homem firme em suas convicções e nunca permitiu que eu casasse. Nem eu, nem minhas duas irmãs. Talvez isso não fosse um problema, afinal quantas moças não vivem felizes a sua vida de solteiras? Talvez isso não fosse um problema, uma vez que todos um dia morrem e levam consigo suas ideias - ou ao menos podem muda-las ainda em vida. Mas não o meu pai. Viveu com muita saúde e - o pior - com lucidez até seus 98 anos. Depois do funeral pensei em ir para casa e observar as ausências. Mas achei oportuno encontrar alguns amigos para matar o tempo com uma partida de baralho, assim como fazíamos eu, minhas irmãs e meu pai. Quando me deitei, tinha ainda o sorriso nos lábios. Começou com um formigamento no braço que foi subindo, preenchendo e apertando todo meu peito. Começou com um formigamento no braço e terminou com uma pontada, explodindo o coração.

Comentários

  1. Eita, Natasha. Meus personagens preferidos, estes torcidos, contraditórios, esquisitos. E, diria, verdadeiros. Gostei muito de ver você usando as repetições, de diversas maneiras. Funciona, e bem. Eu cortaria o "Era essa, afinal, a tal felicidade?". Essa frase tenta arrematar algo que já está ali, esse comportamento estranho. Deixe que o leitor identifique esse sentimento da forma que ele conseguir, ou quiser. Isso aí!

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