Balanço, Cadeira de
Ela a visitava quase todos os dias. Era gangorra, balanço, escorregador. Era uma ponte para acessar o reino das sereias que cuspiam fogo e berravam água, que protegia seus pés, tão curiosos quanto delicados, das correntes inesgotáveis de lava ardente. Ela tinha cinco anos, espontâneos. Ele se esparramava quase todos os dias. Era praia, só que mais fresca; era montanha, só que mais alta; era riacho, só que mais doce. As pernas nunca se decidiam, se estiradas ou encolhidas. Os quadris gostavam de variar. Só os braços é que não abriam mão do aconchego da certeza, do ângulo que não era agudo nem obtuso. Ele tinha 45, torcendo pelos 46. Ela a ignorava quase todos os dias. Era obstáculo, uma síncope espaçosa na harmonia da sala; era supérflua, poderia ser trocada por um grande vaso de espadas de São Jorge, talvez até dois; era inconveniente, uma predadora de dedos mindinhos; era feia, sinuosa, desarranjada, um cabide para roupas recém-recolhidas do varal, a meio caminho do cesto para passar. Ela tinha 35 anos, ninguém daria mais de 25. Ela era de madeira, espuma e chiffon. Balançava, entretinha, acomodava, obedecia. Era só pedir. Ela tinha 8 anos, deveria durar mais 80.
Cássio, reitero meus elogios que lancei na oficina. Muito bem escrito, urdido, e com um registro poético na medida da prosa. Merece um título. Talvez um que ilumine essa cadeira. Difícil inferir, mas penso em como seria o entendimento do conto sem a enunciação do exercício. Como funcionaria? Isso aí, muito bom!
ResponderExcluirObrigadíssimo pelos elogios, Flávio.
ExcluirSeu desejo é uma ordem. Acabei de meter um título. Tomara que alcance o efeito que pretendi aqui.