Acordou num ímpeto: sonho ou realidade? Muitas vezes é no limbo entre o que se vive e o que se deseja que se dá seu despertar. Os gatos estão agitados, talvez com fome, talvez gastando a energia acumulada inerente aos felinos que vivem enclausurados em apartamentos. Precisa levantar. O celular chama, clama, e ele corresponde - não consegue fugir da rotina de todas as manhãs: coloca lenha na fogueira da ansiedade com a ajuda imprescindível da tecnologia.
Meia hora depois, se levanta. Precisa passar o café. Adiciona a canela, que dá à bebida um sutil toque rústico. Come o de sempre: uma tapioca com queijo mussarela, espinafre e temperos variados. O celular o acompanha na refeição. O próximo passo é abrir o computador, se esparramar no sofá e tentar trabalhar. Esta é sempre uma tentativa frustrada, mas não consegue suprimir a ideia do prazer e trazer à superfície a necessidade de cumprir obrigações. É um adulto - determinados aspectos da vida acompanham este momento, outros não.
São dez da manhã. A cafeína, o celular e a prostração se amontoam um sobre o outro e dão origem à angústia. Leu outro dia, num livro que possivelmente permanecerá inacabado, que as pessoas padecem de melancolia. O que é a melancolia?, se pergunta. Um sentimento, uma sensação, uma doença? Conclui: é a melancolia que o prende a uma rotina que o faz mal.
Notou que esqueceu de tomar os remédios. São dois. Toma-os todas as manhãs há onze anos. Ajusta as doses aqui e ali, mas sabe que não há escapatória, que morrerá medicado. Isso significa, portanto, que não há cura para a melancolia? Que ela é, então, uma condição com a qual precisa aprender a conviver? Não gostaria que fosse assim. Mas é.
Se perde em um novo limbo, que parte de outra questão: se a melancolia não tem cura, de que adianta lutar contra os seus sintomas? Quais são os limites da terapia, dos hormônios da felicidade, dos efeitos de se estar com os amigos e de se acariciar os gatos?
Uma hora se passou, e a sensação é de que o tempo está estagnado, mais um forte estímulo para imergir num estado melancólico do qual sabe que é incapaz de sair. Volta a dormir, enfim, na esperança de voltar a sonhar.
Aqui, sem os verbos:
ResponderExcluirNum ímpeto: sonho ou realidade? Limbo entre vida e desejo. Gatos agitados, celular convidativo, lenha na fogueira da ansiedade. Café com canela. Tapioca com queijo mussarela, espinafre e temperos variados. Computador, sofá, trabalho. Tentativa frustrada. Vida adulta. Angústia instalada. Melancolia: sentimento, sensação, doença? Rotina: prisão. Remédios esquecidos. Ajuste de doses. Cura? Não. Novo limbo: o incurável versus a expectativa. Limites do prazer. Tempo estagnado. Estado melancólico. Sono. Sonho.
Eu achei muito bom, Beatriz! Acho que, ainda que não houvesse lido o texto com verbos primeiro, ainda dá para captar perfeitamente a sensação.
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ExcluirRayssa! Obrigada! Eu particularmente senti que a qualidade do texto ficou inferior, sabe? Mas talvez seja um apego excessivo à minha intenção inicial, que obviamente é mais difícil de se obter sem o uso dos verbos. Obrigada mesmo pelo seu comentário! :)
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ResponderExcluirDifícil saber qual versão eu gostei mais, Beatriz! A segunda talvez traga mais intensidade, né? Mas gostei muito! Parabéns!
ResponderExcluirBeatriz, você fez um belo exercício de corte. Talvez seu sentimento de falta venha do fato de você ter cortado até mais do que precisava, deixando o texto um pouco telegráfico. Mas, independente de gostar ou não, o sumo está ali. Esse era o objetivo do exercício, missão cumprida.
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